terça-feira, 10 de outubro de 2017

UM TEXTO SOBRE VOCÊ

Imagem do Site silviarita
Me dei conta que já escrevi alguns textos para você, mas que nunca escrevi um texto sobre você (o que não é natural, já que eu escrevo sobre o cotidiano mais do que sobre qualquer outra coisa, e você durante muitos anos foi parte do meu cotidiano), então lá vai...
Você não sabe amar. Não sabe. Nunca em todos os seus anos de vida você chegou perto de saber amar. Porque o amor não é só aquele papo de você é minha, de comedia romântica, de declaração, de crise de ciúmes, de ouvir uma musica e pensar, de assistir um filme e lembrar, de ficar namorando as fotos antigas, isso eu sei que você já viveu, todos vivemos. Amor é sobretudo aquele outro papo de... Toma cuidado, olha ao atravessar a rua, deixa uma sobra desse olhar pra eu poder seguir com segurança, briga comigo porque se importa, vê como eu tô sendo ridículo e me aceita mesmo assim. Essa coisa que a gente é capaz de sentir por um filho, por uma mãe, por um irmão, por um amigo. Mas você desconhece tudo isso, você não sabe e nem nunca soube amar. Mesmo assim você me amou, eu sei, pode acreditar.
Eu lembro que nós fazíamos de conta, você me olhava torto e eu entendia as suas neuroses, você me aconselhava e eu corria as minhas carnes, o meu corpo doía e a sua alma sempre machucada por conta de alguma cena que eu escrevia pra você viver. E você tentava me dizer o que fazer ás vezes. Como eu julgava o fato de você não perceber o mundo que eu queria compor e mesmo assim precisar de mim! Os tijolos da sua casa pareciam frios e o meu espelho velho me dizia nada. Era difícil ser eu, e ás vezes eu tinha a impressão que só você entendia isso, porque ser você também era muito difícil. Você ás vezes cuidava de mim, às vezes enchia o saco e caia fora, depois ligava e os seus telefonemas me entrertiam e me consumiam, era difícil qualquer um nos entender, era fácil a gente se entender.
Lembro que nós fazíamos que éramos infames, é que eu já sabia que quando você contava de mim pra alguma mulher, ela seria importante, e eu do seu lado dizendo ao namorado da vez que tava com uma amiga, eu tinha medo de dizer que era um amigo e ele não compreender que o que tínhamos era fora do corpo, que no que tínhamos não existia corpo. Você me contava o seu dia, eu analisava os perigos, éramos crianças em corpos de adultos quando você me buscava pra irmos tomar banho de mar nos dias 31, só porque eu achava que esse era o dia certo, e eu também sempre achei tão bonito o fato de você nunca ter questionado isso.
Lembro que você sorria pra mim, tinha medo de me tocar e eu não entender, e eu não entenderia mesmo. Você me dizia que eu tinha que maneirar nas palavras, e o que você queria dizer mesmo era “toma cuidado, as pessoas julgam tudo, elas irão julgar as suas palavras mais sinceras”, e eu te achava tão sensível que as vezes era eu quem chorava. E você contava das mulheres, dos amores mal resolvidos, parecia inseguro e eu dizia o quanto você era bonito, mas você nunca acreditava. Você tinha paciência para os meus porres, minhas musicas velhas e mornas e até as minhas amigas mais comuns. Eu não, eu só tinha paciência pra você, e olhe lá, ás vezes eu queria escapar. Eu julgava os seus amigos, tentava ser amiga das suas paixões, mas elas me abominavam só por eu ser eu, elas entendiam melhor do que você a importância de uma amizade. Você escondia os nossos telefonemas dos seus casos, eu escondia os nossos lanches dos meus, a gente se despedia e eu ficava entre os meus livros, as minhas novelas, as minhas crônicas e um carinha qualquer, você ouvia reggaes e fazia de conta que tava tudo bem, e amava alguma mulher que te deixava louco.
Mas muita coisa aconteceu e a gente se partiu, porque ainda que com idades tão próximas, eu preciso crescer e você precisa rejuvenescer, eu preciso jantar á luz de velas e receber flores e você precisa de um bom hambúrguer com batatas fritas e de um Heavy Metal. Se partiu porque a gente precisa conhecer outros mundos e eu preciso assimilar decepções que sejam minhas, e só minhas, e você precisa aceitar o mundo dos outros. Se partiu porque você colava na escola enquanto eu colecionava papéis de cartas, porque eu me acho o máximo e você se distorce e consequentemente acaba distorcendo as pessoas, e se ferra com isso, porque muitas vezes você está certo com as suas análises, mas isso não as torna menos cruéis, e nem significa que você está sempre certo. E o mesmo serve pra mim, só que em doses femininas e poéticas.
A gente se partiu porque você se habituou aos fins, aos pontos finais, e eu tentei te mostrar as reticências, mas você tem medo de ter medo, e eu, eu sou intima dos meus medos. Se partiu porque você é alheio a encantos, eles te assustam, porque você é um papel pardo em meio a um monte de papéis laminados, porque eu extravio e você absorve, e não faz ideia do quanto suas aventuras estão distantes de tornar-se a transgressão que você tanto precisa. E eu não, eu já nasci transgredindo.
A gente se partiu porque você gosta de ser machucado, gosta de se perder em meio a aparências, gosta, mesmo abominando tudo isso, e eu também. Se partiu porque a solidão te aterroriza e eu gosto de solidão, de olhares que despem, de gente inconstante, e você teme tudo isso. Se partiu porque você constrói fábricas para os seus sentimentos e eu derrubo castelos para os meus, porque na maioria das vezes você trepa pra poder se apaixonar, e eu na maioria das vezes me apaixono pra poder trepar, porque você suporta sonhos e eu suporto realidades, porque você ignora visitas e eu as expulso, porque você late e é mordido, porque você teme não ser amado como é e apesar dos erros que comete e eu me habituei a ser amada assim. A gente se partiu porque além de todas as nossas já citadas compatibilidades e incompatibilidades aconteceu uma grande amizade que você reduziu a mais uma de suas análises.
Eu nunca escrevi sobre você porque em meio a tantos caras que já protagonizaram as minhas crônicas mais sentidas, líricas, sensuais e poéticas você não se encaixa, esses caras me tiveram nos braços, nos lábios, nos corpos, me fizeram delirar de apaixonada e sentimentalizar cada gesto e atitude, mas nenhum desses caras chegou perto de me conhecer inteiramente, e você não, você era bem mais importante, você era o cara a quem eu contei das minhas viagens e com quem eu fiz viagens, a quem eu falei dos meus romances, e das dificuldades e felicidades da minha vida, você era o cara pra quem eu torcia pra que encontrasse a mulher mais massa de todas e que por ela fosse correspondido e respeitado, a quem eu seria a madrinha de casamento e os filhos me chamariam de tia, e isso era tão grande e tão desprovido de qualquer impureza que não cabia em mais um texto semanal. Mas hoje, depois de tantos textos eu finalmente escrevi sobre você, não porque você tenha deixado de ser esse cara, não é isso, mas porque só hoje me dei conta do quanto a gente se partiu. Só hoje acordei com um cinzeiro cheio de pontas de cigarros do meu lado e percebi que nenhum desses cigarros foi fumado enquanto eu conversava com você. Tiara Sousa

domingo, 1 de outubro de 2017

NUDEZ – Sobre a interação de criança com artista nu em MAM

Imagem do site Paraná Online
Ele nasceu nu, nu de corpo, nu de alma, nu de nu. Nus nós nascemos, e assim conseguimos permanecer por um tempo, mas o primeiro choro, o primeiro riso, a primeira palavra, a primeira peça de roupa vai nos cobrindo, vai nos poupando de nos encarar e encarar o outro sem os modos convencionais, a educação formal, o refinamento, o estilo construído, a superficialidade. Nós só nos cobrimos pra esconder os males aos quais o mundo nos introduz, os padrões inalcançáveis, preconceituosos e rasos que nos são impostos, a vergonha que nos é ensinada e nunca natural, e a Arte quer desconstruir tudo isso. Pois a Arte não quer cobertas, a Arte derruba as cortinas, a Arte fala mal dos confinamentos, a Arte é livre. Não sei o que chamam de maldade, de pedofilia, de fim da infância, não sei, porque o meu coração é comunista, habita na foice e no martelo, tem sede de igualdade, ás vezes ladra, ás vezes é mordido, não entende de moralismos, entende de moralidades. E a minha moralidade diz que a nudez é só nudez, tocar alguém nu, olhar alguém nu, não desperta por si só líbidos, um pênis é apenas um pênis, todo homem tem, todo bebê do gênero masculino tem, toda criança do gênero masculino tem, todo o resto é equívoco de mentes promiscuas, de ignorâncias, de influenciadores que tentam e ás vezes conseguem convencer que um corpo nu é mais do que apenas um corpo nu.
Aproveitem esse nosso tempo, esses novos tempos e essa quantidade de informações que nos é derramada por segundo, e desconstruam e desprendam-se da ideia de que a nudez é promiscua, não é, não tem que ser, a promiscuidade mora em certas mentes, a nudez é só um corpo despido, nada mais. Não tentem destruir infâncias com as suas ideias tolas, ignorantes, preconceituosas e infames. Por favor, meu filho frequenta redes sociais, então tomem cuidado com o que falam e como julgam, não destruam a infância do meu filho, dos seus filhos, dos filhos dos seus amigos dizendo a eles que um corpo nu é mais do que um corpo nu, não é, você tem um corpo nu, eu tenho corpo nu. Atos de natureza sexual, atos promíscuos, pedofilia, abuso é outra coisa.
Vocês, educadores, artistas, trabalhadores braçais, estudantes, façam um favor a vocês e a sociedade, não comprem essas ideias equivocadas que castram a Arte, que castram as infâncias, que transformam momentos puros e nus em ideias erronias de orgia. Estudem, leiam, enxerguem, ouçam, desenvolvam, conheçam, o fato de alguém estar nu não significa que há algum ato libidinoso, nudez é só um corpo sem roupas. Se é Arte ou não é, decidam, se apreciam ou não, percebam, se lhes toca ou não, questionem, mas tenham a certeza que não há promiscuidade num corpo despido de roupas, estejam certos que a promiscuidade está em vossas cabeças ignorantes e influenciáveis, e lembrem-se, a Arte é livre inclusive da maldade e das intenções duvidosas de quem a interpreta de modo incompleto e incoerente.
Há alguns meses dirigi um monólogo cujo o ator despia-se completamente em uma das cenas, infelizmente no dia da apresentação meu filho tinha aula e não pôde comparecer, mas ele assistiu ao ensaio geral, e assistiu outras apresentações artísticas com nudez, e a infância dele está intacta, lúdica, bela. Sabe porque? Porque ele nasceu nu, eu nasci nua, você nasceu nu, quando tomamos banho ou nos trocamos, ou nos secamos estamos nus, e nenhum desses atos tem natureza sexual. São apenas corpos. É apenas nudez. Tiara Sousa




sábado, 23 de setembro de 2017

BANG – A GENTE NUNCA CRESCE

Precisei chegar aos 32 anos de idade, ver meus ex casarem com mulheres menos belas, inteligentes e complicadas do que eu, ver a crise econômica se instalar no meu país, ver uma presidenta ser arrancada do cargo por uma quadrilha, ver meus amigos homossexuais serem taxados de doentes em pleno ano de 2017, ver o pôr do sol em Punta Del Este e em Coroatá (e concluir que o de Coroatá é mais bonito), ser mãe aos 18 anos e adolescente aos 30, ser traída, ser usada, ser aplaudida, amada, odiada, discriminada, infinitamente bem comida, infinitamente mal correspondida. Ler teorias da comunicação e Shakeaspeare no mesmo intervalo de tempo, ouvir a Nona Sinfonia de Bethoven e Bang de Anita (adoro essa música), precisei de tudo isso pra entender uma coisa bem pequena, Freud, meu caríssimo, genial, fodástico Freud, não explica porra nenhuma. Chico Buarque de Holanda, que é o maior ídolo que tenho na vida, não explica porra nenhuma. Brecht, que foi um acontecimento em muitos e geniais sentidos para o Teatro e para a Literatura, não explica porra nenhuma. Ninguém explica. Quem quiser entender alguma coisa que viva e sobreviva e compreenda sozinho.
Na quinta-feira, voltando com a minha amiga da balada (adoro essa palavra, faz eu me sentir tão jovem), concluímos que a gente nunca cresce, sabe a tua avó, aquela senhorinha meiga e curiosa que já viu muito, passou por muita coisa, teve perdas irreparáveis, teve ganhos também, você deve ser um desses ganhos, pois é, a tua avó também não cresceu. A gente aprende, desaprende, aprende um pouco mais, perde o brilho da juventude, o tônus muscular, a memória exata do primeiro beijo vai ficando embaçada, o colágeno então, filho da mãe, esse é o primeiro a começar a ir embora, perde flores que murcham antes de estarmos preparados para ausência delas. Em compensação a gente ganha, a gente ganha novas memórias, de novos beijos, a gente ganha filhos (Tem ganho mais lindo? Tem não), a gente ganha laços, ganha cicatrizes, a gente ganha tranquilidade emocional pra aceitar quando as flores murcham, ganha conhecimento e novidades. Mas a gente nunca cresce.
A gente nunca cresce porque toda alegria é pela primeira vez, toda tristeza, toda paixão, todo ódio, todo amor, todo sexo, toda dor, todo fim, é pela primeira vez. É sempre pela primeira vez. O olhar sobre os acontecimentos pode até mudar, quase sempre muda, mas sentimento é sempre novo, é sempre inebriante, estarrecedor, único, informal, perigoso, vivo, muito vivo. A gente nunca tá preparado e isso é tão ruim, e isso é tão bom.
Quando eu tinha 9 anos, no primeiro dia de aula do que na época chamávamos de 3ª série (agora é 4º ano, até isso mudou), uma professora chamada Claudete me perguntou o que eu iria ser quando crescesse, eu respondi que ainda não sabia. Faz um bom tempo que estou atrás de Claudete, que atualmente deve estar na casa dos 50 anos e ainda deve ser a ótima professora que sempre foi, é que eu quero dizer a ela que agora eu já sei a resposta pra essa pergunta. Professora Claudete que lecionou na escola Centro Educacional Colméia no ano de 1994, se você estiver lendo isso agora saiba que a minha resposta pra o que eu vou ser quando crescer, é que eu nunca vou crescer, que vou sempre sentir como aquela garotinha de 9 anos a quem você deu aula e ensinou a escrever seus sentimentos num diário, nada mudou dentro de mim, só por fora que tem muita novidade, um dia eu te conto, sei que vou te encontrar com outra aparência, mas não tem problema, conto assim mesmo, aparências não me enganam, tenho certeza que você também nunca cresceu, e não foi Freud quem me explicou isso, ninguém me explicou, eu entendi... A gente nunca cresce. Tiara Sousa

sábado, 16 de setembro de 2017

BASTIDORES

Imagem retirada do site A Escotilha
É a sétima vez que tenho esse mesmo sonho, isso já tem dois meses, exatamente o mesmo sonho.
Nele eu caminho pela rua, mas a rua só existe pra mim, para o restante das pessoas ela é uma ilusão, como se fosse um cenário montado num palco de um teatro qualquer do subúrbio de uma cidade caricata em que tudo é comum. E atrás desse palco, olhos. Sem camarim, sem métrica, sem figurino, sem pintura. Neles, uma crueldade sensível, dessas que só encontram raramente e em pessoas que não importa a conjuntura familiar, já nasceram sem lar e sem rumo, ainda que dentro de um lar cheio dos melhores sentimentos e intenções.
Dessas, que são o próprio subúrbio, sem os hábitos, os modos, a liberdade despretensiosa, mas ainda assim o subúrbio, de tudo o que te disseram que era coerente ser, e ás vezes desconheço esses olhos, que são castanhos, escuros, pequenos, daqueles que num sorriso quase se fecham, ás vezes não, ás vezes esses olhos são meus.
Tento encontrar esse palco, e os olhos atrás desse palco, influenciada talvez pelos filmes da sessão da tarde que assisti na infância quase creio ser possível, imagino uma máquina do tempo que me leve ao tempo dos outros, aqueles para a qual a rua ainda é uma ilusão, aqueles que enxergam o cenário, o palco, os bastidores. Confusa, massacrada e violada pela espera de uma máquina do tempo que não chega pra me tirar dali, do meu tempo, corro sem direção, mas não há nada, então dou de encontro com um homem lindo, aos meus padrões é claro, o que lhe confere ser um tanto desleixado, com um modo incompleto de olhar, ele parece se questionar sobre alguma coisa, talvez sobre a vida, a economia ou alguma mulher desinteressante e comedida, talvez uma dessas novas feministas que saem por aí apenas de sutiã vermelho e militam em redes sociais, e só de pensar que esse tipo de mulher pode ser quem rouba os sentimentos e pensamentos dele, me calo, desisto de pedir ajuda, perco o interesse ainda verde e continuo a caminhar...
Canso, resolvo sentar num banco de cimento velho e quebrado numa praça em que crianças fingem ser crianças, como se ainda fosse possível ser só isso num mundo tão afetado e disforme, na minha cabeça uma música de Marisa Monte e uma carta que nunca escrevi, um e-mail que nunca enviei, uma paixão platônica da pré-adolescência e o “Estrangeiro” de Camus. Olho em volta e a rua continua a mesma, real, sem cenário e sem palco, e continua só existindo pra mim, e continua sendo apenas uma ilusão para todo o restante das pessoas, e então eu tento chorar, mas não consigo, e me desespero pela conclusão que o tempo não volta e que vai continuar sempre assim, tudo real.
Então acordo. Abro o notebook e num site de buscas, tento encontrar o significado desse sonho, mas não encontro, nunca encontro, nenhuma das sete vezes, o meu impulso é ficar estática, deitada na minha cama esperando despertar, com medo de levantar e ir até a rua e perceber que assim como no sonho ela é real, porque se ela for real vai deixar de existir dentro de mim, e vai fazer sentido, e coisas com sentido me atordoam. Mas não sigo meu impulso imediatamente, levanto corajosamente lembrando que os mais velhos e mais sábios costumam dizer que a gente só aprende na dor, que só na dor crescemos e somente diante dela entendemos as coisas, então decido sair, tomo banho, me visto, mas cada vez que olho pela janela o mundo é um lugar pior, e assustada acabo ficando, pensando nesse sonho repetitivo e incomodo, pensando na rua que vejo, e no cenário, no palco, nos bastidores que não encontro... Concluindo que a arte é tímida, se expressa pelos becos escuros dos subúrbios manchados de sangue e suor do povo, que o palco é a manifestação da arte, e que a arte meus caros artistas, trabalhadores, intelectuais, apreciadores... A arte é os bastidores, os olhos sem camarim, sem métrica, sem figurino, sem pintura, olhos que podem ser seus e que podem ser meus. E então compreendo tudo, sobre esse sonho que me diz que a rua é uma ilusão para todos e que apenas eu a enxergo como real. Compreendo tudo... Esse sonho que se repete é o efeito do tempo sobre mim, é que ás vezes eu acho que acordei de todos os meus sonhos, e só de achar isso, acordo de muitos deles. Tiara Sousa

sexta-feira, 10 de março de 2017

A HIPOCRISIA QUE É FICAR MAIS VELHO

Imagem do site https://www.megapixl.com
Tenho 9 anos e sou apenas mais uma garotinha esperando que o pai a ame mais que o mundo e que a mãe dê mais atenção a ela do que ao trabalho, meu penteado se resume a duas tranças horrorosas que a minha tia fez com todo carinho, acho que nunca terei a sensível capacidade de compreender como se consegue fazer coisas tão horrorosas com tanto carinho. Estou sentada assistindo aula de logaritmos numa sala de uma escola burguesa, eu sou a única preta da turma, sou a única com essa tranças horrorosas, sou a única escrevendo poesia ao invés de copiar a aula, sou a única pensando na rachadura do meu banquinho preferido que fica na cozinha da minha casa, sou definitivamente a única imaginando que os logaritmos são células cor de abobora fantasiadas de dias nublados pra desfilar numa escola de samba no carnaval, ninguém mais se parece comigo, nem por fora e nem por dentro, por isso ás vezes prefiro sentar sozinha num banco no parquinho na hora do recreio ao invés de ir brincar. Tem uns quinze minutos que eu não entendo nada do que a professora tá falando, há uns meses atrás ela e as diretoras chamaram a minha mãe pra uma conversa, disseram que eu vivia no mundo da lua, que era muito calada e pouco sociável, que eu parecia fazer questão de não me encaixar e que um acompanhamento psicológico seria de grande ajuda para o meu desenvolvimento intelectual e social, minha mãe me levou a psicóloga, depois de diversas sessões voltou a escola com um papel que dizia que tudo o que eu tinha era um QI alto e que meus problemas de sociabilidade deveriam ser superados com a contribuição didática também da instituição de ensino, bem feito pra escola, agora a professora tá tendo que me aturar, e o pior é que eu gosto da escola e gosto da professora e adoro o fato de ela ter que me aturar.
Tenho 18 anos, estou sentada num barzinho chamado Bagda Café com o meu pai e mais um monte de amigos, estou tomando uma cerveja e falando coisas engraçadas, quem diria que a menina que eu fui um dia, isolada, hoje estaria cercada de gente, sorrindo, conversando e brincando, agora esse é o meu recreio, e dessa vez eu participo da brincadeira, enquanto tiver sob o efeito do álcool eu posso ser tudo o que esperam de mim, o problema é que eu esperava outras coisas de mim. O namorado da vez também tá sentado, ele parece preocupado comigo, como se eu fosse de vidro e pudesse quebrar, mal sabe ele que eu já nasci quebrada, não tem nada em mim inteiro com exceção dos sonhos e parece que a qualquer momento eles também quebrarão, porque tenho visto tanta coisa que tá ficando difícil acreditar no mundo que eu inventei, um mundo onde a dobradiça da porta esteja em sintonia com a havaiana que esqueci no meio da sala e a sala esteja em sintonia com o roteiro do filme da sessão da tarde e a sessão da tarde esteja em sintonia com os meus desejos mais oblíquos e infantis. E que nada nunca tenha que deixar de ser exatamente como acontece na minha imaginação, um mundo perfeito, em que nenhum nó seja cego e tudo possa ser desfeito com princípios e eloquências agradáveis.
Tenho 20 e poucos anos, estou num paraíso de cidadezinha no meio do nada, encontrei um camping legal pra ficar, tenho alguma grana, muita vontade de esquecer do que era pra ser e acabou não sendo e a vista mais bonita da cidade, mas sei que não vou ficar muito tempo por aqui, meu filho tá me esperando pra crescer comigo e eu entendi desde a gravidez que pra eu crescer preciso tá perto dele também. Hoje vai ter uma balada onde todos os turistas vão estar, já me arrumei e não vou perder, fiz amizade com uma galera de Fortaleza, da Colômbia, da Dinamarca, da Alemanha e da Argentina, eles são divertidos e parecem estar tão perdidos quanto eu, já saquei que vou acabar me apaixonando por alguns deles e escolher um vai ser a parte mais difícil do meu dia, é legal quando a parte difícil do dia é a mais fácil do ano, então acho que já comecei bem, depois vou dormir numa barraca com o som dos pássaros e a vista das estrelas e do mar, aqui não tem TV, internet, jornais e nada que me afunde na realidade, somente eu, culturas diversas e a distancia efêmera de tudo, acho que não vou sair daqui a mesma, e talvez eu tome um banho de mar quando amanhecer.
Tenho 31 anos, quase 32, tem duas horas que espero o momento em que eu consiga me sentir livre sem analgésicos, ou que a inércia não me faça voltar varias vezes uma cena de filme ou seriado que eu goste só por precisar daquela sensação, passei a usar mais sutiã e vestir menos branco, abandonei o celular descarregado e trincado em algum canto da casa, conclui que não precisava mais dele quando ele me deixou no momento que eu mais precisava, discuti com uma das minhas melhores amigas antes de antes de ontem, a gente sempre discute assim umas duas ou três vezes ao ano, geralmente eu não discuto com ninguém fora do meu período de TPM, não é da minha natureza, eu acho, mas tudo bem discutir com ela, porque provavelmente ela está entre as dez pessoas mais diferentes de mim no mundo e contraditoriamente ela também está entre as dez que eu mais amo, e eu sou egoísta demais pra compreender a generosidade dela e intolerante demais pra admitir que talvez ela só quisesse ajudar. Li três livros no último mês, era pra ser cinco, dois eu desisti, assisti uns dois seriados, fumei umas trinta carteiras de cigarro, nunca mais liguei a TV, me apaixonei por alguma coisa ás 15 horas da terça-feira, e nas 7:30 hs da quarta eu já não sentia mais nada, perdi as duas chaves do carro num intervalo de dois meses, perdi as duas chaves de casa no mesmo intervalo, perdi 7 quilos, sou boa em perder, mas tá tudo no lugar, o meu quadro das três meninas de costa olhando alguma coisa que nunca vou deixar de imaginar o que é, no lugar; Os meus vestidos longos, no lugar; A minha mochila preta, no lugar; Os meus olhos e pele e saliva e vagina e orelhas e ego e coração e dedos e cérebro, no lugar... É um saco essa minha vitória tão arduamente conquistada de estar a um bom tempo sem dar o fora de mim, e tudo isso não quer dizer muita coisa, além do quanto há hipocrisia em se ficar mais velho.

Porque no decorrer da vida vamos nos transformando num resumo clichê das auto versões que deixamos pelo caminho, e não importa o quanto a gente aprenda, quebre a cara, vire jogos, ensaie modos ou se enquadre nos padrões sociais, no que esperam de nós e no que nos dizem que é ser maduros, a nossa versão principal será sempre aquela mais antiga da qual se tem lembrança. E eu ainda sou a menina de 9 anos que não consegue se encaixar, e pior, que detesta ter que se esforçar todos os dias pra se encaixar, ainda espero que o meu pai me ame mais que o mundo e que a minha mãe dê mais atenção a mim do que ao trabalho, e na única lembrança que tenho de logaritmos eles são células cor de abobora fantasiadas de dias nublados pra desfilar numa escola de samba no carnaval. Tiara Sousa