sexta-feira, 10 de março de 2017

A HIPOCRISIA QUE É FICAR MAIS VELHO

Imagem do site https://www.megapixl.com
Tenho 9 anos e sou apenas mais uma garotinha esperando que o pai a ame mais que o mundo e que a mãe dê mais atenção a ela do que ao trabalho, meu penteado se resume a duas tranças horrorosas que a minha tia fez com todo carinho, acho que nunca terei a sensível capacidade de compreender como se consegue fazer coisas tão horrorosas com tanto carinho. Estou sentada assistindo aula de logaritmos numa sala de uma escola burguesa, eu sou a única preta da turma, sou a única com essa tranças horrorosas, sou a única escrevendo poesia ao invés de copiar a aula, sou a única pensando na rachadura do meu banquinho preferido que fica na cozinha da minha casa, sou definitivamente a única imaginando que os logaritmos são células cor de abobora fantasiadas de dias nublados pra desfilar numa escola de samba no carnaval, ninguém mais se parece comigo, nem por fora e nem por dentro, por isso ás vezes prefiro sentar sozinha num banco no parquinho na hora do recreio ao invés de ir brincar. Tem uns quinze minutos que eu não entendo nada do que a professora tá falando, há uns meses atrás ela e as diretoras chamaram a minha mãe pra uma conversa, disseram que eu vivia no mundo da lua, que era muito calada e pouco sociável, que eu parecia fazer questão de não me encaixar e que um acompanhamento psicológico seria de grande ajuda para o meu desenvolvimento intelectual e social, minha mãe me levou a psicóloga, depois de diversas sessões voltou a escola com um papel que dizia que tudo o que eu tinha era um QI alto e que meus problemas de sociabilidade deveriam ser superados com a contribuição didática também da instituição de ensino, bem feito pra escola, agora a professora tá tendo que me aturar, e o pior é que eu gosto da escola e gosto da professora e adoro o fato de ela ter que me aturar.
Tenho 18 anos, estou sentada num barzinho chamado Bagda Café com o meu pai e mais um monte de amigos, estou tomando uma cerveja e falando coisas engraçadas, quem diria que a menina que eu fui um dia, isolada, hoje estaria cercada de gente, sorrindo, conversando e brincando, agora esse é o meu recreio, e dessa vez eu participo da brincadeira, enquanto tiver sob o efeito do álcool eu posso ser tudo o que esperam de mim, o problema é que eu esperava outras coisas de mim. O namorado da vez também tá sentado, ele parece preocupado comigo, como se eu fosse de vidro e pudesse quebrar, mal sabe ele que eu já nasci quebrada, não tem nada em mim inteiro com exceção dos sonhos e parece que a qualquer momento eles também quebrarão, porque tenho visto tanta coisa que tá ficando difícil acreditar no mundo que eu inventei, um mundo onde a dobradiça da porta esteja em sintonia com a havaiana que esqueci no meio da sala e a sala esteja em sintonia com o roteiro do filme da sessão da tarde e a sessão da tarde esteja em sintonia com os meus desejos mais oblíquos e infantis. E que nada nunca tenha que deixar de ser exatamente como acontece na minha imaginação, um mundo perfeito, em que nenhum nó seja cego e tudo possa ser desfeito com princípios e eloquências agradáveis.
Tenho 20 e poucos anos, estou num paraíso de cidadezinha no meio do nada, encontrei um camping legal pra ficar, tenho alguma grana, muita vontade de esquecer do que era pra ser e acabou não sendo e a vista mais bonita da cidade, mas sei que não vou ficar muito tempo por aqui, meu filho tá me esperando pra crescer comigo e eu entendi desde a gravidez que pra eu crescer preciso tá perto dele também. Hoje vai ter uma balada onde todos os turistas vão estar, já me arrumei e não vou perder, fiz amizade com uma galera de Fortaleza, da Colômbia, da Dinamarca, da Alemanha e da Argentina, eles são divertidos e parecem estar tão perdidos quanto eu, já saquei que vou acabar me apaixonando por alguns deles e escolher um vai ser a parte mais difícil do meu dia, é legal quando a parte difícil do dia é a mais fácil do ano, então acho que já comecei bem, depois vou dormir numa barraca com o som dos pássaros e a vista das estrelas e do mar, aqui não tem TV, internet, jornais e nada que me afunde na realidade, somente eu, culturas diversas e a distancia efêmera de tudo, acho que não vou sair daqui a mesma, e talvez eu tome um banho de mar quando amanhecer.
Tenho 31 anos, quase 32, tem duas horas que espero o momento em que eu consiga me sentir livre sem analgésicos, ou que a inércia não me faça voltar varias vezes uma cena de filme ou seriado que eu goste só por precisar daquela sensação, passei a usar mais sutiã e vestir menos branco, abandonei o celular descarregado e trincado em algum canto da casa, conclui que não precisava mais dele quando ele me deixou no momento que eu mais precisava, discuti com uma das minhas melhores amigas antes de antes de ontem, a gente sempre discute assim umas duas ou três vezes ao ano, geralmente eu não discuto com ninguém fora do meu período de TPM, não é da minha natureza, eu acho, mas tudo bem discutir com ela, porque provavelmente ela está entre as dez pessoas mais diferentes de mim no mundo e contraditoriamente ela também está entre as dez que eu mais amo, e eu sou egoísta demais pra compreender a generosidade dela e intolerante demais pra admitir que talvez ela só quisesse ajudar. Li três livros no último mês, era pra ser cinco, dois eu desisti, assisti uns dois seriados, fumei umas trinta carteiras de cigarro, nunca mais liguei a TV, me apaixonei por alguma coisa ás 15 horas da terça-feira, e nas 7:30 hs da quarta eu já não sentia mais nada, perdi as duas chaves do carro num intervalo de dois meses, perdi as duas chaves de casa no mesmo intervalo, perdi 7 quilos, sou boa em perder, mas tá tudo no lugar, o meu quadro das três meninas de costa olhando alguma coisa que nunca vou deixar de imaginar o que é, no lugar; Os meus vestidos longos, no lugar; A minha mochila preta, no lugar; Os meus olhos e pele e saliva e vagina e orelhas e ego e coração e dedos e cérebro, no lugar... É um saco essa minha vitória tão arduamente conquistada de estar a um bom tempo sem dar o fora de mim, e tudo isso não quer dizer muita coisa, além do quanto há hipocrisia em se ficar mais velho.

Porque no decorrer da vida vamos nos transformando num resumo clichê das auto versões que deixamos pelo caminho, e não importa o quanto a gente aprenda, quebre a cara, vire jogos, ensaie modos ou se enquadre nos padrões sociais, no que esperam de nós e no que nos dizem que é ser maduros, a nossa versão principal será sempre aquela mais antiga da qual se tem lembrança. E eu ainda sou a menina de 9 anos que não consegue se encaixar, e pior, que detesta ter que se esforçar todos os dias pra se encaixar, ainda espero que o meu pai me ame mais que o mundo e que a minha mãe dê mais atenção a mim do que ao trabalho, e na única lembrança que tenho de logaritmos eles são células cor de abobora fantasiadas de dias nublados pra desfilar numa escola de samba no carnaval. Tiara Sousa

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A TRISTEZA DE VERISSA

Imagem do Site
www.tuttartpitturasculturapoesiamusica.com
É Sábado, 18 de fevereiro de 2017, e Verissa disse que tá triste, muito triste, triste assim de um vazio imenso, melancólico, profundo, utópico, fantasioso, quase real. Eu disse a ela que tô mais fudida do que ela e comecei a recitar todos os meus problemas, ela nem estranhou a minha reação, me conhece tão bem que já espera esse tipo de coisa, sabe que eu sou presunçosa, pretensiosa, presumida, imodesta, arrogante, metida, esnobe, vaidosa, egocêntrica, enfatuada, afetada, cabotina, todos esses sinônimos, e ela sabe que mesmo na tristeza profunda melancólica vazia e chata dela eu iria dar um jeito de ser a protagonista, nem que pra isso eu tivesse que discursar minutos a fio sobre as mazelas da minha vida.
Perguntei a Verissa o motivo de tamanha tristeza, ela disse que era uma tristeza assim desmoronante, e que ela não conseguia encontrar um motivo pra ela, eu lembrei de um seriado antigo, monótono e infantil que eu assisti há uns anos e depois assisti novamente e provavelmente ainda irei assistir mais algumas vezes, porque ele filosofa e é triste e é inerente aos incomuns, então logo a questionei se não era algum seriado que ela tava assistindo, ela disse que não, e naquele momento detestei o fato de não conseguir explicar a tristeza dela mais do que detestei o fato de ela estar triste, talvez porque na minha mente insana fossem a mesma coisa, então me empenhei na missão infantil e tola de encontrar o motivo daquela tristeza, porque eu gosto de ter as respostas e porque se não as encontrasse, iria ter que admitir que num mundo de tantas guerras e fomes e dores e injustiças e corações partidos ainda existem tristezas sem motivo, e eu não queria pensar assim, porque se eu pensasse assim iria doer em mim, e eu amo detestar dores generosas.
Então depois de muito pensar e refletir longamente por uns 30 segundos, anunciei a ela que eu já sabia o que havia sido, e eram os três dias que ela estava sem me ver, que a minha ausência infame causa esse efeito nos meus amigos, e que ela ficasse melhor que logo iria me encontrar. Mas ela respondeu: kkk, e eu fiquei puta, Verissa poderia ter dito... É mesmo Tiara, deve ser saudade de ti, mas ela tinha que conseguir com três letras dizer que não era a minha ausência e ainda tirar uma onda com a minha cara, e eu pensando que os meus amigos se contorciam de saudade com a falta das minhas infinitas distorções de tudo. Mas eu não desisti tão fácil, Verissa não é de se abrir muito e se ela falou que tava triste, triste assim como uma fotografia démodé de uma artista vintage, era porque tava mesmo, e eu precisava de um porque, talvez mais que ela, afinal se eu ficasse intima da tristeza dela eu poderia sentir com ela, e quem sabe até sentir por ela, e nisso eu não tava sendo egoísta, eu acho.
Então comecei a dar minhas versões mirabolantes do que teria causado aquela tristeza, porque se não era seriado, e não era a minha ausência, tinha que ser alguma coisa. Meus palpites foram, a sociologia, ela disse que não, então falei se não seria falta de guloseimas, ela disse não, comi lasanha mais cedo, fiquei puta novamente, eu tinha comido torrada enquanto ela comia lasanha e não tava triste assim, que porra de tristeza poderia ser essa, nem perguntei se era algum cara, se não tava triste por falta de fast foods não era um homem, por mais gato, inteligente e viril que fosse que iria deixa-la assim. Minha cabeça já tava rodando, então resolvi dar conselhos do que não fazer quando se está triste, porque eu já fiquei triste assim, assim de doer na clavícula e sair nos olhos, assim de 7 a 1 em cima do Brasil em plena Copa do mundo, assim de cheirar a roupa do ex procurando pelo ex, assim de escovar os dentes querendo dormir e dirigir querendo dormir e transar querendo dormir e sorrir querendo dormir e até dormir querendo dormir, então certamente meus conselhos deveriam valer de alguma coisa, e eu comecei... Primeiro, saia, evite ficar em casa, a nossa casa é um lugar tão nosso que lá ser triste é mais fácil do que ser feliz; Segundo, não assista, ouça ou leia nada profundo, nada que te emocione, que te faça refletir; E finalmente... Terceiro, coma doces, o doce engorda, estraga os dentes, causa doenças, mas não existe nada mais eficaz do que eles nessas horas, ela disse então que já tinha feito tudo isso, mas que a tristeza continuava ali, na cabeceira da cama e na cama, na escrivaninha e na TV, no edredom e no furo no vestido velho, na saliva amarga e no amargo de tudo, e como eu tenho o hábito de visualizar todas as coisas que me dizem em cenas esdrúxulas, de repente eu pude ver a tristeza de Verissa, e mesmo eu soando assim tão insensível aos olhos comuns, eu pude senti-la por dois segundos e meio, e foram os dois segundos e meio mais abomináveis desde 1985.
Porque a tristeza de Verissa não deveria ser dela, dela não. Ela vê o mundo cor de rosa, por isso ela tem aquelas tranqueiras rosas espalhadas por todo o quarto, é a bruta mais doce que eu conheço, e ninguém no mundo é encantadora e irritadoramente mais inconstante do que ela, pois só ela sabe ser Caetano Veloso na segunda e Wesley Safadão na terça com a mesma paixão e empenho, sabe detestar gente e amar ir ao bumba meu boi, sabe acordar na sua linda casa no Calhau e dirigir até o Anel Viário pra tomar café da manhã, e quem mais além dessa moça é tão convencida a ponto de citar Freud como se estivesse citando um colega de turma, e tem milhões de partes dela que são só dela e que ela jamais vai dividir com ninguém, e gente assim não deveria ser triste nunca, nem mesmo nos sábados a noite quando todo mundo fica meio triste, nem mesmo sem motivo, nem mesmo assim.

Mas claro que eu não disse nada disso a ela, eu poderia ter dito, mas aí como iria ficar minha velha e boa fama de má, então não disse nada, liguei cinco minutos depois e perguntei se não eram gases, ela sorriu, e certamente me conhecendo como só amigas se conhecem, entendeu que aquela era a minha maneira de dizer... Conta comigo, tô aqui pra ti, eu posso ser presunçosa, pretensiosa, presumida, imodesta, arrogante, metida, esnobe, vaidosa, egocêntrica, enfatuada, afetada, cabotina, todos esses sinônimos, mas na tua tristeza eu serei sempre protagonista pelos motivos nobres, porque ela também é minha, e eu daria tudo (menos meu carro, meu notebook novo, meus vestidos acima de 200 reais, meus livros, meus CD’s, minha TV e principalmente aquela pulseira de palha que tu trouxeste da Colômbia pra mim) pra ser mesmo apenas gases e passar logo. Tiara Sousa

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

OUTRAS DORES

Imagem do site http://sentimentosdaevinha.tumblr.com/
Tenho uma dor no osso da perna direita desde os meus sete anos, e tenho uma dor ainda pior no osso da perna esquerda desde meus cinco, elas já estão aqui há tantos anos que semana passada quando elas não apareceram, senti que tava faltando alguma coisa muito importante, e não gostei. Me habituei a essas dores, porque quando eu tô sozinha, sozinha mesmo, sozinha de gente, de bicho, de TV, de internet, de livros, de músicas, de vícios, são essas dores que me fazem companhia, e elas me são tão familiares e recorrentes e antigas e espaçosas e incomodas e interessantes, que na semana que elas desapareceram eu jurei que nunca mais ia ficar assim, sozinha de tudo. É claro que era mentira.
A gente se habitua as mais inusitadas coisas, eu por exemplo me habituei a essas dores e a um monte de outras dores, algumas que doíam tanto que eu nunca identifiquei o lugar exato onde elas habitavam. Não faço ideia de como seria a vida sem dor, acho que ninguém faz, é só que as pessoas não tem o hábito de admitir isso.
Na minha infância costumava ir a feira com a minha avó, eu e a minha prima concorríamos pra decidir quem iria em determinado domingo ser a companhia dela na feira, era um programa péssimo, muita gente, muito barulho, muitos cheiros, eu detestava aquilo, mas eu queria ir todos os domingos, porque depois de fazer todas as compras dos alimentos, a minha avó usava os últimos trocados e me deixava escolher alguma coisa do armarinho da feira, geralmente eu escolhia uma presilha de cabelo ou um anel de plástico, voltávamos pra casa caminhando, com aquelas sacolas pesadas, e muito cansadas, mas sempre valia a pena por causa daquelas lembranças. Mais tarde, já adulta, eu fiquei tentando entender porque ganhar aquelas coisas era tão importante, já que dentro das possibilidades da minha família eu tinha tudo, a melhor escola, os melhores brinquedos, as melhores roupas, porque tanto sacrifício por aquelas bobagens baratas, cheguei a conclusão que não eram as lembranças, nunca foram, era o olhar da minha avó enquanto me dava elas. Muita coisa mudou desde aquele tempo, minha avó não vai mais a feira, ela tem 80 anos e sua idade já não lhe permite, eu não sou mais criança, as presilhas de cabelo saíram de moda e consequentemente dos armarinhos das feiras, e os anéis de plásticos já não cabem nos meus dedos, e todos os domingos quando a minha mãe acorda cedo pra ir à feira com a minha tia e fazer as compras da minha avó, ás exatas sete horas, eu sinto a dor de não sermos eu e a minha avó a irmos à feira, mesmo ela ainda me olhando daquele mesmo jeito cada vez que me dá algo. E esse é o tipo de dor que se um dia passasse ia me fazer uma falta imensa.
Soa um tanto destrutivo que dentre tantas coisas no mundo, os seres humanos ainda sintam falta exatamente das dores, de algumas delas pelo menos, não posso falar pelo resto da humanidade, mas as minhas dores são guardadas em caixas imaginárias junto com as suposições do que eu teria sido ou de como estaria hoje sem elas. Por isso elas fazem falta de vez em quando, e por isso gosto de tê-las por perto, é porque sem elas toda a minha formação estaria condenada ao fracasso e eu jamais seria a mesma. Provavelmente pareceria mais sábio dizer aos mais jovens que fujam das dores, das físicas e emocionais e daquelas que de tão emocionais transfiguram-se físicas, mas não é. As dores são pra ser aproveitadas, contempladas, revisitadas, impróprias. A dor do primeiro amor, e do último; Do adeus, e do até mais; A dor de inventar uma dor pra se refazer de uma ainda pior, a dor da ilusão despida e da realidade coberta, a dor de saber que nada nunca volta, e que nada nunca é como deveria ser. A dor é pra ser desfrutada, como a pele que desfruta do sol.
Essa semana a dor no osso da minha perna direita, aquela que tenho desde os sete anos, voltou. E a dor no osso da minha perna esquerda, aquela que tenho desde os cinco e que é ainda pior, também voltou. Poderia estar me lamentando, afinal nada se compara ao desprazer de uma dor reavivada, mas não, eu apenas fico aqui, sentada, usando o gel e o analgésico de sempre, porque a primeira vez que as minhas pernas doeram eu me desesperei, hoje não, hoje elas podem doer a vontade, já sei que passo por elas, que sou maior do que elas. É assim a vida... Depois que a gente passa pelas dores a primeira vez, a gente descobre que quanto maior a dor, maiores nós nos tornamos enquanto passamos por ela. E no fim das contas, nem é da falta da dor nos ossos das minhas pernas que eu tava falando, mas acho que todo mundo que já doeu assim tanto, assim com o cabelo, com os dentes, com os dedos, com a palma da mão, com os olhos, com a nuca, com a alma, já sabe, já percebeu, que definitivamente eram de outras dores que eu falava. De outras dores. Tiara Sousa

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

#QUEMNUNCA#FODA-SE#EDAÍ

Quem raios nunca utilizou uma hashtag na vida, fez um textão no Facebook, postou algo e se arrependeu? Quem jamais transou numa barraca, dormiu numa rede ao ar livre, saiu com uma mochila por uma cidade estranha procurando um lugar barato pra dormir? Quem em nenhuma hipótese fez amor na praia ou entrou de penetra numa festa? Quem nunca tomou um porre e despertou ao lado de alguém que por acaso era o alguém certo, ou o errado? Quem nunca mandou todos os padrões de beleza inalcançáveis à merda, pôs um biquíni mínimo e expôs gorduras, estrias, flacidez e celulites numa praia lotada e ainda assim fez ao menos uns trinta homens babarem? Quem nunca beijou mais de alguém numa mesma balada, deixou o namorado de boca aberta ao ser a primeira a pedir a luz acesa, saiu por aí com os seios balançando porque sutiã aperta, transou na mesma noite que conheceu um cara ou deu uma de mocinha só pra dar uma de mocinha, deixou de guardar um segredo? Quem nunca deu uns amassos no banheiro do bar, furou uma fila, xingou um juiz de futebol, mandou alguém ir tomar no meio do seu *, passou meses sem fazer as unhas só por preguiça? Quem de modo algum contou ou sorriu com uma piada de loira, de preto, de gay, de gordo, de português? Quem nunca gargalhou com a queda de alguém, quem jamais ferrou com tudo, ou derrubou um copo cheio de suco numa mesa toda arrumada? Quem não se questionou no caso de encontrar uma mala cheia de dinheiro, se devolveria ou não? Quem nunca discutiu sabendo que estava errado e querendo parecer certo, chifrou o(a) namorado(a), vestiu uma roupa nada a ver e só se deu conta de que ela era nada a ver tempos depois olhando uma foto? Quem jamais quis aparecer? Quem nunca mentiu?
Quem em nenhuma hipótese fez ao menos metade das situações citadas acima? Quem em nenhuma hipótese julgou de maneira pública ou privada alguéns que já tenham feito algumas das situações citadas acima? Quem em nenhuma hipótese foi julgado por ter vivido alguma das situações citadas acima? QUEM?
E daí! Se a garota bela, recatada e do lar, não é tão recatada e do lar assim, se ela fala palavrões ou senta errado, ou usa saias menores do que a sua mãe aprovaria. O que importa pra quantos caras ela já deu se agora o único cara pra quem ela tá dando é você? E daí! Se o cara tem um gosto estranho pra filmes, se ele gosta de música ruim e se diverte jogando vídeo game. O que importa que ele tenha sido um galinha a vida inteira se agora ele é só seu e ainda é ótimo de cama?
Foda-se que o seu melhor amigo tenha olheiras imensas e a sua amiga do peito seja meio vadia (sim feministas da última estação, eu usei a palavra vadia). Quem nunca teve uma amiga vadia? Quem nunca foi a amiga vadia? Foda-se que fulano de tal seja insociável e cicrano seja sociável demais. Nada disso faz de alguém um sociopata, um psicopata, um intolerante, alguém impossível de conviver. Ninguém, absolutamente ninguém é uma foto de perfil na Rede Social ou apenas o que diz na Timeline. Fala sério né, tá todo mundo cansado de saber que na Rede ou na vida social a gente quer parecer mais bonito, mais inteligente, mais criativo, mais dentro dos padrões que nos encantam do que realmente somos.
Ninguém é tão interessante assim, tão admirável assim, tão culto assim, tão genial assim, exceto Chico Buarque, mas convenhamos, ninguém além de Chico Buarque é Chico Buarque.
Parem de tentar ser os detentores da sabedoria, parem de defender com unhas e dentes e moral e bons costumes o que na maior parte do tempo vocês nem praticam, parem de assumir personagens pra ser mais interessantes aos olhos de uma tribo ou outra. Eu nunca conheci ninguém que fosse uma coisa só. Ninguém é só hiponga, só alternativo, só ambientalista, só politizado, só esquerda, só direita, só MPB, só música sertaneja, só vegano, só carnívoro. A garota hiponga assiste Big Brother, e daí! O cara alternativo detesta o cheiro de maconha, e daí! O ambientalista passou as férias em Nova York, e daí! O cara politizado cansou de ler notícias e agora tá assistindo Walking Dead, e daí! A senhora de esquerda come caviar e passeia de Uber, e daí! O carinha de direita foi dar um rolé em Cuba, e daí. E DAÍ!
E daí, já saímos do Ensino Médio, acabou. Acabou essa história de minha turma, sua galera, ninguém foi uma coisa só ali, muitos de nós só estávamos fingindo, pra nos encaixarmos e pra sermos aceitos, mas já deu né, a adolescência passou, o tempo é rápido e não temos que passar a vida sendo isso e isso e pronto, todo mundo é inconstante, todo mundo muda de ideia, todos temos uma opinião diferente ainda que defendamos os mesmos ideais, se encaixar muitas vezes é se castrar e se castrar é se privar dos maiores prazeres da vida e invadir o livre arbítrio do outro. Libertem-se e libertem os outros das suas opiniões desnecessárias e preconceituosas sobre a vida deles. DELES, não suas. Como é que eu vou ensinar alguém que o preconceito é feio se eu julgo todos os dias as pessoas pelos seus gostos, aparência, preferência e estilo de vida. COMO?

Sempre achei que a igualdade morasse no fato de reconhecermos que ninguém é igual e nem tem que ser. E antes que cheguem mensagens na minha caixa de e-mail dizendo que eu passei o texto inteiro falando sobre julgamentos e isso não deixa de ser um julgamento, eu lhes pergunto... E daí? Isso não os impede de compreender essa mensagem e nem me impede de mudar de ideia amanhã e essa carapuça também me serve. Ah e antes que eu esqueça... Um Feliz 2017 a todos! #Tiara Sousa

sábado, 2 de julho de 2016

CABARÉ DE SONETOS

A cidade me tortura. Vejo em volta e de repente estou num cabaré de sonetos e todas as dores na rua se oferecem pra doer em mim. Acho que é isso que as pessoas por aí chamam de tristeza, e eu, que por tantas vezes já fui tão triste, nunca realmente tinha sido triste assim, com a pele ressecada de erotismo e fé.
Está tudo tão vago. Ainda bem que já fiz as compras, eu quase perdi o tesão pelo dia seguinte na semana passada, tenho tão pouco tempo e tanta gente pra amar depois do pôr do sol, antes que a vida soe ainda mais efêmera e eu me encontre dentro de um dialogo cênico entre atenienses e espartanos, sem saber por quem dialogar ou até mesmo com quem.
Gostaria de ter um manual de mim, mas sempre achei difícil me estabelecer onde todos costumam se estabelecer. Já fiz de tudo pra ser todos, mas ser todos é algo tão humano que demonstra desumanidades, e isso me coloca do lado desconfortável de fora. Sou detestável por isso? Não. Não se julga uma cronista pelos primeiros parágrafos. Sou detestável por outras milhares de coisas, mas não por amar com tanto conteúdo uma forma rasa, e nem pela enxurrada de tristeza pela falta de alguém que nunca me prometeu nada.
Estou triste. Ponto. Sentada em algum lugar entre o joelho dele e os meus desencantos. As mãos hábeis dele atravessam a minha lucidez e parece até incompetência minha não ser feliz nem por um segundo, nem por um único, incógnito, frio, feroz, mísero segundo. -
Estou triste. Ponto-. Perdida entre a minha mania de estalar os dedos e o modo como ele corta as unhas, com tanta vaidade que faz cada unha ser miseravelmente um lamento profundamente oco de uma sociedade que se curva aos julgamentos moralistas e estéticos do senso comum. E nós aqui, existindo entre a ilusão do sexo sem alma e a alma sem alma aos quais tanta alma transpiram. Aqui, entre o paladar dele e a minha vontade de ser amada junto com todos os meus defeitos, infantilidades, neuroses e contestações.
Estou triste. Ponto. É- que a intercessão do meu odor de cigarros e do perfume barato dele eram nauseantes formas de eu me sentir acompanhada e dele se sentir incomum. Ao meu lado ele caminhava reticente de tudo o que não conhecia e julgava mal e eu caminhava ao lado dele cortejada pela ironia de uma união contraditória. E enquanto caminhávamos juntos o gozo dele era o meu recato original.
Estou triste. Ponto. Porque a tristeza ocupa meus dias banais e a alegria sempre me soou ignorante. Porque de todos os corpos que já uniram-se ao meu, só o dele,  proletário dos corpos, tem o sabor agridoce e agressivo da passividade. E eu só consigo existir no vão do suor dele e das minhas lágrimas.
Estou triste. Ponto. Poderia enumerar um milhão de razões pra isso e nenhuma teria cabimento, pois pra caber nos lugares por onde eu ando tem que romper com estruturas fictícias e sangrar fossas. Tem que cortar nossa sombra ao lado esquerdo da cama, aquele contrário de onde ficava o abajur vermelho, coberta por um lado dele que eu criei e acreditei. Um lado metade fantasia, metade loucura.
Estou triste. Ponto. Onde eu começava ele não alcançava, o fim sempre esteve ali, entre nossos beijos intempestivos, nossos lençóis descartáveis e a imensa muralha que separava o meu eu rústico do eu dele lapidado. O único lar que tivemos, que ousamos ter, foram nossos corpos nus de roupas, de medidas, de promessas, de constrangimentos, de eternos.
Estou triste. Ponto. E estar triste é estar trancada no corpo dele, no cotovelo rosado, nos olhos claros, no antebraço perfeito e me sucumbir de lembranças pessimistas do que eu tive até dizer chega. Eu disse: Chega! Mas o motivo, o verdadeiro motivo nunca chegou.
Estou triste. Ponto. Porque o lugar onde sentávamos pra conversar é hoje um aglomerado de pedras onde defecam os pombos e a cama em que ele fingia me dominar enquanto eu fingia ser dominada é apenas um móvel refugiado dos princípios que um dia me sobraram e hoje me escapam. E eu caminho por um beco escuro que oprime os planos que não nos atrevemos a fazer com os desejos que deixamos de conter.
Estou triste. Ponto. Nada é tão soberano que não caiba numa folha de papel. Pedi que ele guardasse os seus sentimentos mais teóricos para outras mulheres mais práticas, previsíveis, tolas e encantadoras do que eu. E ele guardou. E eu nunca o perdoei por ter me obedecido. E pra onde olho as dores se oferecem pra doer em mim, como num cabaré de sonetos, e eu as aceito, como num cabaré de sonetos, e elas doem latejantes, como num cabaré de sonetos, e acho mesmo que é isso que as pessoas por aí chamam de tristeza. A cidade me tortura e eu estou triste. Ponto. Ponto. Ponto... Tiara Sousa