terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

TENTE GOSTAR DE MIM


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Não sou delicada como uma louça. Não tenho o hábito de cruzar as pernas como as moças consideradas socialmente aceitáveis. Nunca em toda a minha existência cheguei num restaurante pra pedir um prato de salada, e me recuso a ficar duas horas no salão fazendo as unhas.
Não sei decoradas falas de grandes antropólogos, filósofos e cientistas políticos, costumo decorar poemas e números de Dellivery de Fast Food. Eu babo dormindo, e a minha barriga ronca mais que o normal, e pra completar, definitivamente acordo péssima, inchada, horrorosa, terrível, desfigurada. Acho academia um saco, e na boa, entre ter uma bunda malhada e um trio do Bob’s, eu fico com o trio. Uma bunda malhada vai satisfazer os olhares libidinosos de homens superficiais, o trio do Bob’s vai me satisfazer.
Acho fofo quem pega gatinhos abandonados pra cuidar, e de verdade, detesto vê-los sofrendo e sendo maltratados, mas eu particularmente não simpatizo com gatinhos, eles são tão carinhosos que é de dar agonia, gatões são mais a minha praia, se é que me entendem. Penso que os bois, as galinhas e os porquinhos deveriam poder ter uma vida longa e bonita, mas esqueço que penso isso quando chego num rodízio de churrasco e me deparo com uma picanha.
Sou fã da natureza, e mais do que isso a favor da conscientização das pessoas acerca da importância da preservação do meio ambiente, mas não se enganem, se ameaçarem cortar com uma serra uma árvore de 200 anos, eu não vou ser aquela moça massa que fica abraçada na árvore esperando a serra atingi-la, entre eu e árvore velha, sou eu né.
Quando busco meu filho na escola e ele me diz que tá morrendo de fome, logo me imagino na cozinha, ele provando o delicioso prato que preparei e elogiando a comida, mas só fica na imaginação mesmo, porque imediatamente me dou conta que comigo como cozinheira não tem como a comida ficar deliciosa, além do trabalho que vai dar pra preparar, então acabo parando no restaurante mais próximo ou indo a casa da minha vó, onde sempre tem um almoço legal esperando pela gente.
Sou uma romântica, do tipo que vê príncipes em sapos e assiste comedia americana emocionada. Gosto das histórias, dos olhares, das mensagens, dos beijos que de tão ansiosamente esperados, são inesperados, do sexo invasivo e genuinamente ébrio, que eleva a linguagem sem necessariamente precisar de uma palavra. Gosto da liberdade de querer estar presa sem estar presa de fato. Gosto da paixão, do encanto do início, do despudor do meio, e até da dor do fim, mas temo e sempre temi que o “pra sempre” seja um saco, real demais, que ele furte a possibilidade de lembrar de um romance com uma certa fantasia.
Gosto de gente, das complicadas relações humanas, do gosto amargo da humanidade, mas tem dias que acordo detestando gente e tudo que vem junto, e prefiro ler romances, assistir comedias, ouvir canções, escrever crônicas, mas ao fim do dia concluo que era tudo sobre gente, e me sinto limitada, porque são nesses dias que sou mais gente.
Tenho déficit de atenção, nunca sei onde estão minhas chaves, meu relógio, minha cabeça, minha sanidade, minha capacidade de me interessar por homens que prestem. Não sou do tipo que abraça, meiguice me dá enjoo. Já fiz terapia e conclui que ver o mar era mais eficaz, porque o mar é o lugar mais lindo e mais triste do mundo, e acho de verdade que a minha terapeuta precisava de terapia.
Quanto mais dirijo, mais detesto dirigir, sou viciada em nicotina, em analgésico, em antialérgico, em coca cola. Não sou de dizer muita coisa, me sinto confortável mantendo sempre uma distância segura do resto do mundo, sou ateia desde a primeira vez que cochilei numa aula de catequese, aos 9 anos. 
Não sou a mulher descolada que assiste futebol e fala palavrões, não sou a florzinha que diz que ama com os olhos marejados, não sou a exótica que senta embaixo de uma árvore e fuma um com a galera, não sou a gostosona que para o trânsito com suas formas cheias e curvas delineadas, e também não sou a que impressiona com discursos de assuntos em alta.
Já transei no primeiro encontro, já tive crise de ciúmes, já pré-julguei quem não merecia, já tive o coração partido e já parti corações. Sou mimada, individualista e adoro estar certa. Mas se apesar do óbvio, porque tudo isso é só o óbvio, vocês tentarem gostar de mim e chegarem mais perto, talvez acabem descobrindo porque uma vez por ano eu releio “O estrangeiro” de Albert Camus, porque gosto de vestidos e camisas, porque aprecio a solidão, porque todo fim de ano dirijo pela cidade a noite procurando pelas luzes de natal, ou a razão de eu ouvir tanto Chico Buarque, de usar o relógio com o mostrador virado pra parte de baixo do pulso, ou o que me encanta no Teatro, porque tenho tanto medo de portas abertas e me sinto mais à vontade entre livros, filmes e músicas do que entre pessoas, porque escrevo.
E aí, se vocês entenderem tudo isso e superarem o fato de eu preferir eu a uma árvore velha e esquecer da preciosa existência dos bois quando me deparo com uma picanha, talvez assim, vocês não precisem mais tentar e acabem realmente gostando de mim, pois nem mesmo o melhor dramaturgo, roteirista, escritor já criou um personagem que alcançasse a complexidade de um ser humano, então eu sou mais que isso, todo mundo é, e tá tudo certo, ninguém tem que fazer sentido. Tiara Sousa

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

O FIM DO SILÊNCIO


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Ela costumava ler Silvia Plath quando ficava muito triste, pra lembrar que existiram saudades maiores, tristezas maiores, gente mais triste. E quando estava alegre se entregava a Fernando Pessoa e seus heterônimos, porque ele tinha o dom de descobrir estampas em tecidos beges, e ela gostava disso, mas fazia meses que ela não lia nada deles. E era a pele que doía.
Era menos difícil quando ele partia, não era fácil, mas era menos difícil, ela só precisava sentar na cama, pegar o notebook, abrir um energético e acender um cigarro, e as palavras vinham... pois ainda que lhe tirassem tudo, no fim ela ainda tinha as histórias, os sentimentos, o dom de ler o mundo como poucos, as linearidades, os comportamentos, as sugestões, as dores, o que estava trancado em cadeado. Ela entendia do ser humano mesmo conservando uma certa ingenuidade sobre o mesmo, e por isso se sentia solitária. Era como ser uma bailarina que não tinha pra quem dançar. Ela podia ler tanta gente, mas quase ninguém podia ler ela, porque havia em cada poro de seu corpo uma dor escondida, e ainda assim ela quase nunca se desesperava. 
Mas ele sempre voltava, como os pássaros ao fim do inverno, ele sempre voltava, e no fim do dia ela não entendia se isso era só a vida seguindo seu curso, ou se isso era ela permitindo que ele lhe tirasse mais um pouco. Então um dia, ela já havia perdido tantas partes, que dessa vez foi ela a mandá-lo partir, e quando ele tentava voltar, ela o mandava partir mais um pouco, deixando entre eles uma distância segura, onde só caberia mesmo o silêncio. 
Pra ela manter-se distante dele era como a fome. Ou a sede. Doía tanto, mas tanto, até ela esquecer que doía, porque sem a pele dele ali ela esquecia que tinha pele, e sem o corpo dele ali ela esquecia que tinha corpo, e sem o cheiro dele ali ela esquecia que tinha cheiro, e sem o som da voz dele ali ela esquecia que tinha voz. E doía a ponto de viver dentro dela torna-se inóspito, só que pra ela viver fora dela era como deixar de ser ela, era perder a identidade. Era como calar um grito. Não era calar, era sufocar. E isso bastou pra ela deixar de acreditar nas coisas que escrevia e perder as palavras, a ponto de não conseguir escrever mais nada, tropeçando na própria afronta, no próprio ego. Tornando-se um livro de capa magnífica cheio de páginas em branco, pois sem as palavras não lhe sobrava nada de inconsistente, além da saudade.
E a saudade é como o silêncio, porque não há saudade sem apreço pelo que está distante ou se perdeu, e ainda que a perda soe como uma escolha, nunca é. Afinal, pra que preencher um espaço vazio se o vazio ainda estiver ali? E não, não deveria haver nada de errado com o silencio. Não deveria. E só que ela já tinha perdido demais.
Ela deixou de observar a mágica entre os olhares, trabalhou, cumpriu horários, datas, compromissos, deixou de julgar superficialidades porque passou a se comportar superficialmente, chegou tão perto de se adequar a multidão que por fora estava tudo bem e por dentro quase morria de dor sem sequer se dar conta que estava doendo. Olhou em volta e de repente soava igual a todo mundo, mas ser diferente era e sempre foi o que a manteve sã. E então desabou. Fugiu pra onde sempre fugia quando nada sobrava, pra clausura, porque pra viver, ah, pra viver tem que ter coragem, e ela que sempre apreciou o silêncio, teve medo dele, porque sem as palavras ele não lhe servia de nada.
Até que numa quarta-feira qualquer, enquanto ela dobrava os seus shorts jeans, o barulho dos ensaios de uma escola de samba cujo a sede localiza-se na rua do fundo de sua casa invadiram, assediaram, corromperam o silêncio do seu closed, lhe parecia um barulho insuportável. Tentou ler, ver um filme, ouvir uma música, mas não dava pra fazer nada com o som daquela bateria por toda a casa, ela xingou, esbravejou, mas o barulho ainda estava ali, então se deu conta que se ela gritasse em meio aquele som estridente ninguém poderia ouvir. Deitou no chão do seu closed e gritou, gritou pelo fim do romance, pelo fim da inocência, pelo fim da paz, pelo fim da ilusão, por todos os desejos e medos e ausências e tons. Gritou pelo fim do silêncio, pelo fim do silêncio, PELO FIM DO SILÊNCIO! E tendo o grito abafado pelo som da bateria da escola de samba, ela começou a sentir um alivio imenso, e finalmente, chorou. Chorou voltando a se sentir aquela que é inadequada, que lê o mundo e a humanidade como poucos, que sente-se desconfortável na multidão, que nunca está completamente à vontade em lugar algum que não numa folha de papel ou documento de word, e que julga superficialidades, pois é estranha, insociável e solitária como uma bailarina que não tem pra quem dançar.
Sentou na cama, pegou o notebook, abriu um energético, acendeu um cigarro e as palavras vieram. E depois de meses de silêncio, escreveu. Ela escreveu sobre uma mulher que ao fazer o certo e pedir para alguém partir se partiu ao meio, tornando-se um livro de capa magnifica que se desaprendeu pra reaprender a preencher as suas páginas. Ela escreveu sobre ela e sobre como era o fim do silêncio. Feliz 2019 a todos os leitores, o Alternativo voltou! Tiara Sousa


quinta-feira, 26 de julho de 2018

SAPATILHA AZUL


Às vezes acho que tem mundo demais. Mas mesmo assim me sinto apertada, como se esse lugar de tantos países, línguas e continentes não me coubesse. Como se esse lugar me oprimisse. É uma sensação entre o meu corpo que dói de saudade de objetos que não tive, pessoas que não conheci, momentos que não vivi, fatos que não presenciei, e a minha vontade de gritar. Mas o pior é quando meu corpo dói e pronto. Apenas dói. Sem saudade de nada. Como se houvesse um deus pra cada parte que dói, doer direito.
Eu não poderia comprar aquela sapatilha, ela era azul, e sempre achei que tudo que é só azul, é azul demais. Nem sei bem como fui parar naquela sapataria, é só que eu não poderia ficar em casa. Não naquele dia. Não tão triste quanto estava. Então peguei a chave do carro e saí, quando dei por mim estava lá, experimentando sapatos, e eu nem gosto de sapatos, ou fica pequeno, ou grande, ou desconfortável, ou simplesmente é azul demais. Mas experimentar sapatos era tudo que eu conseguia fazer, e eu era a única da loja que experimentava sapato chorando, mas eu não via ninguém, logo era como se ninguém me visse. Quando a gente tá muito triste, é só a gente, o mundo, e um monte de sapatos. Que vontade que tive de eu inteira caber dentro de um, mas como não cabia, saí da loja sem um sapato sequer, só com a havaiana de sempre.
Depois fui a praia, sozinha, sentei a beira mar, apenas com um energético e uma carteira de cigarros, pensando sobre todas as coisas que de tão grandes nunca irão caber dentro de um sapato. A tristeza que eu sentia aquele dia por exemplo só caberia em mim, e eu ficava olhando o mar e pensando que nem mesmo ali naquela imensidão, naquele infinito, naquela beleza, naquela solidão, minha dor caberia tão bem quanto em mim.
É que assim como toda gente, cresci numa sociedade em que as pessoas medem palavras a toda hora do dia, mas sempre esquecem de medir as atitudes, e eu nunca aprendi a agir assim, e tentei tanto, durante tanto tempo, agir como os outros, ser mais adaptável, mas fui na contramão, sempre vou na contramão. É que há um amargo entre meu siso e a minha veia aorta que me faz nunca medir as palavras, mas sempre medir as atitudes. É que na infância tive uma boneca cujo a aparência não me agradava, então pintei o cabelo dela, cortei, fiz uma roupa diferente, tatuei ela com cola colorida, costurei uma bota de fiapos pra ela, mas nada adiantava, ela ainda era ela, ainda tinha aquela cabeça imensa típica das bonecas Moranguinho, e foi essa a minha primeira grande lição de vida... A gente muda o tempo inteiro, mas sempre tem uma coisa suficientemente grande que faz a gente ser a gente, e essa coisa irá continuar pelo resto de nossas vidas.
E não importa o quanto eu tente, nunca entenderei certas coisas tão naturais para algumas pessoas. Ainda não entendo o que move a humanidade. Não entendo porque depois de duas horas de culto, os evangélicos da igreja da esquina criticam os boêmios nos bares. Não entendo como se pode ferir gratuitamente quem diz amar, nem o que leva as pessoas a uma cegueira e surdez de consciência, ou porque colocam seus desejos e anseios acima dos sentimentos. Definitivamente não entendo que ambição é mais leve que um abraço, que orgasmo é mais feroz que uma saudade, que tesão é mais digno que um sorriso, que vontade é maior do que um amor, que vaidade pode superar uma história bonita. Não entendo e não quero entender.
Não quero mais aprender a agir como os outros, a ser mais adaptável, a deixar de ir na contramão. Não faço mais questão de ser como a maioria dessas 7,6 bilhões de pessoas que compõe a humanidade, se no fim de cada rua cai um pedaço de mim que jamais recuperarei, se nas dobras da minha saia cor de rosa não tem mais espaço para novas dores, se ás vezes acho que tem mundo demais e mesmo assim me sinto apertada, como se esse lugar de tantos países, línguas e continentes não me coubesse. Como se eu fosse uma sapatilha azul demais e por isso nunca saísse da vitrine da loja.
Depois de duas horas concluindo essas coisas e chorando a beira mar, levantei, entrei no carro, voltei a sapataria e comprei a tal sapatilha. E ela nem parecia mais tão azul. Tiara Sousa

terça-feira, 22 de maio de 2018

PÁGINA 77

Imagem do site Pixabay
A minha pretensão, desde cedo, era passar pela vida intacta, como quem percorre um caminho conhecido ou como quem só viaja com um mapa em mãos. Eu queria saber dos segredos antes, conhecer os limites das dores, as sinuosidades das linhas. Fui atrás dos conceitos, das teorias, observei cada comportamento, cada distração, na esperança que me fosse revelado um algo de constante na humanidade. Mas não consegui, nunca consegui. A vida não é óbvia nem por um segundo, não há roteiro. Ela apenas acontece e dilacera.
Cheguei a pizzaria por volta das 20 hs, já eram 20h12 e nem sinal da minha pizza chegar. Eu estava entediada desde as 17 hs, tinha tentado ficar em casa ao invés de ir enriquecer dono de pizzaria, mas me frustrei com um livro na página 77, porque ali aconteceu algo que eu não suportei. O que mais gosto nos livros é isso, se algo te frustra você fecha e segue a sua existência intolerante, egoísta e mesquinha sem o livro reclamar uma linha sequer.
Os olhos castanhos da garçonete grávida me incomodaram, os olhos castanhos da menina de trança da mesa ao lado me incomodaram, os olhos castanhos do rapaz que fazia as entregas me incomodaram. Olhos castanhos sempre me incomodam. Talvez por isso meu antepenúltimo namorado tivesse os olhos pretos, e o meu penúltimo os olhos verdes e o meu último, azuis. É que passo tanto tempo pensando em tudo e em todos que só penso em mim, e me incomoda o fato de crer que toda a dor do mundo só pode caber na beleza comum e estranha de olhos castanhos. E os meus são tão castanhos que ás vezes ardem.
Eu precisava matar o tempo. Tem gente que coleciona horas, dias, fases, eu prefiro enforcar o tempo em praça publica antes que ele me enforque, antes que eu perceba que enquanto ele passa não são apenas as minhas células que vão morrendo, ou o meu colágeno que vai diminuindo, mas a minha memória toda se despe e me atravessa como uma faca, eu prefiro agarrar a porra da faca. Então fiz algo que sempre faço quando quero matar o tempo, há quem nesses momentos leia Nicholas Sparks, quem fique no celular, quem veja as últimas noticias, eu observo as pessoas em volta, porque acho que ali moram todas as histórias de Sparks, todos os passatempos dos celulares, e cabem ali todas as noticias. E já aconteceu de eu observar as pessoas a minha volta e até me encantar por elas, mas na maioria das vezes eu me arrependo da minha condição humana e saio latindo para as poucas flores que ainda encontram-se pela cidade.
Na mesa a frente da minha rapazes debatiam seus relacionamentos, é tão raro flagrar homens em conversas assim que decidi observá-los, eles falavam de mulheres que passaram pelas suas vidas e enquanto eles falavam eu recordava de experiências vividas, de homens passados, de dores insuportáveis que suportei, e me dei conta que já fui todas essas mulheres pra todos esses caras, já quis mais do que deveria, já odiei tanto que era somente amor, já sumi dos meus olhos, já me entreguei inteira e saí despedaçada,  já lutei por causas perdidas e já fui uma causa perdida, já fui exaustivamente conquistada, já fui extremamente mau amada, já me apaixonei pela ideia de alguém, já gostei tanto que tive medo que ele escorresse pelos meus dedos e por que eu tinha medo todos os meus vazios eram ele. E enquanto me encontrava em cada uma das mulheres daquela conversa, um dos rapazes ali sentados começou a narrar as ousadias românticas que a sua ex fez por ele, enquanto o ouvia me dei conta que nunca, nenhuma ousadia minha jamais foi por homem algum, foi sempre por amor a mim, eu nunca gostei de nenhum deles como gosto de mim, mesmo quando cada objeto insignificante da minha mesa de cabeceira era uma paixão, era porque eu tava completa e perdidamente apaixonada, e se queria muito, era porque a solidão me desconstruía, e se pensava muito era porque estava entediada, e se ansiava muito era porque ardia de desejo e se não era mais, eu não queria mais. Não queria porque ninguém nunca me amou como eu, nunca me desejou, me rejeitou, me decepcionou como eu, o que vinha do outro era sempre insípido comparado ao que vinha de mim e pra mim. Sou eu a pessoa mais capaz de tirar e triturar e exterminar e apanhar e recolher e retirar e tomar e desviar e dissuadir e arrancar e abduzir e arrebatar e desenraizar e expulsar e extrair e puxar e remover e sacar a minha paz. A ex de quem o rapaz da mesa a frente falava não cometeu aqueles atos desesperadamente românticos por ele, ela os cometeu por estar perdida e completamente apaixonada por si mesma.

Gostei, mas detestei gostar da coerência masculina naqueles rapazes, detesto o fato de eles acharem que tudo tá normal, que tá tudo certo e que cada coisa tá no seu devido lugar. Detesto, porque sabia que quando eles chegassem em casa sentariam no sofá, e que eu ao chegar em casa iria mudar o sofá de lugar pela quinta vez só esse mês. Detesto, porque tenho a mania de pensar que a tampa da minha panela sou eu, que a minha outra metade sou eu, que o meu príncipe encantado num cavalo branco sou eu, e porque tenho o que a minha vó chama de “essa mania feia”, pra me amar tem que me suportar um pouco, tem que se ferir um pouco, tem que se pisar um pouco, tem que saber sonhar em horário comercial. Detesto, porque eu só queria uma pizza metade bacon, metade frango com catupiry e não consegui nem por alguns minutos ser a mulher que senta, come uma pizza e vai embora achando tudo natural. Eu tinha que abominar tudo ao meu redor e chegar em casa com o estomago cheio e os olhos castanhos vazios, sem coragem de abrir uma droga de livro e continuar a minha leitura, porque na página 77 percebi que a protagonista não conseguiria passar pela vida intacta, como quem percorre um caminho conhecido ou como quem só viaja com um mapa em mãos. Tiara Sousa

segunda-feira, 7 de maio de 2018

ESTRANHOS COMO EU


Finalmente entendi o que me move, e o que me move não é a Primavera, nem o Verão, nem o Outono, nem o Inverno, o que me move é a promessa de uma Primavera, é a promessa de um Verão, é a promessa de um Outono, é a promessa de um Inverno, é a paixão. Por isso gosto mais da ideia de alguém do que de alguém de fato, e nunca mais ousei desmontar as minhas formas, estou a margem de mim, sorrio das superfícies. Mas nem sempre foi assim...
Aos 9 anos eu fui levada pela primeira vez a psicóloga. As diretoras da escola não me compreendiam. As professoras não me compreendiam. Os meus colegas de turma não me compreendiam. Nem a droga do meu cachorro me compreendia. Tava todo mundo querendo que alguém desse um sinal de como lidar comigo, alguém que falava com os bibelôs bregas e ridículos da estante da sala da minha avó, mas que não olhava nos olhos de ninguém por mais de cinco segundos, e cuja a conversa mais longa que conseguia estabelecer com um ser humano que não fosse do convívio cotidiano era Oi. E não, não tô julgando todo mundo por querer me mandar pra terapia, eu era estranha mesmo, eu gostava de gente comum, de passeios comuns, de filmes comuns e livros comuns, mas mesmo assim eu era estranha pra caralho. Eu andava meio que saltando, meu cabelo não combinava comigo, o meu corpo não combinava comigo, a minha farda amarela de abelhinha era tão exótica que chegava perto, mas ainda assim não combinava comigo.
A equipe pedagógica da escola achava mesmo que eu era retardada, já a minha mãe achava que eu iria mudar o mundo, coitada, eu tava cagando e andando pra o mundo, eu já tinha o meu mundo, ele era só meu e nele não cabia 98% da face da Terra (é que sempre achei tudo tão cruel por aqui). A minha professora passou a dormir depois das onze pensando em diagnósticos pra mim, o meu cachorro meio que me suportava (e eu amava ele), as minhas tias só queriam que eu crescesse logo e honrasse a educação cara e sacrificada que eu recebia ficando rica, bem sucedida e prática, mas no fundo mesmo sem entender muito sobre mim elas sabiam que isso seria difícil (pra dizer o mínimo), e eu, bem, eu queria aquele sorvete self service que vendia na Lobras, e ainda quero, mas a Lobras faliu há mais de uma década.
Eu não era triste, nem doce, nem competitiva, nem parceira, nem altiva, nem prática, eu era estranha, puta merda gente, eu era a criança mais estranha da escola, a mais estranha da rua, a mais estranha da casa, eu conseguia falar sobre paranormalidade e nuances rítmicas enquanto penteava Barbies ridiculamente loiras, altas e magras, como é que alguém com menos de 1,50m (se é que algum dia eu tive menos de 1, 50m) poderia ser tão contraditória, terapia era pouco pra mim.
Depois de um tempo, de muita terapia, e de um monte de teste chato, a tal psicóloga fez um apanhado sobre a minha personalidade (oh mulher tapada, eu não era nada daquilo que ela dizia, eu só era estranha mesmo), e entregou um papel a minha mãe com resultados de testes afirmando que eu tinha um Q.I bem alto, a minha mãe deu saltos de alegria e passou aquele papel na cara de meia escola, de meia rua, de meia casa, de meia São Luís, tadinha, como quem dizia... - Eu sempre soube, minha filha é genial. O problema é que pra minha mãe toda criança que sabia falar paralelepípedo era um gênio, e como eu não sabia resolver uma expressão numérica sequer, mas tinha um vocabulário digno de gente grande, lia muito e escrevia sobre os fusos horários sem horários e sem fusos e toda essa baboseira poética desde os 5 anos, e claro, tinha o DNA dela, ela realmente acreditava nisso. Ela jamais, jamais admitiria que no fundo da minha inteligência, da minha solidão, da minha mania de me desfazer de realidades a todo segundo, da minha incapacidade de lidar com a praticidade das coisas, da minha insociabilidade e nata falta de simpatia só tinha uma pessoinha, um “serumaninho”, uma coisinha estranha pra caralho, que mesmo sendo intelectualmente extravagante, sempre foi emocionalmente limitada, sempre soube amar, mas nunca soube dizer que amava sem combinar as palavras quase que misticamente de forma genérica e literária.
Vinte e quatro anos depois de ter pisado pela primeira vez no consultório daquela psicóloga eu me aprendi, assimilo a confusão que sou, mais do que isso, eu quero a confusão. Sou disforme não porque calo, mas porque as minhas formas gritam.
E a cada estranho no mundo, desejo que se aprendam assim, que liguem um foda-se pra essa moda toda, pra todo esse caos e existam onde se sentirem mais confortáveis, seja num ritual, num mal, num conto, numa crônica, num poema, num orgasmo, num ato, num método, numa canção, num amor, numa igreja ou de quatro num quarto de motel, pois a sua estranheza há de caber em algum lugar. E eu ainda sou a mais estranha da escola, a mais estranha da rua, a mais estranha da casa, puta merda gente, continuo estranha pra caralho, só que hoje tenho a consciência de que a minha estranheza é compacta e sempre foi, cabe num documento de Word, numa pagina de um site, na última crônica que publiquei, cabe aqui e cabe em mim, afinal, não trata-se de como estou, trata-se de quem sou. E eu sempre fui estranha porque o mundo sempre me estranhou, o problema nunca foi eu ser quem sou, o problema sempre foi quem sou não caber no entendimento limitado e ignorante de boa parte das pessoas. E é por isso que espero que estranhos como eu me leiam, se leiam e permitam-se serem lidos. Tiara Sousa