sábado, 7 de dezembro de 2013

QUERIDO NOEL

Texto dedicado a todas as criOnças do mundo!
Obrigada leitores!!! Até 2014 com mais textos!!!

- 28 de novembro de 2013 – 1ª Carta ao Papai Noel

Querido Noel, peço desculpas, pois embora visivelmente adulta, não fui uma boa menina esse ano, na realidade eu não fui uma boa menina nenhum ano, contei mais estrelas do que devia, sorri com a lua como se ela me correspondesse, comemorei tão exageradamente os raios de sol ou com igual exagero me revoltei contra eles, corri para a chuva enquanto todos corriam dela, e chorei as dores do mundo com uma propriedade que não cabia a mim. Mas apesar disso e por conhecer a sua grandiosa generosidade, afinal, um velhinho que poderia estar aproveitando a aposentadoria, sentado no sofá da sala, assistindo ao futebol enquanto come a comida requentada de anteontem, mas aproveita seu tempo para sair por aí distribuindo presentes para as crianças, deve mesmo ser muito generoso, então peço que atenda o meu pedido, o que eu quero de presente de Natal é só e simplesmente deixar de ser criança.
Sei que ama crianças e deve mesmo achar isso tudo da infância muito bonito, eu também acho, mas é que os anos se passaram e o mundo tem exigido de mim mais do que eu posso dar, logo eu que fui magoada tantas vezes e de meio milhões de modos diferentes e todos doeram com similar voracidade, que já magoei também e as vezes pessoas que amo, que já comi o pão que o diabo nem se deu ao trabalho de amassar, e que já fui tão triste e de vez em quando ainda sou, logo eu conheço a dor e sei o que é a realidade, que sou intima de medos horrendos, enfim... que já sei tanto sobre tanto, mas que ainda assim, não, nunca consegui deixar de ser criança, e isso era pra ser sempre alegre e divertido, mas não é.
Sabe Noel, sou uma observadora do ser humano, dos comportamentos, dos olhares, das reações, dos hábitos e costumes, sempre fui, não com um olhar de julgamento e desaprovação, mas de encanto e curiosidade, e de tanto observá-los, a todos, eu passei a desejar ser como eles, e a achar injusto nunca de fato ter conseguido. Quero ser organizada, responsável e atenta, saber onde estão minhas chaves, meus documentos, meus cartões, minha cabeça, quero ser pontual de um jeito natural, e deixar de trocar belas refeições por guloseimas, mas sempre acabo sem conseguir ser nada disso, e expondo aos meus amigos e a todos os que me cercam a um monitoramento eterno de mim. Sei que muitos acham que eu sou uma das pessoas mais felizes do mundo, porque o mundo pode estar caindo sobre a minha cabeça e não consigo ficar muito preocupada, na realidade, eu ainda não entendo como as pessoas conseguem se preocupar tanto com tudo, mas enfim, eu não sou, não sou assim tão feliz.
Observo as mulheres da minha idade, elas são vaidosas e autossuficientes, com as suas maquiagens e unhas bem feitas, com aqueles jeitos de quem sempre tem mil coisas adultas pra fazer e resolver, e muitas acham que querem ser como eu, que pra mim tudo é simples, que eu sou livre de um jeito inocente, dizem até que acham o máximo o fato de eu me achar o máximo a ponto de não agir como elas, mas a verdade Noel, é que as vejo e as procuro em mim, naqueles seus ares experientes, eu as procuro, mas nunca encontro, droga, será que elas não percebem, que eu me acho mesmo é um peixe fora d’agua, que eu não vejo a hora de crescer.
Eu sei que conversar comigo pode ser muito divertido, afinal não consigo falar sério por cinco minutos, e olha que eu tento, eu nem sei se acho tudo tão triste que necessite de humor, ou se a minha personalidade é essa e pronto. E até confesso, nem tudo são flores murchas, há um lado bom em ser como sou, dizem que uma criança é a alegria da casa, o tempo passa e passa e todas as vezes que entro na casa da minha avó, é isso que eu sou, a criança que alegra a casa, comigo chega a bagunça, o barulho, a baderna, coisas que as pessoas perdem no caminho e que eu nunca consegui deixar pra trás, e as vezes isso me consola, porém, a maior parte do tempo, eu só queria ser um adulto normal.
É por essas e outras bom velhinho, que espero que atenda o meu pedido e por favor, me deixe crescer, acompanhando o tempo que a cada dia passa mais rápido. Beijos! Até!!!

- 29 de novembro de 2013 – 2ª Carta ao Papai Noel

Querido Noel, estive pensando no meu nada convencional pedido, e constatei que o senhor não deve atendê-lo, que nem poderia, é que mais cedo assisti ao filme “Meu passado me condena”, na companhia de um belo menino de nove anos, por quem tenho um amor incondicional, nesse filme tinha o personagem Fabio, de 29 anos, e que assim como eu é uma criança grande, e em grandes proporções, e que assim como eu parece muito perdido em seu corpo adulto e num mundo que exige dele comportamentos sérios e comedidos, responsáveis e comprometidos. Enquanto assistíamos, houve um determinado momento em que esse menino, sorrindo com as graças do personagem Fábio, me olhou e disse: “Ele é igual a você.” E ele parecia tão feliz e orgulhoso enquanto dizia isso, foi então que finalmente percebi que eu nunca irei mudar, que sempre vou ser a criança da casa, da rua, do emprego, do relacionamento, de qualquer lugar e situação, e que não tenho que sentir vergonha disso, porque é assim que eu sou e esse deve ser um dos meus encantos, que deve ter mais gente como eu por aí, se sentindo um peixe fora d’água e se martirizando com medo da infância nunca passar.
O filme é uma comédia, mas eu que já choro ao assistir qualquer filme, confesso que nunca chorei tanto como enquanto assistia a esse, creio que naquele momento, me enxerguei de um outro modo, percebendo algo óbvio que só eu não via, eu dou um trabalho danado pra todo mundo, mas eles gostam de mim assim mesmo, e também por isso, e isso Noel, é das coisas mais lindas do mundo. Finalmente aceitei que sou uma criança agora, e chegarei aos 30 anos sendo uma criança, serei uma criança aos 40, aos 50, aos 60, aos 70, ah Noel, eu serei uma eterna criança. Só que pela primeira vez em anos me sinto muito bem com isso, sei que por muitas vezes ainda me sentirei deslocada, mas parece um preço pequeno a se pagar por se ter os bônus que vem com a fase adulta em uma eterna infância.
Portanto, mudo o meu pedido, esperando que considere o fato de que no meu coração ainda sou uma criança, e portanto tenho direito ao meu presente, dessa vez, o que quero é ganhar na loteria, hahaha por essa o senhor não esperava né? Então se puder, e eu desconfio que pode, envie os números da Mega Sena para o meu email: tiarasousa@ig.com.br, e prometo tentar não gastar tudo com bobagens. Ah e antes que esqueça, devo salientar querido Noel, que o senhor é um velhinho muito safado, hoje enquanto aguardava o inicio da sessão do filme, passei por você no shopping, o senhor estava fofo com sua roupa vermelha e sua longa barba branca, sentado na sua cadeira tirando foto com as crianças, mas ao me ver passar disse nada discretamente, “morena gostosa”, ah por favor né bom velhinho, comporte-se como alguém da sua idade, ou melhor... não comporte-se não, afinal, corações não envelhecem, eu sou a prova viva disso. Ah e não se esqueça, diga a todas as criOnças como eu e você, que aceitem-se, afinal, como já dizia Caetano: “Cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é.” Beijos! Até 2014!!! Tiara Sousa

sábado, 30 de novembro de 2013

MEU FEMININO DISCURSO FEMINISTA

__ E é por crer que nos desvirginar de influencias machistas, não nos torna menos femininas e sentimentais, não nos furta a essência e não nos descaracteriza, é que reprovo tanto a ideia de superioridade masculina (machismo), quanto a ideia de superioridade feminina (femismo). E é por sonhar com uma sociedade que aceite libido e intelecto nas mulheres, e sentimento e emoção nos homens, e com um mundo que enxergue as diferenças entre os gêneros sem deixar de trata-los como iguais, que assumo de salto alto, batom vermelho, cabelos soltos e vestido cor de rosa que aprovo a luta por igualdade de gênero (feminismo).
Todas nós, mulheres, já ouvimos frases do tipo: _ Comporte-se como uma moça! _Sente-se direito! _ Vista-se adequadamente! _ Não fale palavrões! _ Guarde-se para o homem da sua vida! _ Aja descentemente! Ainda que em orações separadas, já ouvimos isso, e isso é só isso, é pequeno, superficial, inatingível e extremamente machista, embora dito e redito pelas próprias mulheres.
Crescemos brincando com bonecas, de casinha, de cozinheira, e que natural, não é? Afinal, muitas vezes é da essência feminina a evidencia de certas disposições, eu nem seria tola a ponto de dizer que não há nada de voluntário nessas brincadeiras, que nelas não estão envolvidas o instinto materno e os alcances líricos, emocionais e instáveis próprios do gênero feminino. Porém, crescemos assim, não apenas realizando a nossa essência, mas principalmente obedecendo às ideias machistas da sociedade, que desde sempre nos treina para embalar crianças e cuidar dos afazeres domésticos, para calar e consentir, para não ousar, ou ousar apenas para satisfazer as fantasias do marido.
Alguns discursos são uma junção dos contos de fadas, em que as princesas são inocentes e intocáveis até encontrarem seus príncipes (o idealizado grande amor), com as interpretações bíblicas e a imagem cristã da bondosa mulher Maria, que com todo o respeito, devo acrescentar, não bastasse ser bondosa, tinha que ser eternamente virgem, e que nem grandes figuras históricas femininas foram capazes de sucumbir a tal adoração e efeito psicológico. Tais discursos são inseridos em nossas mentes desde cedo, partem de uma sociedade despreparada para uma igualdade de gênero, e são reproduzidos nas crianças, pelas próprias famílias, incluindo as mães. Sim, mães! Pois uma parcela considerável das mulheres é machista e nem percebe que é. Somos deseducadas para os relacionamentos de natureza romântica, pois de tanto ouvir sobre príncipes e princesas, buscamos uma história de enredo perfeito (que não existe), e nos perdemos de nós mesmas na tentativa de firmar nosso papel na sociedade, nós nos idealizamos de tal maneira que o sexo, algo tão natural, passa a ser motivo de intermináveis questionamentos e visto como um problema moral e ético.
A questão, é que o tempo passou, e uniram-se aos velhos discursos puritanos, os discursos da liberdade sexual feminina, instaurando nas mulheres contemporâneas a ideia de “posso tudo o que o homem pode” (o que não deixa de ser verdade). O problema é que quando se parte de ideias tão puritanas para ideias tão inovadoras, há um conflito interpretativo, levando as mulheres a desconsiderar o fato de que assim como nós os homens também são deseducados desde meninos, que crescem sob os mesmos velhos conceitos machistas, que os fazem assimilar suas libidos a algo quase animal, numa busca infundada e errônea de auto afirmação heterossexual, que lhes habituam a fazer sexo considerando o prazer antes de reais encantamentos, desejos e expectativas, muitas vezes tratando e reduzindo as mulheres a um corpo, sem cérebro, sentimentos e intelecto ou a um ser submisso. E é na tentativa frustrada de alcançar a igualdade, que muitas mulheres passam a fazer o que muitos homens fazem desmedidamente, friamente e com quase ou nenhum apego, e com isso, a maior forma de comunicação do mundo (o sexo), comunica errado, tornando habitual desconsiderar que nossos impulsos não nos torna irracionais, e sim ainda mais humanos.
Além de todos os percalços que já enfrentamos diariamente e cotidianamente nos relacionamentos, na vida social, no mercado de trabalho e até mesmo intimamente, a mídia apelativa e oportunista ainda aproveita-se da ideia (mais machista do que real) do desejo voraz, ilimitado e até poligâmico de homens desde cedo deseducados para serem “muito homens”, e passa a transmitir imagens de bundas e seios, erotizando seminudez e nudez supostamente femininas, de celebridades instantâneas que denegrem cada vez mais a real imagem das mulheres e nos vitimiza a um padrão de beleza escandaloso e apelativo, nos tornando reféns do reflexo de um intelecto reduzido, aparentando da mais degradante e superficial forma possível, a ideia de liberdade feminina e dificultando a nossa conquista de sermos enfim verdadeiramente valorizadas.
E entre um discurso e outro, entre os resquícios de um passado de prisão, de um presente de liberdade fantasiosa e desmedida, e da esperança de um futuro de igualdade, ficamos nós, mulheres, perdidas entre o que dizem nossos pais e entre o que vemos na TV, entre as nossas sensações físicas e emocionais e o que nos dizem que é imoral e impróprio, entre a nossa condição humana e as nossas referencias extremas e depreciativas. A questão torna-se ainda mais degradante, quando os dois ideais expressivos de mulher querida e desejada pelos homens são o da submissa, caricata e machista Amélia (aquela que dizem, era mulher de verdade) ou da também (não enganem-se com as aparências), submissa, caricata e machista Sex symbol (aquela que dizem, é a mulher de verdade).
Com isso, ainda que desejosas de que sermos nós e inteiramente, seja o melhor que podemos fazer por nós mesmas, somos afetadas e influenciadas pela sociedade, pela mídia e pelas ideias cristãs, o que torna mais difícil exercermos o papel de seres sociais participativos, conscientes dos nossos alcances emocionais e livres de qualquer expectativa de uma virgem Maria, a nos simular assexuadas e a nos indispor a uma santidade que não nos cabe enquanto humanas.
E mesclando as minhas palavras com as da cantora e compositora Rita Lee, na música Pagu, que revelo que sou feminista sim, por tudo o que já foi conquistado, por tudo o que é considerado equivocadamente conquista, por tudo o que ainda necessitamos conquistar, e principalmente “porque nem toda feiticeira é corcunda”, porque “nem toda brasileira é bunda”, porque “o meu peito não é de silicone”, e porque embora heterossexual, feminina, frágil e sensível, ainda consigo ser “mais macho que muito homem”. Tiara Sousa

sábado, 23 de novembro de 2013

SINTO TANTO

Saí do útero, não sou mais um feto, foi covarde ter retornado pra lá depois de todos esses anos. Quando fui gerada desconhecia tudo, agora é estranho, porque já sei que o mundo é um lugar bonito, mas um lugar bonito nunca é só bonito, nunca é só um lugar, e isso ainda me assusta.
Eu amadureci, meus sentimentos não. Quando sinto sou um recém nascido, sem nenhuma bagagem, exposto a coisas novas, tudo é novo, até o que não é mais. No útero é escuro, e estreito, e pequeno, mas aqui eu sinto tanto, que estar lá parecia mais confortável do que existir no meu próprio corpo, com centímetros vulgares entre o meu coração e a minha boca, eu sinto tanto, que na maioria das vezes esses centímetros desaparecem, e tudo o que eu aprendi desaparece junto.
Sentir é se desconhecer nos próprios hábitos, e olha que sentir pra mim é tão habitual quanto comprar vestidos novos e discos antigos, é mais solitário do que reler os romances de Albert Camus na companhia das lembranças míticas da menina que fui um dia, e que volto a ser todas as vezes que deixo de controlar as minhas emoções, e todas às vezes são vezes demais.
Estou cansada de infringir a minha saúde mental em interseções de tudo, ou de instintivamente tudo, ou de estrategicamente tudo, ou de loucamente tudo, ou de tudo ou nada. Eu necessito tanto de um meio termo, mas o meio termo não arrepia o meu corpo, não acelera os meus batimentos cardíacos, não me causa oscilações de humor, o meio termo é só mais uma das minhas fantasias criativas que não diminuem em nada os meus temores infantis, as minhas expectativas adolescentes, as minhas sensações adultas.
Eu sei bem o que não devo querer, já vivi o suficiente pra saber muito bem o que definitivamente não devo querer, não sou Hamlet nem quando leio Hamlet, comigo não cola essa história de “Ser ou não ser”, essa nunca foi a minha questão. O problema, o grande, infinito, estúpido, incomodo e desconfortável problema é que eu sinto e volto a ser a menina que é beijada pela primeira vez, a garota que é amada pela primeira vez, a mulher que é magoada pela droga da primeira vez, talvez Hamlet não fosse tão complexo se soubesse que pra mim o mais difícil é “Ser”, que essa é a minha questão.
É que ser é existir, e existir é sentir, e sentir é sonhar de corpo aberto, de queixo caído, de coração escancarado e de olhos fechados. Sentir é o mais satisfatório dos orgasmos passeando de mãos dadas com o mais aterrorizante dos pesadelos, é romântico e instável; Sentir é o que há de mais humano no ego agindo desumanamente com o ego, é o ego na favela comendo restos, bebendo lama, cuspindo sangue e simulando dignidade, é humano ao quadrado, é desumano ao cubo, é divisível, porém sempre inexato.
Eu sinto, mas não me conformo, e o inconformismo é um quadro expressionista pintado por um artista plástico contemporâneo, é oco. E eu não me conformo com esse desconforto adolescente que é sentir, mas de que adianta todo esse meu inconformismo quando tudo o que me incomoda, me estraçalha, me invade e me enlouquece me faz sentir tão viva a ponto de sorrir sem precisar simular nada, a ponto de chorar sem precisar de histórias, que não as minhas?
Sinto tanto, que as minhas próprias possibilidades emocionais me assombram, a ponto de eu cultivar a ilusão de que ser um ser humano menos humano seria mais humano comigo, mas não seria, pois é quando eu sinto tanto que eu me sinto viva, pois é quando eu sou um recém nascido sem nenhuma bagagem, exposto a coisas novas, onde tudo é novo, mesmo o que não é mais, que eu sou o melhor que posso ser. Tiara Sousa

sábado, 16 de novembro de 2013

NEGRA – O Conto de fadas que ninguém contou

- Eu nunca fui a princesa. - Nunca trajei os vestidos glamorosos e cheios de brilho. - Meu príncipe nunca chegou. - O final feliz nunca foi pra mim. - Nenhuma fada visitou o meu conto, porque ninguém o contou.
Entre tantos entretantos, cresci, sem participar dos contos de fadas da minha infância, sem me enxergar nas mocinhas das novelas, sem arrasar os corações nos bailes dos filmes que me faziam delirar. Cresci, no equivoco de não povoar a imaginação de ninguém, nem a minha. Eu só me enxergava nas mulheres seminuas nos desfiles das escolas de samba, nas jogadoras de futebol e de basquete e em manifestações artísticas, populares e culturais, que mesmo com extrema importância e beleza, não deveriam ser as minhas únicas melhores opções, mas o mundo afirmava que eram, porque o mundo também cresceu e crescia sem me ver nas histórias das suas infâncias, e nem da minha.
Entre tantos entretantos, cresci, sem nunca protagonizar as histórias dos autores renomados, ou sendo no mínimo a que enxugava o chão da sala e esquentava a barriga no fogão e no máximo tratada como categoria alegórica e superficial, ou na melhor das hipóteses sendo um artigo de resgate cultural ou um signo de esclarecimento histórico-social. Eu estava por todos os lados, nas ruas, nas praças, nas praias, nas escolas, nos lazeres, nos empregos, portanto não haviam possibilidades reais de eu não povoar todos os lados da imaginação dos autores, eu apenas permanecia arraigada a um universo subterrâneo  de exclusão, e nunca coloria as ilustrações e as imagens, e nunca preenchia as linhas e as falas, mas existia, inspirava, acomodava e incomodava tanto quanto as outras, as que se tornavam publicações e exibições e que invadiam as fantasias do mundo.
Embasada pelo que li, vi e vivi, mas sobretudo pelo que não pude ler, nem ver, nem viver, desmascarei os interesses e a estupidez de manter as sociedades na ignorância, e compreendi que as histórias que tanto contavam, e que não me incluíam, alienavam mais do que instruíam, furtavam mais do que entrertiam, figuravam mais do que protagonizavam, eram ilusões comedidas e medidas, e que no fundo, eu, que tanto as quis, nunca as realmente precisei.
Nos contos que não pude ler, nas coisas que não pude assistir, aqueles em que todos, de todos os modos, e preferências, e gêneros, e condições, e classes, e cores, e faces, e corpos, e lugares, e alma, e sedes, e fomes, e etnias povoam, percebi que era meu direito ser tudo o que desejasse, fazer parte de todas as histórias, então, não desfilei seminua em escolas de samba, nem joguei futebol ou basquete, nada escrachadamente contra, apenas nunca foi o que eu queria, e eu não o faria apenas pra ser maquiagem pra estatística sugestiva que impulsiona um povo aos pedaços pra uma ignorância inteira, elevada a desumanidades, intolerâncias, preconceitos e interesses, e que afirmavam que essas eram as minhas únicas melhores opções.
E evidenciando todo o meu respeito e apreço a todas as etnias, pois embora orgulhosamente e predominantemente Negra, sou antes de tudo, miscigenada, parte de um povo, de uma cultura e de uma família miscigenados, é que hoje mando, por tudo que me foi aos tantos furtado e aos poucos revelado, a Cinderela para o Espaço, a Rapunzel á merda, a Bela Adormecida pra puta que pariu, a Pequena Sereia ir tomar naquele lugar e a Branca de Neve ir se foder, porque entre inúmeros, difíceis, pesados, dolorosos, injustos, tantos entretantos, eu sempre fui a princesa, o final feliz sempre foi pra mim, eu sempre trajei os vestidos glamorosos e cheios de brilho, o meu príncipe chega, e todas as fadas me visitam, e eu só levei um tempo pra descobrir isso, porque ninguém, absolutamente ninguém contou. Tiara Sousa


sábado, 9 de novembro de 2013

UM FALSO GOSTO POR SOLIDÃO ou PORQUE PREFIRO FICAR EM CASA NUM SÁBADO Á NOITE

Eu sempre falo que gosto de solidão, é tudo mentira, é que eu não gosto da mediocridade de um espaço cheio de pessoas vazias, e às vezes estou extremamente vazia, a ponto de me achar boa demais pra contar estrelas acompanhada.
Porque prefiro ficar em casa num sábado à noite, enquanto as pessoas da minha idade saem para as baladas, para os bares, para as festas, eu penso que tenho um mundo particular, que vivo numa constante ilusão, alimentando a minha fantasia em meio a livros, filmes, discos, internet e TV, e que um dia posso me arrepender de não estar fazendo coisas fúteis com gente mais ou menos interessante. Então, finalmente é sábado á noite, e eu desolada pela ideia de estar deixando a vida passar, me arrumo, ponho o que a geração anos 80 chama de uma roupa descolada, numa tentativa esperançosa de quando sair fazer coisas não fúteis com gente de fato interessante.
A noite começa com uma Coca-Cola, uma garrafa de água, dois cigarros mentolados, duas tentativas de amizade com conhecidas de amigas, de amigas minhas, que em minutos de conversa só sabem falar de como tal cara é gatinho, de como o outro é galinha, de como o som é dez, sendo que ele é no máximo sete, enfim... eu ando meio sem saco pra ser normal, então acho tudo um saco, e achar tudo um saco é ser cem vezes mais triste do que o resto do mundo, além de impedir o inicio natural de amizades.
Mas a noite só está começando, eu ainda irei dançar oito vezes com quatro rapazes diferentes. O primeiro desiste logo na primeira dança, porque tem baixa autoestima e quando percebe que eu não bebo, logo conclui ser mínima a chance de acontecer sexo no fim da noite, e como isso é tudo o que ele quer, distancia-se de mim com mais de mil; O segundo é encantador para os meus padrões, tem uma cara de tonto e um jeito boêmio, vamos dançar algumas vezes e começar a conversar, e ele vai perceber que eu sou mais inteligente do que ele, e isso vai incomodá-lo, então vai passar uma mulher com dez centímetros a mais de bunda do que eu, e com quarenta por cento do quociente de inteligência inferior ao meu, e ele literalmente vai correr atrás dela; O terceiro, que nem me considera assim tão bonita e atraente, ao perceber que dois já dançaram comigo e que não aconteceu nada, supõe que eu seja difícil, e por se achar demais vai querer mostrar a si mesmo que consegue, mas eu tenho meus momentos de futilidade, então mesmo percebendo a situação, vou aceitar dançar com ele, por que ele é lindo para todos os padrões, só que ele se acha demais, ele se acha tanto, mas tanto, que ele não me deixa falar, que ele acha que eu tenho a obrigação de escutar todas as bobagens que ele diz e ainda ficar louca por ele, mas eu já deixei de ter dezessete anos há um bom tempo, e o meu momento fútil tem limite, então eu direi que vou ao banheiro e fugirei do cara mais gato da balada, com a convicção de que ele também é o mais idiota; O quarto é aquele que aparece no fim da noite, enquanto ele se aproxima, penso que ele não me acha nada demais, porque senão teria me convidado pra dançar antes, mas já que ele não ficou com ninguém, e observou que eu não fiquei com ninguém, ele me convida pra dançar, como eu sou educada e numa hora dessas a minha amiga muito menos seletiva, e menos chata, e menos romântica, e menos sensível já vai ter me deixado sozinha e vai estar beijando um cara há horas, vou dançar com ele, e ele até que é fofo, e tem um bom papo, e uma boa aparência, e é até meio inseguro, o que significa que eu posso estar enganada e ele pode não ter se aproximado antes por não saber como, e aí, talvez nos beijemos, e talvez troquemos contatos, e muito provavelmente ele tente transar comigo na mesma noite, mas tudo bem, afinal ele é hetero, jovem e tem hormônios, começa a ficar tudo mal quando ele insisti exaustivamente, como se a minha recusa fosse eu fazendo o tipo mocinha, ou como se eu apenas tentasse prolongar uma situação, e ao perceber que dentro do seu mundo rápido não cabem as minhas ilusões, e que dentro do meu mundo lento não cabem noites sem sentido que não sejam sentimentais, eu vou sair da balada sozinha, sem novos amores, sem novas promessas, sem novos amigos, e vou achar um desperdício de tempo ter saído de casa. Não que eu não tivesse me divertido nem um pouco, mas é que me divertiria muito mais no meu mundo particular.
E antevendo tudo isso, sei que se eu for, eu vou chegar em casa meio que completamente deprimida,  não só por ter passado a noite fazendo coisas fúteis com gente mais ou menos interessante, mas principalmente por saber que no exato momento em que entrar em casa, terei a percepção exata de que é demasiadamente difícil conhecer pessoas realmente interessantes nesses horários e lugares, porque assim como eu, elas devem preferir ficar em casa num sábado á noite, numa constante ilusão, alimentando a fantasia em meio a livros, filmes, discos, internet e TV, porque assim como eu, muitas vezes elas devem pensar que  um dia podem se arrepender de não estar fazendo coisas fúteis com gente mais ou menos interessante, porque assim como eu, muitas vezes elas devem ficar desoladas pela ideia de estar deixando a vida passar.
Então irei desistir de sair, me despirei do que a geração anos 80 chama de uma roupa descolada, vestirei a camisola, colocarei o óculos e aguardarei alguém me ligar pra perguntar porque mais uma vez eu irei preferir ficar em casa num sábado á noite, só para eu poder responder que é porque gosto de solidão, mas eu e muitos sabem, quem não sabe, fica sabendo agora, é tudo mentira, é que eu não gosto é da mediocridade de um espaço cheio de pessoas vazias, e às vezes estou extremamente vazia, a ponto de me achar boa demais pra contar estrelas acompanhada. Tiara Sousa