segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

OUTRAS DORES

Imagem do site http://sentimentosdaevinha.tumblr.com/
Tenho uma dor no osso da perna direita desde os meus sete anos, e tenho uma dor ainda pior no osso da perna esquerda desde meus cinco, elas já estão aqui há tantos anos que semana passada quando elas não apareceram, senti que tava faltando alguma coisa muito importante, e não gostei. Me habituei a essas dores, porque quando eu tô sozinha, sozinha mesmo, sozinha de gente, de bicho, de TV, de internet, de livros, de músicas, de vícios, são essas dores que me fazem companhia, e elas me são tão familiares e recorrentes e antigas e espaçosas e incomodas e interessantes, que na semana que elas desapareceram eu jurei que nunca mais ia ficar assim, sozinha de tudo. É claro que era mentira.
A gente se habitua as mais inusitadas coisas, eu por exemplo me habituei a essas dores e a um monte de outras dores, algumas que doíam tanto que eu nunca identifiquei o lugar exato onde elas habitavam. Não faço ideia de como seria a vida sem dor, acho que ninguém faz, é só que as pessoas não tem o hábito de admitir isso.
Na minha infância costumava ir a feira com a minha avó, eu e a minha prima concorríamos pra decidir quem iria em determinado domingo ser a companhia dela na feira, era um programa péssimo, muita gente, muito barulho, muitos cheiros, eu detestava aquilo, mas eu queria ir todos os domingos, porque depois de fazer todas as compras dos alimentos, a minha avó usava os últimos trocados e me deixava escolher alguma coisa do armarinho da feira, geralmente eu escolhia uma presilha de cabelo ou um anel de plástico, voltávamos pra casa caminhando, com aquelas sacolas pesadas, e muito cansadas, mas sempre valia a pena por causa daquelas lembranças. Mais tarde, já adulta, eu fiquei tentando entender porque ganhar aquelas coisas era tão importante, já que dentro das possibilidades da minha família eu tinha tudo, a melhor escola, os melhores brinquedos, as melhores roupas, porque tanto sacrifício por aquelas bobagens baratas, cheguei a conclusão que não eram as lembranças, nunca foram, era o olhar da minha avó enquanto me dava elas. Muita coisa mudou desde aquele tempo, minha avó não vai mais a feira, ela tem 80 anos e sua idade já não lhe permite, eu não sou mais criança, as presilhas de cabelo saíram de moda e consequentemente dos armarinhos das feiras, e os anéis de plásticos já não cabem nos meus dedos, e todos os domingos quando a minha mãe acorda cedo pra ir à feira com a minha tia e fazer as compras da minha avó, ás exatas sete horas, eu sinto a dor de não sermos eu e a minha avó a irmos à feira, mesmo ela ainda me olhando daquele mesmo jeito cada vez que me dá algo. E esse é o tipo de dor que se um dia passasse ia me fazer uma falta imensa.
Soa um tanto destrutivo que dentre tantas coisas no mundo, os seres humanos ainda sintam falta exatamente das dores, de algumas delas pelo menos, não posso falar pelo resto da humanidade, mas as minhas dores são guardadas em caixas imaginárias junto com as suposições do que eu teria sido ou de como estaria hoje sem elas. Por isso elas fazem falta de vez em quando, e por isso gosto de tê-las por perto, é porque sem elas toda a minha formação estaria condenada ao fracasso e eu jamais seria a mesma. Provavelmente pareceria mais sábio dizer aos mais jovens que fujam das dores, das físicas e emocionais e daquelas que de tão emocionais transfiguram-se físicas, mas não é. As dores são pra ser aproveitadas, contempladas, revisitadas, impróprias. A dor do primeiro amor, e do último; Do adeus, e do até mais; A dor de inventar uma dor pra se refazer de uma ainda pior, a dor da ilusão despida e da realidade coberta, a dor de saber que nada nunca volta, e que nada nunca é como deveria ser. A dor é pra ser desfrutada, como a pele que desfruta do sol.
Essa semana a dor no osso da minha perna direita, aquela que tenho desde os sete anos, voltou. E a dor no osso da minha perna esquerda, aquela que tenho desde os cinco e que é ainda pior, também voltou. Poderia estar me lamentando, afinal nada se compara ao desprazer de uma dor reavivada, mas não, eu apenas fico aqui, sentada, usando o gel e o analgésico de sempre, porque a primeira vez que as minhas pernas doeram eu me desesperei, hoje não, hoje elas podem doer a vontade, já sei que passo por elas, que sou maior do que elas. É assim a vida... Depois que a gente passa pelas dores a primeira vez, a gente descobre que quanto maior a dor, maiores nós nos tornamos enquanto passamos por ela. E no fim das contas, nem é da falta da dor nos ossos das minhas pernas que eu tava falando, mas acho que todo mundo que já doeu assim tanto, assim com o cabelo, com os dentes, com os dedos, com a palma da mão, com os olhos, com a nuca, com a alma, já sabe, já percebeu, que definitivamente eram de outras dores que eu falava. De outras dores. Tiara Sousa

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

#QUEMNUNCA#FODA-SE#EDAÍ

Quem raios nunca utilizou uma hashtag na vida, fez um textão no Facebook, postou algo e se arrependeu? Quem jamais transou numa barraca, dormiu numa rede ao ar livre, saiu com uma mochila por uma cidade estranha procurando um lugar barato pra dormir? Quem em nenhuma hipótese fez amor na praia ou entrou de penetra numa festa? Quem nunca tomou um porre e despertou ao lado de alguém que por acaso era o alguém certo, ou o errado? Quem nunca mandou todos os padrões de beleza inalcançáveis à merda, pôs um biquíni mínimo e expôs gorduras, estrias, flacidez e celulites numa praia lotada e ainda assim fez ao menos uns trinta homens babarem? Quem nunca beijou mais de alguém numa mesma balada, deixou o namorado de boca aberta ao ser a primeira a pedir a luz acesa, saiu por aí com os seios balançando porque sutiã aperta, transou na mesma noite que conheceu um cara ou deu uma de mocinha só pra dar uma de mocinha, deixou de guardar um segredo? Quem nunca deu uns amassos no banheiro do bar, furou uma fila, xingou um juiz de futebol, mandou alguém ir tomar no meio do seu *, passou meses sem fazer as unhas só por preguiça? Quem de modo algum contou ou sorriu com uma piada de loira, de preto, de gay, de gordo, de português? Quem nunca gargalhou com a queda de alguém, quem jamais ferrou com tudo, ou derrubou um copo cheio de suco numa mesa toda arrumada? Quem não se questionou no caso de encontrar uma mala cheia de dinheiro, se devolveria ou não? Quem nunca discutiu sabendo que estava errado e querendo parecer certo, chifrou o(a) namorado(a), vestiu uma roupa nada a ver e só se deu conta de que ela era nada a ver tempos depois olhando uma foto? Quem jamais quis aparecer? Quem nunca mentiu?
Quem em nenhuma hipótese fez ao menos metade das situações citadas acima? Quem em nenhuma hipótese julgou de maneira pública ou privada alguéns que já tenham feito algumas das situações citadas acima? Quem em nenhuma hipótese foi julgado por ter vivido alguma das situações citadas acima? QUEM?
E daí! Se a garota bela, recatada e do lar, não é tão recatada e do lar assim, se ela fala palavrões ou senta errado, ou usa saias menores do que a sua mãe aprovaria. O que importa pra quantos caras ela já deu se agora o único cara pra quem ela tá dando é você? E daí! Se o cara tem um gosto estranho pra filmes, se ele gosta de música ruim e se diverte jogando vídeo game. O que importa que ele tenha sido um galinha a vida inteira se agora ele é só seu e ainda é ótimo de cama?
Foda-se que o seu melhor amigo tenha olheiras imensas e a sua amiga do peito seja meio vadia (sim feministas da última estação, eu usei a palavra vadia). Quem nunca teve uma amiga vadia? Quem nunca foi a amiga vadia? Foda-se que fulano de tal seja insociável e cicrano seja sociável demais. Nada disso faz de alguém um sociopata, um psicopata, um intolerante, alguém impossível de conviver. Ninguém, absolutamente ninguém é uma foto de perfil na Rede Social ou apenas o que diz na Timeline. Fala sério né, tá todo mundo cansado de saber que na Rede ou na vida social a gente quer parecer mais bonito, mais inteligente, mais criativo, mais dentro dos padrões que nos encantam do que realmente somos.
Ninguém é tão interessante assim, tão admirável assim, tão culto assim, tão genial assim, exceto Chico Buarque, mas convenhamos, ninguém além de Chico Buarque é Chico Buarque.
Parem de tentar ser os detentores da sabedoria, parem de defender com unhas e dentes e moral e bons costumes o que na maior parte do tempo vocês nem praticam, parem de assumir personagens pra ser mais interessantes aos olhos de uma tribo ou outra. Eu nunca conheci ninguém que fosse uma coisa só. Ninguém é só hiponga, só alternativo, só ambientalista, só politizado, só esquerda, só direita, só MPB, só música sertaneja, só vegano, só carnívoro. A garota hiponga assiste Big Brother, e daí! O cara alternativo detesta o cheiro de maconha, e daí! O ambientalista passou as férias em Nova York, e daí! O cara politizado cansou de ler notícias e agora tá assistindo Walking Dead, e daí! A senhora de esquerda come caviar e passeia de Uber, e daí! O carinha de direita foi dar um rolé em Cuba, e daí. E DAÍ!
E daí, já saímos do Ensino Médio, acabou. Acabou essa história de minha turma, sua galera, ninguém foi uma coisa só ali, muitos de nós só estávamos fingindo, pra nos encaixarmos e pra sermos aceitos, mas já deu né, a adolescência passou, o tempo é rápido e não temos que passar a vida sendo isso e isso e pronto, todo mundo é inconstante, todo mundo muda de ideia, todos temos uma opinião diferente ainda que defendamos os mesmos ideais, se encaixar muitas vezes é se castrar e se castrar é se privar dos maiores prazeres da vida e invadir o livre arbítrio do outro. Libertem-se e libertem os outros das suas opiniões desnecessárias e preconceituosas sobre a vida deles. DELES, não suas. Como é que eu vou ensinar alguém que o preconceito é feio se eu julgo todos os dias as pessoas pelos seus gostos, aparência, preferência e estilo de vida. COMO?

Sempre achei que a igualdade morasse no fato de reconhecermos que ninguém é igual e nem tem que ser. E antes que cheguem mensagens na minha caixa de e-mail dizendo que eu passei o texto inteiro falando sobre julgamentos e isso não deixa de ser um julgamento, eu lhes pergunto... E daí? Isso não os impede de compreender essa mensagem e nem me impede de mudar de ideia amanhã e essa carapuça também me serve. Ah e antes que eu esqueça... Um Feliz 2017 a todos! #Tiara Sousa

sábado, 2 de julho de 2016

CABARÉ DE SONETOS

A cidade me tortura. Vejo em volta e de repente estou num cabaré de sonetos e todas as dores na rua se oferecem pra doer em mim. Acho que é isso que as pessoas por aí chamam de tristeza, e eu, que por tantas vezes já fui tão triste, nunca realmente tinha sido triste assim, com a pele ressecada de erotismo e fé.
Está tudo tão vago. Ainda bem que já fiz as compras, eu quase perdi o tesão pelo dia seguinte na semana passada, tenho tão pouco tempo e tanta gente pra amar depois do pôr do sol, antes que a vida soe ainda mais efêmera e eu me encontre dentro de um dialogo cênico entre atenienses e espartanos, sem saber por quem dialogar ou até mesmo com quem.
Gostaria de ter um manual de mim, mas sempre achei difícil me estabelecer onde todos costumam se estabelecer. Já fiz de tudo pra ser todos, mas ser todos é algo tão humano que demonstra desumanidades, e isso me coloca do lado desconfortável de fora. Sou detestável por isso? Não. Não se julga uma cronista pelos primeiros parágrafos. Sou detestável por outras milhares de coisas, mas não por amar com tanto conteúdo uma forma rasa, e nem pela enxurrada de tristeza pela falta de alguém que nunca me prometeu nada.
Estou triste. Ponto. Sentada em algum lugar entre o joelho dele e os meus desencantos. As mãos hábeis dele atravessam a minha lucidez e parece até incompetência minha não ser feliz nem por um segundo, nem por um único, incógnito, frio, feroz, mísero segundo. -
Estou triste. Ponto-. Perdida entre a minha mania de estalar os dedos e o modo como ele corta as unhas, com tanta vaidade que faz cada unha ser miseravelmente um lamento profundamente oco de uma sociedade que se curva aos julgamentos moralistas e estéticos do senso comum. E nós aqui, existindo entre a ilusão do sexo sem alma e a alma sem alma aos quais tanta alma transpiram. Aqui, entre o paladar dele e a minha vontade de ser amada junto com todos os meus defeitos, infantilidades, neuroses e contestações.
Estou triste. Ponto. É- que a intercessão do meu odor de cigarros e do perfume barato dele eram nauseantes formas de eu me sentir acompanhada e dele se sentir incomum. Ao meu lado ele caminhava reticente de tudo o que não conhecia e julgava mal e eu caminhava ao lado dele cortejada pela ironia de uma união contraditória. E enquanto caminhávamos juntos o gozo dele era o meu recato original.
Estou triste. Ponto. Porque a tristeza ocupa meus dias banais e a alegria sempre me soou ignorante. Porque de todos os corpos que já uniram-se ao meu, só o dele,  proletário dos corpos, tem o sabor agridoce e agressivo da passividade. E eu só consigo existir no vão do suor dele e das minhas lágrimas.
Estou triste. Ponto. Poderia enumerar um milhão de razões pra isso e nenhuma teria cabimento, pois pra caber nos lugares por onde eu ando tem que romper com estruturas fictícias e sangrar fossas. Tem que cortar nossa sombra ao lado esquerdo da cama, aquele contrário de onde ficava o abajur vermelho, coberta por um lado dele que eu criei e acreditei. Um lado metade fantasia, metade loucura.
Estou triste. Ponto. Onde eu começava ele não alcançava, o fim sempre esteve ali, entre nossos beijos intempestivos, nossos lençóis descartáveis e a imensa muralha que separava o meu eu rústico do eu dele lapidado. O único lar que tivemos, que ousamos ter, foram nossos corpos nus de roupas, de medidas, de promessas, de constrangimentos, de eternos.
Estou triste. Ponto. E estar triste é estar trancada no corpo dele, no cotovelo rosado, nos olhos claros, no antebraço perfeito e me sucumbir de lembranças pessimistas do que eu tive até dizer chega. Eu disse: Chega! Mas o motivo, o verdadeiro motivo nunca chegou.
Estou triste. Ponto. Porque o lugar onde sentávamos pra conversar é hoje um aglomerado de pedras onde defecam os pombos e a cama em que ele fingia me dominar enquanto eu fingia ser dominada é apenas um móvel refugiado dos princípios que um dia me sobraram e hoje me escapam. E eu caminho por um beco escuro que oprime os planos que não nos atrevemos a fazer com os desejos que deixamos de conter.
Estou triste. Ponto. Nada é tão soberano que não caiba numa folha de papel. Pedi que ele guardasse os seus sentimentos mais teóricos para outras mulheres mais práticas, previsíveis, tolas e encantadoras do que eu. E ele guardou. E eu nunca o perdoei por ter me obedecido. E pra onde olho as dores se oferecem pra doer em mim, como num cabaré de sonetos, e eu as aceito, como num cabaré de sonetos, e elas doem latejantes, como num cabaré de sonetos, e acho mesmo que é isso que as pessoas por aí chamam de tristeza. A cidade me tortura e eu estou triste. Ponto. Ponto. Ponto... Tiara Sousa

sexta-feira, 17 de junho de 2016

UM TRECHO DE MÁRIO QUINTANA PARA VIVIANE

Para os leigos acerca da vida desinteressante e não tão subversiva desta autora que vos fala, devo começar lhes informando que eu, Verissa e Viviane somos amigas de infância, segundo Verissa, da infância dela, porque eu e Viviane somos um pouco mais velhas...
Depois de tantos anos, noites, descobertas, merdas (sim, merda) é só juntar essas duas loiras com esta preta que vos fala que a Segunda Guerra Mundial fica parecendo história em quadrinhos ou no máximo filme de arte francês, subjetivo e  sonolento. Pois é, depois de tanto tempo e transformações eu e esses dois seres humanos ainda quebramos o pau de vez em quando, ainda choramos lágrimas de crocodilo umas nos ombros das outras, ainda arquitetamos planos surreais de como assaltar bancos e ficar ricas, ainda nos amamos. Somos três pessoas extremamente diferentes, nos vestimos diferente, vemos a vida de uma perspectiva diferente, sonhamos sonhos diferentes, mas andamos por aí como se fôssemos siamesas. Claro que não foi sempre assim e nem será, mas as mesmas ocasiões que por tantas vezes nos separam, por vezes acabam nos unindo.
Verissa é a contradição em pessoa, isso pode soar como falta de personalidade, mas é só passar cinco minutos com ela pra compreender que o óbvio pode entrar em contradição e que só pra contrariar o que ela tem é excesso de personalidade. Eu não, posso facilmente ser confundida com uma revista de variedades ambulante, tudo em mim nasce do excesso, é informação demais para um conteúdo tão intento e no fundo mais simples do que parece, beirando o comum, desorganizado e fatorial. Já Viviane, é o mais distante possível de uma expressão condescendente, ela é o oposto do que você pensou, ela é sempre o oposto, e é por isso que após essa introdução, devo confessar que é dessa moça que hoje comemora aniversário que vou falar, e antes que você leitor pare a leitura por aqui, supondo que esse é somente mais um texto apaziguador sobre uma amiga, e que não vai acrescentar nada mais a sua vida, aconselho que continue a leitura, pois até o fim você irá encontrar alguma coisa nesta moça que tem em todas as moças, que tem em você, e nunca mais vai esquecer...
Eu e as meninas temos o hábito burguês de tomar banho de piscina na casa de Verissa, não por futilidade, mas por uma questão de entretenimento. Há muito tempo que eu almejo o dia ensolarado em que ao invés de eu entrar cuidadosamente na piscina irei simplesmente me jogar lá, sem me preocupar com a profundidade, sem calcular os riscos, sem temer as probabilidades de eu me machucar e quebrar todos os meus ossos, mas nunca consigo. Meu corpo inteiro se paralisa diante do novo, do desconhecido. Viviane não, ela não pensa. Vestida, ela simplesmente se joga. Não que não exista temor, existe, sempre existe, mas pra ela se jogar é mais importante. Viviane é o tipo de pessoa que poderia ter nascido em qualquer lugar do Brasil, ela certamente se adequaria a cultura e a crença, mas desatenta nasceu numa cidadezinha de aproximadamente seis ruas chamada Bequimão, isso mesmo, interior, baixada maranhense. Lá naquele lugar, onde Judas perdeu as botas, onde a internet, a TV a cabo e o celular touchscreen são acontecimentos de larga escala, onde tudo é observado através de uma lente de aumento, e sim, onde claro, ainda se fazem grandes festas de inauguração de piche(que é como os conterrâneos chamam asfalto). Lá naquele lugar em que (sofro em admitir) a beleza é singela como uma lágrima. Mas muito cedo, Viviane percebeu que ela era maior do que Bequimão City (modo sarcástico como gostamos de chamar), que seus sonhos, e desejos e sedes e fomes eram maiores do que todos os metros quadrados (como se fossem muitos risos) daquele lugar. Então ela veio a São Luís, trazendo além de roupas na bagagem uma vontade imensa de se reinventar. Só que São Luís, embora distante de um exemplo de progresso, não tinha tanto em comum com Bequimão, eram muitos rostos estranhos, muitas melodias novas, muitos conceitos abrangentes, muitas ocasiões, muitas tribos urbanas, e o que poderia assustar muita gente desabituada a tais novidades, fez Viviane se encantar. Ela não tinha medo dos olhares resistentes e nem dos intelectos absolutos, nem mesmo dos mais fomentados debates, ele tinha gana de tudo isso e dos negros lindos que passavam pelas ruas.
Se eu aqui fosse discorrer de modo objetivo a história dessa loira, certamente muitos leitores iriam pensar que ela é só mais uma moça do interior que veio para a cidade e fez e aconteceu, porque a história de Viviane é no fim das contas só mais uma história entre tantas outras que ouvimos por aí. Exceto (e nesse caso o exceto tem peso) o fato da moça comum, de hábitos comuns, e sonhos comuns ser no fundo, bem lá no fundo, debaixo daquelas roupas sérias de trabalho e do modo magistral com que conduz os relacionamentos, uma louca de pedra. Ela quer conhecer e conhecer pra ela não é saber de cor os conceitos acadêmicos chatos, brilhantes e no fim das contas parciais, ela quer conhecer as histórias, os hábitos, as sensações, os desejos. Ela não quer sentar numa poltrona confortável assistindo o jornal e esperando que o mundo mude, ela quer sair e mudar o mundo. Ela não fez nem nunca vai fazer parte de nenhuma turma, não pelo motivo da maioria de não se encaixar, é porque ela se encaixa demais.
Viviane transita com habilidade entre o convencional e o insano, junta essas duas realidades opostas e mostra que o oposto é coisa da sua cabeça, e o pior é que você acredita, porque ela te prova isso com uma delicadeza bruta de quem já viveu muito e não viveu porra nenhuma. Porque ela ama a vida, ela ama tanto a vida que até o que abomina nela ainda soa e vibra vida.
Um dia talvez você passe por ela na rua. Um dia talvez uma rua que você conheça passe por ela, e você apressado(a) e desatento(a) nem a perceba. Mas deveria. Só ela consegue romper com o tradicionalismo com tanto ímpeto. Ela é uma Amélia feminista, uma santa profana, uma comum estranha. Ela nem faz ideia, mas se fizesse poderia mesmo transformar o mundo, e tanto ia fazer se ela fosse alcançar isso sendo a moça do interior ou a moça de todo lugar, até mesmo porque cosmopolita dos pés até a última gota de tintura loira do cabelo, isso não faz e nem nunca vai fazer a menor diferença. Até porque pra essa moça as diferenças são quase invisíveis, o que ela enxerga está além dos limites rígidos impostos pela sociedade, ela enxerga os olhares e o que se esconde por detrás deles, aquilo de que pouco se fala, aquelas coisas tolas que muitos insistem em ignorar, coisas assim como a amizade, esse sentimento e estado transitante que Mário Quintana sabiamente definiu como, "um amor que nunca morre". Que nunca morre loira. Que nunca morre loiras. Que nunca morre... Tiara Sousa

terça-feira, 7 de junho de 2016

LEMBRANÇAS ORNAMENTAIS

Acho um tanto infame, mas devo admitir que somente lá pelas 16 horas o dia começa a fazer sentido pra mim. É aquele momento em que os raios de sol parecem não provocar tanto calor e que as obrigações (eu lido com elas, mas não muito bem) começam a perder seu status. Na terça-feira passada neste exato horário, eu saí de casa em busca de alguma coisa nova, é necessário aqui ressaltar que diferente da maioria das pessoas, eu também não lido bem com coisas novas. Vou sempre aos mesmos lugares, sento nas mesmas cadeiras, leio os mesmos autores e repito os mesmos erros. Mas naquela terça não, naquele dia em especial eu queria algo diferente pra ornamentar as minhas lembranças futuras.
Entrei no carro sem paradeiro e sabendo que onde quer que eu fosse parar não haveria ninguém esperando por mim, a sensação de não ter ninguém a sua espera é de liberdade e solidão, duas das minhas quase paixões quase correspondidas preferidas. Nos raros momentos em que tenho esses rompantes acabo parando na praia, é que quanto mais decidida a romper com os hábitos cotidianos eu estou, menos eu consigo. O medo e o comodismo sempre comandaram capítulos importantes da minha estranha biografia. Ou talvez eu acabe por costume parando na praia pelo motivo óbvio de que vivo numa cidade quase que provinciana cercada de água por todos os lados. Ou talvez seja o meu condescendente amor pelo mar. Eu gosto do vazio. O vazio me acomoda, todo o resto me soa caótico. O mar me soa vazio. Sempre o percebi assim. Mas é importante ressaltar(não, não é importante ressaltar), mas ressalto assim mesmo que nesse dia em especial eu não acabei indo parar na praia. Gastei aproximadamente um quinto do meu precioso tanque de combustível pra chegar num bairro comum que poderia facilmente ser confundido com qualquer bairro de periferia da minha cidade. Estacionei o carro próximo a uma pracinha que embora me recordasse uma imensidão de coisas, fosse pelo visual abandonado e simplório, fosse pelo olfato, sentido que embora prejudicado por anos de dependência de nicotina ainda é o que mais me provoca lembranças e impressões, nunca havia estado ali. Um lugar novo e contraditoriamente encharcado de melancolia. Sentei num banco degradado da praça e passei aproximadamente uma hora ali, vendo pessoas, coisas e comportamentos, tentando compreender realidades submissas, histórias diferentes, peles marcadas, honras roubadas, conhecimentos exibidos e ignorâncias expostas. Tentando compreender talvez algumas coisas sobre mim, como o porque de eu ter saído com o vestido estampado e não com o short jeans naquele dia, ou o porque de eu ser alguém tão pouco sociável e simpática, ou então o porque de cem por cento do mundo que me cerca não atender as minhas expectativas sonhadoras e infantis. Ou talvez tentando apenas compreender as últimas notícias dos jornais, uma presidenta colocada num processo de impeachment por corruptos abraçados por boa parte da população, uma adolescente estuprada por mais de 30 homens acalentados por uma gente cruel que ao invés de debater a monstruosidade dos estupradores, gastam seu tempo julgando a exposição ao perigo em que a vítima se colocou, ou ate mesmo julgando a própria vitima.
E enquanto as crianças corriam pela praça, e os adolescentes declaravam suas paixões, considerando eterno o que só poderia mesmo existir no efêmero, e que os adultos apressados passavam com as suas compras do mercado, eu ali, tentando enxergar os motivos de um mundo tão cruel e pior, tentando conviver com o fato de ser parte dele.
Até o momento em que algo desfez meu superior desânimo e minha resistente distração, um homem de uns setenta e poucos anos, passou pela praça numa tranquilidade quase que inaceitável para o resto do mundo, aparentando nenhuma pressa, levantou a cabeça, suspendeu os olhos e por dois ou três minutos olhou para o céu, depois abaixou a cabeça, sorriu e voltou a caminhar. Não sei quem é esse senhor, seu nome, endereço, profissão ou estado civil, e nem mesmo troquei uma única palavra com ele, mas mesmo o desconhecendo nunca obtive de alguém como obtive dele uma resposta tão absolutamente satisfatória a um questionamento... Não faço ideia se ele olhou para o céu num ato de fé, de contemplação ou de qualquer outro motivo, mas se dentre tantas coisas ele parou e olhou e sorriu, ainda devem haver sensibilidades se sobressaindo a friezas, juras de amor vencendo duelos com juras de ódio, sofrimentos desaparecidos por momentos de alegria. Se aos setenta anos um senhor pode parar tudo o que está fazendo (ainda que o que esteja fazendo seja nada demais) para olhar para o céu, deve certamente existir um motivo pra naquela tarde eu trajar um vestido estampado ao invés de um short jeans, pra ser alguém tão pouco sociável e simpática, ou pra cem por cento do mundo que me cerca não atender as minhas expectativas sonhadoras e infantis.
Porque se ele pode olhar para o céu e sentir-se feliz somente por isso, talvez o mundo não seja por fim um lugar povoado por gente tão cruel, talvez eu apenas nunca antes tivesse sentado no banco certo, da praça certa, do bairro certo. Ou Talvez simplesmente eu, nós, só nunca antes tivéssemos olhado para o lugar certo. Foi essa a resposta ao meu questionamento, um questionamento nunca dito antes em voz alta, mas por tantas vezes gritado em silêncio. Depois levantei entrei no carro e saí. Não faço ideia de que bairro era aquele e nem como consegui encontrar o caminho de volta. Só sei que no dia seguinte acordei ás 7 da manhã como de costume, mas foi diferente, de repente me dei conta que mesmo tão cedo, o dia já fazia todo sentido pra mim.  Então tomei banho, me arrumei e saí, dessa vez sabendo exatamente para onde iria e que haveriam pessoas esperando por mim. Tiara Sousa