sábado, 23 de setembro de 2017

BANG – A GENTE NUNCA CRESCE

Precisei chegar aos 32 anos de idade, ver meus ex casarem com mulheres menos belas, inteligentes e complicadas do que eu, ver a crise econômica se instalar no meu país, ver uma presidenta ser arrancada do cargo por uma quadrilha, ver meus amigos homossexuais serem taxados de doentes em pleno ano de 2017, ver o pôr do sol em Punta Del Este e em Coroatá (e concluir que o de Coroatá é mais bonito), ser mãe aos 18 anos e adolescente aos 30, ser traída, ser usada, ser aplaudida, amada, odiada, discriminada, infinitamente bem comida, infinitamente mal correspondida. Ler teorias da comunicação e Shakeaspeare no mesmo intervalo de tempo, ouvir a Nona Sinfonia de Bethoven e Bang de Anita (adoro essa música), precisei de tudo isso pra entender uma coisa bem pequena, Freud, meu caríssimo, genial, fodástico Freud, não explica porra nenhuma. Chico Buarque de Holanda, que é o maior ídolo que tenho na vida, não explica porra nenhuma. Brecht, que foi um acontecimento em muitos e geniais sentidos para o Teatro e para a Literatura, não explica porra nenhuma. Ninguém explica. Quem quiser entender alguma coisa que viva e sobreviva e compreenda sozinho.
Na quinta-feira, voltando com a minha amiga da balada (adoro essa palavra, faz eu me sentir tão jovem), concluímos que a gente nunca cresce, sabe a tua avó, aquela senhorinha meiga e curiosa que já viu muito, passou por muita coisa, teve perdas irreparáveis, teve ganhos também, você deve ser um desses ganhos, pois é, a tua avó também não cresceu. A gente aprende, desaprende, aprende um pouco mais, perde o brilho da juventude, o tônus muscular, a memória exata do primeiro beijo vai ficando embaçada, o colágeno então, filho da mãe, esse é o primeiro a começar a ir embora, perde flores que murcham antes de estarmos preparados para ausência delas. Em compensação a gente ganha, a gente ganha novas memórias, de novos beijos, a gente ganha filhos (Tem ganho mais lindo? Tem não), a gente ganha laços, ganha cicatrizes, a gente ganha tranquilidade emocional pra aceitar quando as flores murcham, ganha conhecimento e novidades. Mas a gente nunca cresce.
A gente nunca cresce porque toda alegria é pela primeira vez, toda tristeza, toda paixão, todo ódio, todo amor, todo sexo, toda dor, todo fim, é pela primeira vez. É sempre pela primeira vez. O olhar sobre os acontecimentos pode até mudar, quase sempre muda, mas sentimento é sempre novo, é sempre inebriante, estarrecedor, único, informal, perigoso, vivo, muito vivo. A gente nunca tá preparado e isso é tão ruim, e isso é tão bom.
Quando eu tinha 9 anos, no primeiro dia de aula do que na época chamávamos de 3ª série (agora é 4º ano, até isso mudou), uma professora chamada Claudete me perguntou o que eu iria ser quando crescesse, eu respondi que ainda não sabia. Faz um bom tempo que estou atrás de Claudete, que atualmente deve estar na casa dos 50 anos e ainda deve ser a ótima professora que sempre foi, é que eu quero dizer a ela que agora eu já sei a resposta pra essa pergunta. Professora Claudete que lecionou na escola Centro Educacional Colméia no ano de 1994, se você estiver lendo isso agora saiba que a minha resposta pra o que eu vou ser quando crescer, é que eu nunca vou crescer, que vou sempre sentir como aquela garotinha de 9 anos a quem você deu aula e ensinou a escrever seus sentimentos num diário, nada mudou dentro de mim, só por fora que tem muita novidade, um dia eu te conto, sei que vou te encontrar com outra aparência, mas não tem problema, conto assim mesmo, aparências não me enganam, tenho certeza que você também nunca cresceu, e não foi Freud quem me explicou isso, ninguém me explicou, eu entendi... A gente nunca cresce. Tiara Sousa

sábado, 16 de setembro de 2017

BASTIDORES

Imagem retirada do site A Escotilha
É a sétima vez que tenho esse mesmo sonho, isso já tem dois meses, exatamente o mesmo sonho.
Nele eu caminho pela rua, mas a rua só existe pra mim, para o restante das pessoas ela é uma ilusão, como se fosse um cenário montado num palco de um teatro qualquer do subúrbio de uma cidade caricata em que tudo é comum. E atrás desse palco, olhos. Sem camarim, sem métrica, sem figurino, sem pintura. Neles, uma crueldade sensível, dessas que só encontram raramente e em pessoas que não importa a conjuntura familiar, já nasceram sem lar e sem rumo, ainda que dentro de um lar cheio dos melhores sentimentos e intenções.
Dessas, que são o próprio subúrbio, sem os hábitos, os modos, a liberdade despretensiosa, mas ainda assim o subúrbio, de tudo o que te disseram que era coerente ser, e ás vezes desconheço esses olhos, que são castanhos, escuros, pequenos, daqueles que num sorriso quase se fecham, ás vezes não, ás vezes esses olhos são meus.
Tento encontrar esse palco, e os olhos atrás desse palco, influenciada talvez pelos filmes da sessão da tarde que assisti na infância quase creio ser possível, imagino uma máquina do tempo que me leve ao tempo dos outros, aqueles para a qual a rua ainda é uma ilusão, aqueles que enxergam o cenário, o palco, os bastidores. Confusa, massacrada e violada pela espera de uma máquina do tempo que não chega pra me tirar dali, do meu tempo, corro sem direção, mas não há nada, então dou de encontro com um homem lindo, aos meus padrões é claro, o que lhe confere ser um tanto desleixado, com um modo incompleto de olhar, ele parece se questionar sobre alguma coisa, talvez sobre a vida, a economia ou alguma mulher desinteressante e comedida, talvez uma dessas novas feministas que saem por aí apenas de sutiã vermelho e militam em redes sociais, e só de pensar que esse tipo de mulher pode ser quem rouba os sentimentos e pensamentos dele, me calo, desisto de pedir ajuda, perco o interesse ainda verde e continuo a caminhar...
Canso, resolvo sentar num banco de cimento velho e quebrado numa praça em que crianças fingem ser crianças, como se ainda fosse possível ser só isso num mundo tão afetado e disforme, na minha cabeça uma música de Marisa Monte e uma carta que nunca escrevi, um e-mail que nunca enviei, uma paixão platônica da pré-adolescência e o “Estrangeiro” de Camus. Olho em volta e a rua continua a mesma, real, sem cenário e sem palco, e continua só existindo pra mim, e continua sendo apenas uma ilusão para todo o restante das pessoas, e então eu tento chorar, mas não consigo, e me desespero pela conclusão que o tempo não volta e que vai continuar sempre assim, tudo real.
Então acordo. Abro o notebook e num site de buscas, tento encontrar o significado desse sonho, mas não encontro, nunca encontro, nenhuma das sete vezes, o meu impulso é ficar estática, deitada na minha cama esperando despertar, com medo de levantar e ir até a rua e perceber que assim como no sonho ela é real, porque se ela for real vai deixar de existir dentro de mim, e vai fazer sentido, e coisas com sentido me atordoam. Mas não sigo meu impulso imediatamente, levanto corajosamente lembrando que os mais velhos e mais sábios costumam dizer que a gente só aprende na dor, que só na dor crescemos e somente diante dela entendemos as coisas, então decido sair, tomo banho, me visto, mas cada vez que olho pela janela o mundo é um lugar pior, e assustada acabo ficando, pensando nesse sonho repetitivo e incomodo, pensando na rua que vejo, e no cenário, no palco, nos bastidores que não encontro... Concluindo que a arte é tímida, se expressa pelos becos escuros dos subúrbios manchados de sangue e suor do povo, que o palco é a manifestação da arte, e que a arte meus caros artistas, trabalhadores, intelectuais, apreciadores... A arte é os bastidores, os olhos sem camarim, sem métrica, sem figurino, sem pintura, olhos que podem ser seus e que podem ser meus. E então compreendo tudo, sobre esse sonho que me diz que a rua é uma ilusão para todos e que apenas eu a enxergo como real. Compreendo tudo... Esse sonho que se repete é o efeito do tempo sobre mim, é que ás vezes eu acho que acordei de todos os meus sonhos, e só de achar isso, acordo de muitos deles. Tiara Sousa

sexta-feira, 10 de março de 2017

A HIPOCRISIA QUE É FICAR MAIS VELHO

Imagem do site https://www.megapixl.com
Tenho 9 anos e sou apenas mais uma garotinha esperando que o pai a ame mais que o mundo e que a mãe dê mais atenção a ela do que ao trabalho, meu penteado se resume a duas tranças horrorosas que a minha tia fez com todo carinho, acho que nunca terei a sensível capacidade de compreender como se consegue fazer coisas tão horrorosas com tanto carinho. Estou sentada assistindo aula de logaritmos numa sala de uma escola burguesa, eu sou a única preta da turma, sou a única com essa tranças horrorosas, sou a única escrevendo poesia ao invés de copiar a aula, sou a única pensando na rachadura do meu banquinho preferido que fica na cozinha da minha casa, sou definitivamente a única imaginando que os logaritmos são células cor de abobora fantasiadas de dias nublados pra desfilar numa escola de samba no carnaval, ninguém mais se parece comigo, nem por fora e nem por dentro, por isso ás vezes prefiro sentar sozinha num banco no parquinho na hora do recreio ao invés de ir brincar. Tem uns quinze minutos que eu não entendo nada do que a professora tá falando, há uns meses atrás ela e as diretoras chamaram a minha mãe pra uma conversa, disseram que eu vivia no mundo da lua, que era muito calada e pouco sociável, que eu parecia fazer questão de não me encaixar e que um acompanhamento psicológico seria de grande ajuda para o meu desenvolvimento intelectual e social, minha mãe me levou a psicóloga, depois de diversas sessões voltou a escola com um papel que dizia que tudo o que eu tinha era um QI alto e que meus problemas de sociabilidade deveriam ser superados com a contribuição didática também da instituição de ensino, bem feito pra escola, agora a professora tá tendo que me aturar, e o pior é que eu gosto da escola e gosto da professora e adoro o fato de ela ter que me aturar.
Tenho 18 anos, estou sentada num barzinho chamado Bagda Café com o meu pai e mais um monte de amigos, estou tomando uma cerveja e falando coisas engraçadas, quem diria que a menina que eu fui um dia, isolada, hoje estaria cercada de gente, sorrindo, conversando e brincando, agora esse é o meu recreio, e dessa vez eu participo da brincadeira, enquanto tiver sob o efeito do álcool eu posso ser tudo o que esperam de mim, o problema é que eu esperava outras coisas de mim. O namorado da vez também tá sentado, ele parece preocupado comigo, como se eu fosse de vidro e pudesse quebrar, mal sabe ele que eu já nasci quebrada, não tem nada em mim inteiro com exceção dos sonhos e parece que a qualquer momento eles também quebrarão, porque tenho visto tanta coisa que tá ficando difícil acreditar no mundo que eu inventei, um mundo onde a dobradiça da porta esteja em sintonia com a havaiana que esqueci no meio da sala e a sala esteja em sintonia com o roteiro do filme da sessão da tarde e a sessão da tarde esteja em sintonia com os meus desejos mais oblíquos e infantis. E que nada nunca tenha que deixar de ser exatamente como acontece na minha imaginação, um mundo perfeito, em que nenhum nó seja cego e tudo possa ser desfeito com princípios e eloquências agradáveis.
Tenho 20 e poucos anos, estou num paraíso de cidadezinha no meio do nada, encontrei um camping legal pra ficar, tenho alguma grana, muita vontade de esquecer do que era pra ser e acabou não sendo e a vista mais bonita da cidade, mas sei que não vou ficar muito tempo por aqui, meu filho tá me esperando pra crescer comigo e eu entendi desde a gravidez que pra eu crescer preciso tá perto dele também. Hoje vai ter uma balada onde todos os turistas vão estar, já me arrumei e não vou perder, fiz amizade com uma galera de Fortaleza, da Colômbia, da Dinamarca, da Alemanha e da Argentina, eles são divertidos e parecem estar tão perdidos quanto eu, já saquei que vou acabar me apaixonando por alguns deles e escolher um vai ser a parte mais difícil do meu dia, é legal quando a parte difícil do dia é a mais fácil do ano, então acho que já comecei bem, depois vou dormir numa barraca com o som dos pássaros e a vista das estrelas e do mar, aqui não tem TV, internet, jornais e nada que me afunde na realidade, somente eu, culturas diversas e a distancia efêmera de tudo, acho que não vou sair daqui a mesma, e talvez eu tome um banho de mar quando amanhecer.
Tenho 31 anos, quase 32, tem duas horas que espero o momento em que eu consiga me sentir livre sem analgésicos, ou que a inércia não me faça voltar varias vezes uma cena de filme ou seriado que eu goste só por precisar daquela sensação, passei a usar mais sutiã e vestir menos branco, abandonei o celular descarregado e trincado em algum canto da casa, conclui que não precisava mais dele quando ele me deixou no momento que eu mais precisava, discuti com uma das minhas melhores amigas antes de antes de ontem, a gente sempre discute assim umas duas ou três vezes ao ano, geralmente eu não discuto com ninguém fora do meu período de TPM, não é da minha natureza, eu acho, mas tudo bem discutir com ela, porque provavelmente ela está entre as dez pessoas mais diferentes de mim no mundo e contraditoriamente ela também está entre as dez que eu mais amo, e eu sou egoísta demais pra compreender a generosidade dela e intolerante demais pra admitir que talvez ela só quisesse ajudar. Li três livros no último mês, era pra ser cinco, dois eu desisti, assisti uns dois seriados, fumei umas trinta carteiras de cigarro, nunca mais liguei a TV, me apaixonei por alguma coisa ás 15 horas da terça-feira, e nas 7:30 hs da quarta eu já não sentia mais nada, perdi as duas chaves do carro num intervalo de dois meses, perdi as duas chaves de casa no mesmo intervalo, perdi 7 quilos, sou boa em perder, mas tá tudo no lugar, o meu quadro das três meninas de costa olhando alguma coisa que nunca vou deixar de imaginar o que é, no lugar; Os meus vestidos longos, no lugar; A minha mochila preta, no lugar; Os meus olhos e pele e saliva e vagina e orelhas e ego e coração e dedos e cérebro, no lugar... É um saco essa minha vitória tão arduamente conquistada de estar a um bom tempo sem dar o fora de mim, e tudo isso não quer dizer muita coisa, além do quanto há hipocrisia em se ficar mais velho.

Porque no decorrer da vida vamos nos transformando num resumo clichê das auto versões que deixamos pelo caminho, e não importa o quanto a gente aprenda, quebre a cara, vire jogos, ensaie modos ou se enquadre nos padrões sociais, no que esperam de nós e no que nos dizem que é ser maduros, a nossa versão principal será sempre aquela mais antiga da qual se tem lembrança. E eu ainda sou a menina de 9 anos que não consegue se encaixar, e pior, que detesta ter que se esforçar todos os dias pra se encaixar, ainda espero que o meu pai me ame mais que o mundo e que a minha mãe dê mais atenção a mim do que ao trabalho, e na única lembrança que tenho de logaritmos eles são células cor de abobora fantasiadas de dias nublados pra desfilar numa escola de samba no carnaval. Tiara Sousa

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A TRISTEZA DE VERISSA

Imagem do Site
www.tuttartpitturasculturapoesiamusica.com
É Sábado, 18 de fevereiro de 2017, e Verissa disse que tá triste, muito triste, triste assim de um vazio imenso, melancólico, profundo, utópico, fantasioso, quase real. Eu disse a ela que tô mais fudida do que ela e comecei a recitar todos os meus problemas, ela nem estranhou a minha reação, me conhece tão bem que já espera esse tipo de coisa, sabe que eu sou presunçosa, pretensiosa, presumida, imodesta, arrogante, metida, esnobe, vaidosa, egocêntrica, enfatuada, afetada, cabotina, todos esses sinônimos, e ela sabe que mesmo na tristeza profunda melancólica vazia e chata dela eu iria dar um jeito de ser a protagonista, nem que pra isso eu tivesse que discursar minutos a fio sobre as mazelas da minha vida.
Perguntei a Verissa o motivo de tamanha tristeza, ela disse que era uma tristeza assim desmoronante, e que ela não conseguia encontrar um motivo pra ela, eu lembrei de um seriado antigo, monótono e infantil que eu assisti há uns anos e depois assisti novamente e provavelmente ainda irei assistir mais algumas vezes, porque ele filosofa e é triste e é inerente aos incomuns, então logo a questionei se não era algum seriado que ela tava assistindo, ela disse que não, e naquele momento detestei o fato de não conseguir explicar a tristeza dela mais do que detestei o fato de ela estar triste, talvez porque na minha mente insana fossem a mesma coisa, então me empenhei na missão infantil e tola de encontrar o motivo daquela tristeza, porque eu gosto de ter as respostas e porque se não as encontrasse, iria ter que admitir que num mundo de tantas guerras e fomes e dores e injustiças e corações partidos ainda existem tristezas sem motivo, e eu não queria pensar assim, porque se eu pensasse assim iria doer em mim, e eu amo detestar dores generosas.
Então depois de muito pensar e refletir longamente por uns 30 segundos, anunciei a ela que eu já sabia o que havia sido, e eram os três dias que ela estava sem me ver, que a minha ausência infame causa esse efeito nos meus amigos, e que ela ficasse melhor que logo iria me encontrar. Mas ela respondeu: kkk, e eu fiquei puta, Verissa poderia ter dito... É mesmo Tiara, deve ser saudade de ti, mas ela tinha que conseguir com três letras dizer que não era a minha ausência e ainda tirar uma onda com a minha cara, e eu pensando que os meus amigos se contorciam de saudade com a falta das minhas infinitas distorções de tudo. Mas eu não desisti tão fácil, Verissa não é de se abrir muito e se ela falou que tava triste, triste assim como uma fotografia démodé de uma artista vintage, era porque tava mesmo, e eu precisava de um porque, talvez mais que ela, afinal se eu ficasse intima da tristeza dela eu poderia sentir com ela, e quem sabe até sentir por ela, e nisso eu não tava sendo egoísta, eu acho.
Então comecei a dar minhas versões mirabolantes do que teria causado aquela tristeza, porque se não era seriado, e não era a minha ausência, tinha que ser alguma coisa. Meus palpites foram, a sociologia, ela disse que não, então falei se não seria falta de guloseimas, ela disse não, comi lasanha mais cedo, fiquei puta novamente, eu tinha comido torrada enquanto ela comia lasanha e não tava triste assim, que porra de tristeza poderia ser essa, nem perguntei se era algum cara, se não tava triste por falta de fast foods não era um homem, por mais gato, inteligente e viril que fosse que iria deixa-la assim. Minha cabeça já tava rodando, então resolvi dar conselhos do que não fazer quando se está triste, porque eu já fiquei triste assim, assim de doer na clavícula e sair nos olhos, assim de 7 a 1 em cima do Brasil em plena Copa do mundo, assim de cheirar a roupa do ex procurando pelo ex, assim de escovar os dentes querendo dormir e dirigir querendo dormir e transar querendo dormir e sorrir querendo dormir e até dormir querendo dormir, então certamente meus conselhos deveriam valer de alguma coisa, e eu comecei... Primeiro, saia, evite ficar em casa, a nossa casa é um lugar tão nosso que lá ser triste é mais fácil do que ser feliz; Segundo, não assista, ouça ou leia nada profundo, nada que te emocione, que te faça refletir; E finalmente... Terceiro, coma doces, o doce engorda, estraga os dentes, causa doenças, mas não existe nada mais eficaz do que eles nessas horas, ela disse então que já tinha feito tudo isso, mas que a tristeza continuava ali, na cabeceira da cama e na cama, na escrivaninha e na TV, no edredom e no furo no vestido velho, na saliva amarga e no amargo de tudo, e como eu tenho o hábito de visualizar todas as coisas que me dizem em cenas esdrúxulas, de repente eu pude ver a tristeza de Verissa, e mesmo eu soando assim tão insensível aos olhos comuns, eu pude senti-la por dois segundos e meio, e foram os dois segundos e meio mais abomináveis desde 1985.
Porque a tristeza de Verissa não deveria ser dela, dela não. Ela vê o mundo cor de rosa, por isso ela tem aquelas tranqueiras rosas espalhadas por todo o quarto, é a bruta mais doce que eu conheço, e ninguém no mundo é encantadora e irritadoramente mais inconstante do que ela, pois só ela sabe ser Caetano Veloso na segunda e Wesley Safadão na terça com a mesma paixão e empenho, sabe detestar gente e amar ir ao bumba meu boi, sabe acordar na sua linda casa no Calhau e dirigir até o Anel Viário pra tomar café da manhã, e quem mais além dessa moça é tão convencida a ponto de citar Freud como se estivesse citando um colega de turma, e tem milhões de partes dela que são só dela e que ela jamais vai dividir com ninguém, e gente assim não deveria ser triste nunca, nem mesmo nos sábados a noite quando todo mundo fica meio triste, nem mesmo sem motivo, nem mesmo assim.

Mas claro que eu não disse nada disso a ela, eu poderia ter dito, mas aí como iria ficar minha velha e boa fama de má, então não disse nada, liguei cinco minutos depois e perguntei se não eram gases, ela sorriu, e certamente me conhecendo como só amigas se conhecem, entendeu que aquela era a minha maneira de dizer... Conta comigo, tô aqui pra ti, eu posso ser presunçosa, pretensiosa, presumida, imodesta, arrogante, metida, esnobe, vaidosa, egocêntrica, enfatuada, afetada, cabotina, todos esses sinônimos, mas na tua tristeza eu serei sempre protagonista pelos motivos nobres, porque ela também é minha, e eu daria tudo (menos meu carro, meu notebook novo, meus vestidos acima de 200 reais, meus livros, meus CD’s, minha TV e principalmente aquela pulseira de palha que tu trouxeste da Colômbia pra mim) pra ser mesmo apenas gases e passar logo. Tiara Sousa

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

OUTRAS DORES

Imagem do site http://sentimentosdaevinha.tumblr.com/
Tenho uma dor no osso da perna direita desde os meus sete anos, e tenho uma dor ainda pior no osso da perna esquerda desde meus cinco, elas já estão aqui há tantos anos que semana passada quando elas não apareceram, senti que tava faltando alguma coisa muito importante, e não gostei. Me habituei a essas dores, porque quando eu tô sozinha, sozinha mesmo, sozinha de gente, de bicho, de TV, de internet, de livros, de músicas, de vícios, são essas dores que me fazem companhia, e elas me são tão familiares e recorrentes e antigas e espaçosas e incomodas e interessantes, que na semana que elas desapareceram eu jurei que nunca mais ia ficar assim, sozinha de tudo. É claro que era mentira.
A gente se habitua as mais inusitadas coisas, eu por exemplo me habituei a essas dores e a um monte de outras dores, algumas que doíam tanto que eu nunca identifiquei o lugar exato onde elas habitavam. Não faço ideia de como seria a vida sem dor, acho que ninguém faz, é só que as pessoas não tem o hábito de admitir isso.
Na minha infância costumava ir a feira com a minha avó, eu e a minha prima concorríamos pra decidir quem iria em determinado domingo ser a companhia dela na feira, era um programa péssimo, muita gente, muito barulho, muitos cheiros, eu detestava aquilo, mas eu queria ir todos os domingos, porque depois de fazer todas as compras dos alimentos, a minha avó usava os últimos trocados e me deixava escolher alguma coisa do armarinho da feira, geralmente eu escolhia uma presilha de cabelo ou um anel de plástico, voltávamos pra casa caminhando, com aquelas sacolas pesadas, e muito cansadas, mas sempre valia a pena por causa daquelas lembranças. Mais tarde, já adulta, eu fiquei tentando entender porque ganhar aquelas coisas era tão importante, já que dentro das possibilidades da minha família eu tinha tudo, a melhor escola, os melhores brinquedos, as melhores roupas, porque tanto sacrifício por aquelas bobagens baratas, cheguei a conclusão que não eram as lembranças, nunca foram, era o olhar da minha avó enquanto me dava elas. Muita coisa mudou desde aquele tempo, minha avó não vai mais a feira, ela tem 80 anos e sua idade já não lhe permite, eu não sou mais criança, as presilhas de cabelo saíram de moda e consequentemente dos armarinhos das feiras, e os anéis de plásticos já não cabem nos meus dedos, e todos os domingos quando a minha mãe acorda cedo pra ir à feira com a minha tia e fazer as compras da minha avó, ás exatas sete horas, eu sinto a dor de não sermos eu e a minha avó a irmos à feira, mesmo ela ainda me olhando daquele mesmo jeito cada vez que me dá algo. E esse é o tipo de dor que se um dia passasse ia me fazer uma falta imensa.
Soa um tanto destrutivo que dentre tantas coisas no mundo, os seres humanos ainda sintam falta exatamente das dores, de algumas delas pelo menos, não posso falar pelo resto da humanidade, mas as minhas dores são guardadas em caixas imaginárias junto com as suposições do que eu teria sido ou de como estaria hoje sem elas. Por isso elas fazem falta de vez em quando, e por isso gosto de tê-las por perto, é porque sem elas toda a minha formação estaria condenada ao fracasso e eu jamais seria a mesma. Provavelmente pareceria mais sábio dizer aos mais jovens que fujam das dores, das físicas e emocionais e daquelas que de tão emocionais transfiguram-se físicas, mas não é. As dores são pra ser aproveitadas, contempladas, revisitadas, impróprias. A dor do primeiro amor, e do último; Do adeus, e do até mais; A dor de inventar uma dor pra se refazer de uma ainda pior, a dor da ilusão despida e da realidade coberta, a dor de saber que nada nunca volta, e que nada nunca é como deveria ser. A dor é pra ser desfrutada, como a pele que desfruta do sol.
Essa semana a dor no osso da minha perna direita, aquela que tenho desde os sete anos, voltou. E a dor no osso da minha perna esquerda, aquela que tenho desde os cinco e que é ainda pior, também voltou. Poderia estar me lamentando, afinal nada se compara ao desprazer de uma dor reavivada, mas não, eu apenas fico aqui, sentada, usando o gel e o analgésico de sempre, porque a primeira vez que as minhas pernas doeram eu me desesperei, hoje não, hoje elas podem doer a vontade, já sei que passo por elas, que sou maior do que elas. É assim a vida... Depois que a gente passa pelas dores a primeira vez, a gente descobre que quanto maior a dor, maiores nós nos tornamos enquanto passamos por ela. E no fim das contas, nem é da falta da dor nos ossos das minhas pernas que eu tava falando, mas acho que todo mundo que já doeu assim tanto, assim com o cabelo, com os dentes, com os dedos, com a palma da mão, com os olhos, com a nuca, com a alma, já sabe, já percebeu, que definitivamente eram de outras dores que eu falava. De outras dores. Tiara Sousa