quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

LIVRE

Imagem do site Correio Brasiliense
Era um lugar tão cheio, mas tão cheio, que eu conseguia sentir a linha do vazio que passava pela clavícula do homem de terno e ia até o cotovelo rosado da garota de All Star. Lembro de sorrir pra disfarçar o meu incomodo pequeno burguês por gente pequeno burguesa, e por gente burguesa, e por gente quase burguesa, e por gente que combinava sapato com bolsa e tênis com relógio. É que eu preferia gente descolada, o que era no mínimo preocupante, pois preferir gente descolada quando na realidade nem mesmo eu era descolada é como começar a amar a chuva no fim da chuva, é tardio, infantil e inapropriado. Eu usava sandálias rasteiras e saias coloridas e achava que o mundo inteiro tinha que cair aos meus pés, mas não tinha, eu era só uma garotinha tola com medo de altura e de infinitos, que tinha duas unhas encravadas, meia dúzia de acnes e tendência a Transtorno Obsessivo Compulsivo. Eu tinha só 14 anos e era a primeira vez que passava o Réveillon longe de casa, tava na casa da avó de uma amiga da escola, uma casa tão grande e tão bonita e tão cheia de móveis caros que fazia o mundo parecer muito mais superficial do que realmente é. Nunca esqueci desse Réveillon, era a chegada do tão esperado século XXI, e a única coisa que eu queria era um analgésico.
Agora é tudo diferente, exceto o meu cabelo crespo cacheado, que continua demorando a crescer e dando o maior trabalho pra desembaraçar, é que entre o cacho número 2 e o cacho 5.325 tem a exata dor da primeira vez em que eu não consegui chorar um fim, aquele dia foi estranho, porque eu pensava que sempre seria fácil lamentar como uma menina a perda que só cabe a uma mulher. Eu moro numa casa que não é de campo, que não tem um banco suspenso de madeira de lei, que não tem uma sala cheia de “livros e discos e nada mais”, eu conserto a minha alma sozinha entre um trecho Hamlet e um capítulo de Dawson’s Creek, e vez ou outra as rãs vem me visitar, parece que elas sabem que eu tenho mais medo delas do que de altura, de portas abertas e de cadeiras viradas no sentido contrário da rua.
Agora é tudo diferente, exceto o asfalto da rua detrás da casa da minha avó, que continua esburacado e excessivamente quente, mesmo na época de chuva ainda dá pra fritar um ovo nele, se aquele asfalto falasse, creio que falaria do mundo com uma propriedade que nunca coube em jornais e na literatura. O século XXI chegou a maior idade, seus dezoito anos já proclamados de regras e utopias desfeitas, já eu, tô com trinta e dois, e o meu Alter Ego tem milhares de visualizações semanais, os meus pais passaram dos sessenta e eu resolvo os meus problemas com cigarro, coca cola e relaxante muscular. Meu coração continua insólito, se contrapõe ao gosto impreciso das precisões, paredes e sinônimos me oprimem, eu nunca cancelo compromissos, mas também não os assumo, sou hipócrita ao falar de amor, porque o que amo nunca coube em palavras.
Agora é tudo diferente, exceto os meus olhos que insistem em flanar pelos dias tortos de dúvidas e alvoroços, é que desde o inicio achei o Século XXI invulgar, porque nele parece que o amor está sempre entre o ultrajante e o démodé, há muita formalidade nas informalidades e eu me atrevo entre mesmo assim amar as folhas secas das arvores velhas que esqueceram de derrubar. Vivi a maior parte da minha vida no século XXI, mas ainda não me acostumei com ele, ainda não entendi porque tem grades na minha casa, na escola em que meu filho estuda, na Universidade que frequento, ainda não entendi porque tem grades no tesão das mulheres, no modo como elas se sentam, como elas cuidam da casa e da família, ainda não entendi porque tem grades nos sentimentos, nas letras das músicas, nos Best Sellers, ainda não entendi as grades das mentes das pessoas, ainda não entendi as prisões de máxima segurança e invisíveis que povoam as mais diversas realidades. Não entendi, porque só sei sorrir enquanto sou livre, grades me amputam, são como o esgoto estourado na rua mais alegre da periferia, como o menino morto por um bala perdida num confronto entre policia e traficante em alguma comunidade do Rio de Janeiro, como o meu povo preto que em sua maioria não teve as mesmas oportunidades que eu, como as mulheres abusadas e estupradas e agredidas e sós, mesmo acompanhadas, como os desfalques públicos e os privados, como a realidade assustadora e a ilusão incoerente. São como se auto abortar. São como a dor.

Agora é Janeiro de 2018 e eu continuo esperando Janeiro de 2001. Continuo sentindo a linha do vazio que passa pela clavícula do homem de terno e vai até o cotovelo rosado da garota de All Star. Continuo sentindo todas as linhas de todos os vazios. Continuo sentindo... Feliz 2018 a todos os meus leitores, gente que assim como eu continua esperando 2001, esperando que finalmente esse século comece e que permita a todos serem livres, ainda que livres para escolherem as suas prisões. Tiara Sousa

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

AMOR MARGINAL

Enquanto o mundo caminha, e retrocessos castram, e crianças se desaprendem em discursos equivocados dos adultos, tem gente que ama, que ama filhos, mãe, pai, irmão, amigos, e gente que cruza o nosso caminho. Hoje, uma folha caiu, uma fruta amadureceu, uma criança nasceu, alguém cumpriu seu papel e história e faleceu e milhares de pessoas se apaixonaram, e só por isso, hoje, eu vou falar de amor.
Vinicius foi a primeira pessoa com quem falei quando cheguei na Universidade, subi as escadas, e da porta da turma onde eu iria assistir a minha primeira aula havia um aglomerado de novos alunos ansiosos por mais esse projeto de vida, e no meio deles, um rapaz negro, lindo, alegre, um garoto, quase 10 anos mais jovem que eu, que de longe eu soube que amaria e que me ensinaria alguma coisa. Ele foi o primeiro a falar comigo, ele era a extroversão em pessoa, eu preferia móveis que gente, ele tinha 17, eu quase 27, ele tinha sonhos, eu também, eu esperava um príncipe encantado, ele também... O dele chegou. Hudson é o nome dele.
A primeira vez que eles ficaram conversando por um bom tempo acabaram expulsos de um ensaio, ali eles descobriram que queriam se descobrir e entenderam o quanto eram opostos. Opostos, porque Hudson é timidez, Vinicius é extroversão, Hudson é organização, Vinicius é bagunça, Hudson é quarta feira de cinzas, Vinicius é domingo de carnaval, Hudson quer casa, Vinicius quer festa, Hudson quer despachar malas, Vinicius quer colocar mochila nas costas e sair por aí, Hudson quis Vinicius, Vinicius quis Hudson, e a partir daí todas essas diferenças ficaram pequenas, e pequenos ficaram também os obstáculos, os olhares preconceituosos, os julgamentos, as discriminações. Ficaram menores que um grão de areia, menores que o sentimento, menores que o primeiro beijo num Ônibus Campus 311, um beijo tão lindo e tão libertador que segundo Vinicius levou ele para o céu, e eu acredito nisso, afinal, o que há de mais alto e mais sagrado do que o inicio de um grande amor?
Mas nem tudo são flores, mesmo as histórias mais lindas tem sua carga dramática, e com esses dois belos rapazes não foi diferente. Vinicius era livre em muitos sentidos, e Hudson não tava completamente livre, mesmo assim eles tentaram, tentaram namorar, tentaram terminar, tentaram não namorar, mas quando se gosta tanto assim de outra pessoa não se consegue não ficar junto, e eles não conseguiram...
Um certo dia, logo no inicio dessa linda história que eles construíram, Vinicius comprou uma caneca de quadro negro e deu de presente a Hudson, que escreveu nela... - Eu acho que estou amando você. E não é que estava mesmo, e não é que estavam mesmo, porque desse dia em diante eles não se largaram mais... Juntos, eles atravessaram as manhãs mais divertidas, as tardes mais bonitas e as noites mais doces. Aprenderam que um abraço vale mais do que um grito e que aceitar o outro do modo como é, é das coisas mais lindas desse mundo. Vinicius comemorou quando Hudson ingressou no curso de enfermagem, mesmo sabendo que isso reduziria o tempo deles juntos, porque era o que Hudson queria. Hudson apoiou os projetos artísticos mais ousados de Vinicius, porque soube amar o que Vinicius ama, Hudson ficou livre pra Vinicius, Vinicius se prendeu a Hudson. Juntos eles estão descobrindo o verdadeiro amor. Juntos eles estão ensinando muitas pessoas sobre amor.
Porque coisas que são pequenas para muitos casais heterossexuais, pra eles são muito grandes. É grande demais apresentar os pais, é grande demais se beijar na rua, é grande demais aproximar as famílias. É grande demais cada pequena atitude de aceitação. Mesmo assim, eles comemoram cada pequena conquista, cada pequena atitude. Vinicius se emocionou quando a mãe dele separou uns livros de enfermagem pra ele levar pra Hudson, e cada vez que ela conversa com Hudson, o coração dele fica mais leve, ele sente mais paz. Ele se emocionou quando a tia dele disse que encontrou com o companheiro dele num local, porque ver a tia dele reconhecer Hudson como seu companheiro foi a parte mais bonita da semana dele. Coisas tão pequenas que se tornam tão grandes.
Atualmente, Vinicius tá fazendo mestrado em Florianópolis enquanto Hudson continua no seu curso de Enfermagem em São Luís. Eu sempre converso com Vinicius pelo Messenger. Outro dia ele me contou que Hudson foi visitá-lo lá e que foi lindo e emocionante o encontro deles. Ele já ficou de férias e chegou aqui em São Luís, dia 18 de dezembro eles comemoram 4 anos de namoro e do jeito que eles já usam até aliança de compromisso, acho que não vai durar muito tempo pra essa história virar casamento.

Mas eu publicar esse texto hoje, não tem nada a ver com o fato do aniversário de namoro deles estar próximo. É só que aquele rapaz negro, lindo, alegre, um garoto, quase 10 anos mais jovem que eu, que conheci no meu primeiro dia de aula e que de longe soube que amaria e que me ensinaria alguma coisa, vive uma história linda que as pessoas precisam conhecer, as pessoas precisam se permitir conhecer histórias lindas, porque como já disse, coisas que são pequenas para muitos casais heterossexuais, pra eles são muito grandes, são grandes porque tem muita gente que não entende de amor, porque tem muita gente que precisa entender de amor. Tiara Sousa

sábado, 2 de dezembro de 2017

DETESTO DEZEMBRO

Eu gosto daquela saia velha e colorida com a bainha gasta e com lembranças de um tempo em que eu não contava as horas. Hoje, eu e o meu relógio de pulso somos inseparáveis, é que pra lá da janela tem um mundo inteiro esperando que a gente se comporte como alguém da nossa idade, e a única coisa que eu queria desse mundo era a liberdade de poder desejar um trio do Bob’s, uma canção do Bob Marley e uma prateleira cheia de romances fúteis pra ler.
Já é Dezembro. De novo dezembro. Eu amo as luzes de Natal que iluminam a cidade, passo horas na frente do shopping olhando aquelas cortinas de lâmpadas e pego o caminho mais longo só pra passar pelas pontes e apreciar as iluminações natalinas, mas detesto a sensação que esse mês me trás de que preciso trocar a mochila por uma bolsa de couro cheia de zipers dourados, de que preciso doar todas as minhas havaianas e camisetas e comprar sapatilhas e blusas sociais, de que preciso superar o meu vício em cigarros e em analgésicos e em coca cola e em guloseimas e em homens encantadoramente complicados e me conformar com saladas de atum e quinoa, mesmo não fazendo ideia do que é mesmo quinoa.
Detesto dezembro porque toda vez que o ano chega ao fim começo a me perguntar até quando vou poder abrir a porta do quarto da minha mãe e fazer o maior drama por causa de uma dor de cabeça, uma dor de cólica, uma merda de alergia. Até quando eu vou poder pedir pra minha avó fazer aquele bolo que eu gosto, só porque eu gosto. Até quando vou poder ser bagunceira e pular em cima da cama e do sofá cada vez que tocar uma música legal na rádio. Até quando eu vou poder me dar ao luxo de escrever, mesmo sabendo que eu se eu quiser ganhar dinheiro mesmo, a melhor opção é o inferno de um concurso público.
Detesto Dezembro porque cada versão minha é mais antiga que a outra. Porque eu sou um vestido de 1999, sou o sabor do verão passado, sou um disco de vinil, sou a incapacidade de comer um cachorro quente sem sujar a mesa toda. Porque nunca me habituei a cruzar as pernas ao sentar, ou a perguntar a alguém se esta tudo bem sem realmente querer saber se esta tudo bem, ou a desfazer as malas pensando em como é um saco desfazer as malas. Porque há um gosto ácido na minha boca que me faz quebrar as regras, e nessas, eu sempre me quebro. Porque eu gosto de andar descalça e de contestar moralismos, porque sou medrosa e sonhadora e egoísta e mimada e egocêntrica e agridoce e dou o maior trabalho pra todo mundo que me cerca. Porque pra me entender tem que detestar Dezembro pelo menos um pouco.

Detesto Dezembro porque é Dezembro, porque é o fim de alguma coisa, e eu nunca me habituei aos fins. Detesto, porque não me conformo que anos no meu RG ditem quem eu sou, ou como devo me vestir, ou me comportar, ou até onde posso errar. Detesto Dezembro. Mas amo Janeiro.  Porque Janeiro é começo e me lembra aquela saia velha e colorida com a bainha gasta e com lembranças de um tempo em que eu não contava as horas. Porque me dá vontade de mandar o mundo inteiro pra lá da janela que espera que a gente se comporte como alguém da nossa idade ir se fuder, e porque é a melhor época pra se comer um trio do Bob’s, pra se ouvir uma canção do Bob Marley e ler todos aqueles romances fúteis da prateleira. Tiara Sousa

sábado, 25 de novembro de 2017

LEIA-ME ou COMO FOI “ARREBENTAR MUROS SOCIAIS” COM O REOCUPA NA FELIS 2017

Nunca consegui me acostumar ao mundo. Foi a primeira coisa que pensei quando subi no palco do anfiteatro Beto Bittencourt no dia 15 de novembro para participar do evento “Arrebentando Muros Sociais”, promovido pelo Reocupa, na Felis 2017- Feira do livro em São Luís. Tratava-se de um debate sobre poesia marginal, eles trouxeram duas escritoras do Slam das minas de São Paulo, e me puseram ali no meio delas, com o propósito de colocar três mulheres, três escritoras, três pretas, num debate em torno da poesia e literatura à partir do estilo marginal.
Logo que cheguei para o evento, me apresentei a Deuza Brabo e ao Kadu, que são do Movimento Reocupa, de lá a Deuza me levou ao encontro da mediadora do debate, a atriz Nilce Braga, uma moça muito bonita, simpática e inteligente que carregava um turbante na cabeça e que não sei porque me deixou com a impressão que o Continente Africano inteiro morava nos olhos dela, e foi a impressão mais bonita que tive na noite. Não demorou muito até que chegassem as estrelas do debate, a Mel Duarte e a Luz Ribeiro, enquanto elas se aproximavam com aqueles cabelos exuberantes, e aquelas roupas maravilhosas e as peles negras mais lindas que já vi a olhos nus, e tão bem maquiadas e seguras que me fizeram sentir vergonha de me debruçar sobre o fato de agora que sou uma balzaquiana me sentir a vontade pra me transtornar com a possibilidade de uma primeira ruga, um primeiro pé de galinha, um culote que seja, de ficar medindo a queda de colágeno no meu braço, na minha bunda, na minha barriga, nas minhas pernas, no espaço entre a minha axila e o meu ombro... Por ser o tipo de mulher que é obcecada por Albert Camus e acha que toda canção de Amy Winehouse cabe facilmente como trilha sonora da minha vida, e por nunca ter superado o fato de que aos nove anos deixei uma menina estúpida roubar o meu papel de cartas favorito (e não, não é que eu seja rancorosa, é que o papel de cartas era dos ursinhos carinhosos).
Enquanto conversávamos, as quatro, ali paradas num canto do Anfiteatro, fumando nossos cigarros caros e acertando a melhor forma de abrir a mesa ao público, pensei que no momento em que as escritoras que iriam compor a mesa de debate conheciam a cidade eu ficava na sombra de uma árvore pra não sofrer, e no momento que elas se vestiam pensando nas paisagens e nas pessoas que conheceram ali eu colecionava silêncios e desfazia as minhas utopias enquanto me vestia pra sair.
Por volta das 18 horas, nos dirigimos até próximo do palco pra que cada uma entrasse recitando um texto ou poema seu, a Mel foi a primeira a subir no palco e enquanto eu a observava ali tão segura e confiante e me tremia toda de imaginar que pela próxima uma hora e meia eu iria ter que falar ali para um público grande, perdi o ar e me perguntei o que eu estava fazendo ali, não me fiz essa pergunta pelo evento em si, porque era maravilhoso e eu fiquei muito feliz com o convite, mas sim porque sou o tipo de pessoa que gosta de solidão e traja sempre o avesso do apropriado, porque eu não sou sociável, simpática ou extrovertida, e acho que todo o caos é pelo menos 80% mais interessante que o marasmo, porque passo horas olhando para o teto em busca da droga  do teto, e todos os caras que já passaram pela minha vida tentaram mudar alguma coisa em mim, fosse o meu gosto por camisas largas, a minha indisposição em fazer as unhas, o meu desprezo por batons vermelhos, e cor de rosa, e marrom, e de qualquer cor existente na face da terra, fosse os meus penteados equivocados, os meus poemas favoritos ou a minha eterna mania de deixar as coisas mais urgentes para o ano que vem.
Comecei a falar nervosa, mas depois relaxei, eu, a Mel, a Luz e a Nilce falamos para aquele Anfiteatro cheio, coisas sobre ser mulher, negra escritora e sobre como os marginalizados socialmente podem transformar as coisas com uma caneta, um papel e um microfone, mas no fundo nós estávamos falando era de amor, e creio que nos fizemos entender. Recitamos algumas coisas que escrevemos e que fazia alusão ao assunto em pauta e nos despedimos. Ao sair do palco senti um alívio imenso, a mesa foi muito legal, instrutiva e agradável mas eu não conseguia parar de pensar no fato de que não é o palco que me agrada, são os bastidores, que sou melhor e mais feliz escrevendo do que falando e no quanto seria mais fácil viver sem que os olhos das pessoas que me assistiam e me ouviam falar me atravessassem. É que aceitar realidades não é coisa de gente sonhadora, e a ilusão não cabe em cálculos, e eu não sei gostar mais ou menos, sorrir mais ou menos, chorar mais ou menos, doer mais ou menos, existir mais ou menos. É tudo tão inteiro por aqui por dentro que ás vezes cabe uma multidão inteira numa frase que escrevo e às vezes eu sou a primeira dessa multidão a me despedaçar.
Ao final da mesa, e depois de falar com algumas pessoas, tirar algumas fotografias, receber alguns elogios e dar uma entrevista, saí dali... Apressada, entrei no carro e dirigi até a minha casa, passei pelo terraço, pela sala, pela copa, pela cozinha, pelo corredor e finalmente entrei no meu quarto quase correndo, quase sem fôlego, sentei na cama, acendi um cigarro, abri o notebook e escrevi... Nunca consegui me acostumar ao mundo. Depois saí e fui lanchar com umas amigas. É que falei bastante aquela noite, mas o que eu precisava mesmo era de dez segundos de silencio pra escrever essa frase, porque todos os meus eternos e todos os meus fins estão em palavras escritas, e os meus protagonistas serão sempre os marginais, marginalizados, como a atriz de turbante com olhos de África, as poetas do Slam das Minas com ares de protesto, os desbravadores do Reocupa , e eu, tentando me acostumar ao mundo. Tiara Sousa


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

LADO B

Direitos da imagem: Site Recanto das letras
Ela disse que o gosto dele ainda estava na boca dela, e eu senti dó dela, porque gostos são para ser passageiros, se não dia ou outro amargam. Ela estava triste porque até as bainhas das saias dela lembravam ele, e todas as cores eram as cores da pele dele, e ela preferia perder tempo com ele do que ter todo o tempo do mundo. A saudade que ela sentia transitava por cada osso de seu corpo... Doía crânio e maxilar e mandíbula e clavícula e escápula e costelas e úmero e esterno e coluna e ulna e rádio e ítio e carpo e metacarpo e fêmur e ísquio e púbis e patela e tíbia e fíbula e tarso e metatarso e falanges... Cada droga de osso gritava o nome dele! Ela quis chorar, mas parecia fraca, e a fraqueza muitas vezes é uma dose de whisky barato com o único propósito de afogar as mágoas, e sem propósito algum.
Ela disse que nunca amou assim... Tanto! Assim com os poros abertos e expostos, assim com as células inflamadas e com a garganta inflamada e com as articulações inflamadas e com a sensação de que o mundo inteiro pra lá da janela estava apertado para o que ela sentia. Assim de quatro e por cima e por baixo e de perto e de longe e de fora e de dentro, e de muito dentro. Ela contou as feridas dele, porque eram maiores que as dela, é que as feridas dele doíam mais nela. Ela roeu as unhas e tentou amar uma causa, uma paisagem, uma canção, mas toda causa era ele, toda paisagem era ele, toda canção era ele. E ela foi ficando menor diante da impressão de que cedo ou tarde todos na rua seriam ele. Ela diminuía diante da lembrança de uma dobrinha que ele tinha do lado esquerdo do pescoço, e quase sumia enquanto olhava o banco de madeira em que ele gostava de pôr os pés. Ela banalizava os desejos alheios e superestimava tudo o que ele tocava enquanto tocava nela.
Ela disse que via os sussurros dele; Via, porque ouvi-los nunca foi suficiente. Disse que ouvia os olhares dele; Ouvia, porque vê-los era cru demais. E às vezes ela recordava por horas que ele apertava a mão dela sempre que ela queria desistir de alguma coisa, é que alguma coisa nela tinha certeza que todas as vezes que ela quisesse desistir a mão dela iria doer um pouco de uma saudade muita, é que doer um pouco é muita coisa quando se espera ansiosamente por essa dor.
Ela disse que o que acabava com ela não era a falta da presença dele pelos móveis da casa, nem mesmo o torpor que se tornou o seu cotidiano com a distancia dele, ou o cheiro de sexo que ele espalhou pelo corpo dela e esqueceu de juntar depois. O que acabava com ela era a escova de dentes velha que ele deixou na pia do banheiro, eram os fios de cabelo dele no pente dela, era a camisa que ela comprou pra dar de presente a ele e que acabou nunca conseguindo entregar. O que acabava com ela era uma sensação insistente e recorrente de que entre o Até logo e o Mais tarde havia um fim.
Ela foi a puta dele... E a santa. Foi o sagrado... E o profano. Ela foi a mania que ele tinha estalar os dedos sempre que estava entediado, foi a risada maldosa que ele soltava cada vez que alguém usava um termo estranho pra falar de algo comum, ela foi a mentira que ele contou pra justificar um atraso na primeira em que eles foram juntos ao cinema, foi o tesão que ele guardou pra ela na última vez que eles se amaram, foi a tentativa dele de disfarçar o olhar de desejo que direcionou a mulher de biquíni que passou ao lado deles na praia. Ela foi ele. E ela foi dele. E ela não fazia ideia de como deixar de ser.
E quantas mulheres já não foram ela... E quantas vezes já não fomos ela... E por quanto tempo ainda seremos ela... Foi o que eu pensei. Tiara Sousa