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domingo, 4 de maio de 2014

NOSSOS AMORES

É inédito , ainda que pela vigésima ou trigésima vez, amar sempre é inédito. E todos os meus amigos tem chorado enquanto a vida passa...
Já vimos muitas paisagens, nosso céu já esteve de muitas cores, e quantos dias já nasceram enquanto nós morríamos. Vivemos muito e muito pouco pra chorar por amores que na realidade nunca foram nossos; Afinal, o que é mesmo o amor?
Esperamos por bons modos que nunca vieram, parece bobo esperar por bons modos num tempo em que flores murcham em plena Primavera. Eu quis chorar, e chorei, por que eu e todos que conheço estamos murchando com as flores. Cheguei a pensar que sempre dava pra fugir da realidade, mas não dava, não dá. E ultimamente tenho tido medo de tudo...
Observo a minha volta e a alegria se esvai, quis tanto que as coisas fossem simples que nunca mais sorri por motivos nobres, e só agora percebo, a gente nunca cresce, a gente morre desde o primeiro dia de vida, a gente morre...
Quero que sejamos felizes, mas ultimamente tenho achado todo mundo triste. Será que todos já sentiram as dores que senti, ou não poder mudar o mundo é que tem nos destruído?
Porque a gente acorda na melhor parte dos sonhos? Preciso de um quarto escuro em que tudo fique mais claro, tenho mesmo sentido a minha falta, a falta de quem eu era quando esperava tudo da vida...
Um rapaz se ajoelhou pra minha amiga e a pediu em namoro, dois dias depois não era mais nada disso, daquilo, será que ninguém mais sabe o que quer, ou os sentimentos é que são de vidro e ao mínimo descuido podem se quebrar. Na semana passada eu quis o fim de uma história porque fora da minha imaginação ela não era como eu sonhava, semana que vem já não sei, mas talvez isso explique porque sonhar fica cada vez mais difícil.
Uma outra amiga ama alguém que nunca está perto e que há tempos já deixou ser íntimo dela, será que ela faz ideia de que a pessoa que ama pode nem mais existir, já que o tempo transforma tanto as pessoas, e eu nem sei mais se eu choro pela minha tristeza ou pela tristeza dos outros, uma dor inteira nunca passa, fica.
Um dia Cazuza disse que seus “heróis morreram de overdose”, eu e meus amigos estamos morrendo de amores não amáveis, não reais, nem mesmo próximos, justos, dignos e explicáveis, amores inventados, idealizados, poluídos. Tem gente por aí dizendo que devemos ficar com alguém que nos mereça, gostar de quem gosta da gente, que relacionamento é bem mais do que ótimas transas e caminhar de mãos dadas, acho tudo isso lindo, mas foda-se, na prática é tudo balela, no mundo em que sobrevivemos amar é uma consciência tola, não se descreve um amor, nem se obriga, nem se pede, nem se simula, nem se expulsa, acho que ultimamente amor tem sido tudo aquilo que sentimos falta de sentir a ponto de inventar que sentimos, e só por isso chorei...
E essa é a minha geração, casamentos acabam, garotas traem, paixões duram dias, príncipes se tornam babacas, a distancia e a falta de intimidade encantam mais que a proximidade, e a cada dia que passa temos mais medo de transformar nossa ilusão em realidade e descobrir que há séculos o amor é apenas mitológico, que sobrou apenas um monte de gente tentando amar fantasias.
Mas tudo bem, temos sobrevivido, às vezes penso em mim e em meus amigos, talvez nossos amores na realidade somos nós, que amamos somente pessoas idealizadas, por que somos muito egoístas, sonhadores e vaidosos pra amar pessoas reais, com defeitos e manias e convencimentos e calos e enganos e tédio e chatices e acnes e problemas e dores e solidão e frieira e mau humor, e ainda queremos ser amados como somos, nunca vi nada mais incoerente...
Buscamos nos outros qualidades sobre-humanas, que nem nós temos. Devíamos mesmo aceitar os desencantos como aceitamos os encantos, devíamos mesmo abdicar das nossas inalcançáveis expectativas, mas sabemos tanto, que não sabemos amar nem ser amados. O amor seja lá o que for, como for, onde for, com quem for, deve mesmo ser generoso. Ah se aceitássemos todos como aceitamos os amigos, mas acho que ainda não sabemos, que ainda não sei, e eu queria tanto saber...
E só por isso é inédito amar, ainda que pela vigésima ou trigésima vez, amar sempre é inédito, e por tanto, por egoísmo, por incapacidade, por medo, por vaidade, nossos amores somos nós... Somente nós. Tiara Sousa

sábado, 12 de abril de 2014

CRUA

Eu me perguntei o que iria fazer quando eu acordasse e não fosse mais nada disso, disso de louco, disso de vício, disso que vai enquanto fica e fica muito, o que iria fazer quando eu virasse do lado da cama em que você deveria estar e que não estava. Eu perguntei pra mim, em pensamento, mas o seu velho e incomodo talento de decifrar cada olhar e gesto e meias palavras ainda estava lá, então você respondeu: _Você vai chorar talvez, lembrar, se martirizar pensando no que deveria e poderia ter feito de diferente e não fez, talvez queira ser outra pessoa, talvez vá atrás de mim, ou então seja só previsível e faça tudo isso e depois dê pro primeiro idiota que aparecer.
Então um dia aconteceu, eu acordei e não era mais nada daquilo e você não estava mais lá e eu fui só previsível, droga, mais uma vez você tinha razão. Porque você sempre tinha razão, se quando eu te olhava eu perdia toda a minha? Isso era muito injusto.
Você sumiu umas duas semanas e então voltou, me agarrou e me beijou com a propriedade de sempre, daí falou: _ Eu não gosto do seu beijo, eu gosto é da sua culpa, é da sua crueldade de me querer só pra você, do seu beijo não, eu quero é o teu sofrimento, quero que a tua menstruação dure trinta dias e que todos eles sejam de muita cólica. Você sabia que eu tinha ficado com outros caras, não por ter visto, ou por terem te falado, mas somente porque sabia de tudo sempre, e porque até a minha saliva me denunciava, é claro que eu não iria saber lhe dar com a tua ausência sozinha.
Talvez você troque as minhas lâmpadas e recolha o meu lixo, tanto faz, talvez você se mande outra vez, talvez. Tudo o que eu tenho de moderna é démodé pra você e eu espero que você se foda por isso. Um dia eu me canso disso tudo, vendo o guarda roupas, a TV de plasma, teus livros de sociólogos famosos, toda a tua coleção de filmes de arte e o teu Gol velho na minha garagem, fico só com aquela camisa do Fluminense que você usou naquele jogo que ganharam de 3 X 1 e que você ficou tão feliz que disse que eu te trazia sorte.
Ás vezes me aproveito do fato de você ser competitivo e te desafio dizendo: _Vem, chega mais perto, duvido você me amar como ama aquele tênis velho com molas na sola, duvido você duvidar do que eu sinto estando dentro de mim, duvido você ser fiel enquanto eu te traio com a minha solidão. E ás vezes você cai nos meus desafios, mas nunca dura pra sempre, nunca.
Não, eu não gosto de você porque você é bonito, porque tem olhos verdes e cabelos crespos, eu gosto de você porque eu sou fútil demais pra gostar de alguém que me merece. Hoje eu só quero um vinho caro, uma casa grande, uma conta cheia, calmantes e você por perto, só pra não deixar tudo isso pra trás e ir atrás de você, com a certeza de que já vai estar ciente da minha chegada, porque você sabe de tudo sempre, e isso é injusto.
Quando eu te conheci naquela festa boba de gente tola, em que juro, não esperava encontrar ninguém que me encantasse, mas eu te encontrei, então, lembra, logo depois do nosso primeiro beijo, falei: _ Já entreguei tudo pra antigos amores, minha doçura, minha inconstância, minha poesia, meus pensamentos, meus sonhos, meu hímen, agora pode vir, seremos somente eu e você. Mas não foi nada disso, eu te entreguei tudo de novo, mesmo o que eu já não tinha.
Ás vezes tudo o que eu preciso é não precisar de você, então eu ensaio te dizer certas verdades, dizer que você se acha muito, que enquanto tudo for mentira, você nunca será digno do amor de ninguém, mas nunca digo, pois amo gente que se acha, porque gente que se acha tá se lixando pro resto do mundo e porque eu tenho mais medo de te perder do que de ser infeliz. Tanta propaganda no mundo e você só diz que me ama pra se sentir melhor, isso é cruel comigo, mas admito, é inteligente da sua parte, mas se quer saber, vá a merda você e seu intelecto, eu quero querer é emoção, e que vá a merda eu e o meu intelecto também, porque quando a minha nudez não te inspirar mais, o meu cérebro é que não vai te seduzir.
Mas acredite, eu já vi coisas demais pra crer que vai ser sempre assim, quando passar eu vou transar com você só pra sentir nada, ninguém nem nada que venha depois vai me tirar esse prazer. Mas enquanto não passa quero que saiba que se você morresse amanhã eu morreria depois de amanhã, mas acho que você já sabe, você sabe de tudo sempre, e isso é injusto, isso é muito injusto, isso me mata. Tiara Sousa

domingo, 23 de março de 2014

ASSUNTOS RELEVANTES ou SALVE O EGOÍSMO NOSSO DE CADA DIA!

Um rapaz que conheço superficialmente disse na minha cara que escrevo bem, mas que deveria aproveitar meu talento para escrever mais sobre coisas relevantes, eu o indaguei sobre o que para ele é relevante, ele citou politica, problemas sociais, pré-conceitos, cultura de massa, mídia, e disse mais uma vez na minha cara que eu gasto muita palavra bonita pra falar sobre coisas irrelevantes e consequentemente desimportantes.
O ocorrido me fez lembrar que outro dia alguém que conheço bem mais que superficialmente me disse que se contentaria com um resto de amor, achei aquilo tão triste e tão bonito, em parte porque sempre considerei as maiores belezas, tristes, em outra porque um resto de amor é tudo que posso oferecer a mim nas noites em que mesmo ciente da previsão do tempo que diz que não vai chover, debruço na janela e espero pela chuva, como quem perdeu um membro e aguarda a sua volta mesmo sabendo que ele não voltará. Acendo um cigarro, cada vez que ponho as cinzas no meu cinzeiro de concha, penso que quando eu parar de fumar vou poder sentir o gosto da minha boca e enfim constatar que o amargo dos beijos sem verdade nunca saíram de lá, talvez seja por isso que nunca deixei de fumar, só pra não lembrar e só pra não deixar de lembrar que um dia eu já acreditei nas coisas boas. Termino o cigarro, deixo a janela entreaberta, viro e de todos os vestidos com os quais me deparo, o que me chama atenção é exatamente aquele que não consigo doar nem jogar fora, que não consigo usar nem achar bonito como um dia já achei... Será que isso que é não superar, será que isso que é superar? Me perco até onde os meus olhos  alcançam e me odeio por isso, porque me faz sentir limitada.
Quanto ao rapaz, o olhei admirando a sua coragem (confesso), sorri de lado prevendo a minha coragem (confesso), e disse: - Não faço por mal ou por ignorância, perdoe se é o que parece, é que a maioria das vezes eu acho mesmo que o meu cinzeiro cheio de pontas de cigarro, ou a minha descrença nas coisas boas, ou a janela entreaberta no meu quarto, ou o vestido velho que não consigo doar nem jogar fora são mais relevantes do que a economia, as estatísticas e a corrupção. Ele se calou, pareceu pensar sobre o que eu disse, não sei ao certo, minutos depois retrucou com um ar vitorioso: - É. Mas isso é um tanto egoísta. Eu então disse, com um ar ainda mais vitorioso: - É, isso é um tanto egoísta, talvez por isso se identifiquem com o que escrevo, porque a tristeza, a depressão, o inconformismo, o sentimento de rejeição, a sensação de não se encaixar, os corações partidos, são egoístas, todos doem como se suas dores fossem as maiores, e se afundam como se os buracos fossem os mais sombrios, ninguém que esteja se sentindo miserável sofre mais com a miséria dos outros por ser mais significante, nem você meu caro, a diferença é que eu publico meu egoísmo todas as semanas e você não. Depois do que falei, fiquei esperando uma grande resposta daquele rapaz que não falava mentiras nem verdades absolutas e apenas manifestava a sua opinião, que cá entre nós, não era de toda a incoerência, mas ele me olhou com um ar de admiração e rejeição (sim ele conseguiu unir esses dois extremos num só olhar), e disse com firmeza: - Você é maluca! Depois de falar isso, ele esboçou uma expressão de dúvida, como se não soubesse se esperava por um tapa bem dado ou por um beijo romântico, mas eu apenas falei com um desdém de doer na alma (na dele): - Sou parte maluca, parte alguma coisa que o censo comum nunca vai aceitar e compreender, e você é parte do censo comum. Depois virei e saí, me sentindo muito mais importante do que realmente sou.
Confesso que viro de um lado para o outro na cama, que me refugio entre a dor que invento pra entreter meus dias comuns e meus sentimentos pouco confortáveis. É que do lado esquerdo da cama tudo é viral, do lado direito tudo parece errado, e há um bom tempo que eu não me completo. Às vezes ando descalça só pra sentir as sobras de outros tempos no chão gelado, as sobras de outras experiências nos pés expostos, quem sabe um pouco sobre mim, sabe demais, e a sabedoria pode ornamentar jardins e pode sepultar levezas, já sepultei todas as minhas. E não venham me dizer que isso é irrelevante, aquele rapaz pode até não admitir e me chamar de maluca, mas o fato de ter gente morrendo de fome não nos faz morrer menos de amores. Salve o egoísmo nosso de cada dia! Aquele que não prejudica ninguém além de nós mesmos, aquele que nos dá a impressão de que ficar triste só é infinito se for dentro do nosso peito, aquele que joga na latrina nossa esperança e que arde no corpo inteiro sem sequer sair da mente. Assinado egoistamente, a parte maluca, parte incompreensível ao senso comum... Tiara Sousa

domingo, 16 de março de 2014

PARA ENTENDÊ-LO...

Direitos da imagem: Gaveta Virtual
Há dias que não amanhece, que eu passeio de lingerie pelo quarto vazio de olhares sedentos, sem línguas buscando a minha alma através do meu gosto. Danço tango sob a minha tristeza, antes eu vagava por olhares que sangravam a fome do mundo e cujo sangue escorria no meu corpo, agora abdico da fome e da sede com fome e sede, e me sinto vulgar por sempre ter pensado que todos os sentimentos líricos eram marginais...
Para entendê-lo é necessário vagar pelo impreciso com precisão, e admitir ser cobiçada com alma e sem maldade, com maldade e sem alma, é necessário pluralizar os mistérios do agora com os do antes e com os do depois e com os do talvez... E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário calma e fé, verão e inverno, céu e inferno, tudo na mesma medida, é necessário cegar o mundo e exorcizar crueldades humanamente desumanas, é necessário tragar um vinho santo, borrar as últimas margens, delirar entre os versos menos completos e mais profundos... E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário chorar na solidão e pela solidão, ouvir Mozart lendo quadrinhos, é necessário uma paz distinta e uma guerra velada, e acender velas para que os santos em que não creio, creiam em mim, em você, em nós...  E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário trechos de canções, leitura facial, leitura corporal, é necessário que todo abraço acolha como o primeiro e despedace como o último, é necessário virar de um lado para o outro na cama e nunca dormir... E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário aparecer na multidão sem nunca ser ou fazer parte dela, é necessário não se encaixar nos hábitos comuns e ser realista de olhos fechados, e ser sonhadora de olhos abertos... E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário arder com doçura, caminhar sobre as águas, suspirar entre o fogo e gemer no marasmo, é necessário ser companhia sem ser objeto, ser dama sem ser passiva... E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário doer com boas maneiras, e eu não sei doer assim, é necessário cortejar o fundo poço, e eu sempre o temi...  E eu preciso entender ainda que doa e torture, ainda que afague e acalme, ainda que massacre, ainda que termine... Porque eu não sei não entender... E agora... também não sei mais o que fazer com o que não entendo...
Te idealizei, não imaginei o adverso, nunca me dei a esse luxo... e só por isso há dias que não amanhece, que eu passeio de lingerie pelo quarto vazio de olhares sedentos, sem línguas buscando a minha alma através do meu gosto... Tiara Sousa

domingo, 2 de março de 2014

“QUEIXO-ME AS ROSAS”... É CARNAVAL!

“Queixo-me as rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti”
(As rosas não falam – Cartola)
Penso que as alegrias são de vidro, que ao mínimo descuido podem se quebrar.  Acho bonita a alegria das pessoas, acho bonita a alegria e acho bonitas as pessoas... Pelos caminhos serpentinas e pecados anunciam o período em que o povo se permite anestesiar das dores e dos conceitos, da moral e dos bons costumes, da obrigação e da sanidade... É carnaval!
Mas enquanto isso, eu... “queixo-me as rosas”...
Lá fora tudo acontece, as boas moças deixam a castidade em casa, os paraísos são reinventados, e isso é tão livre! O Brasil parou, está tudo colorido à espera da próxima música, do próximo bloco, da próxima escola de samba, do próximo samba, dos tantos quase e efêmeros amores... É carnaval!
Mas enquanto isso, eu... “Queixo-me as rosas”...
Lá fora tudo acontece, foliões trajam suas fantasias e as máscaras escondem todas as tristezas, e isso é tão bonito! As paixões mais avassaladoras duram minutos, é menos que uma cena de filme, menos que um capítulo de novela, é tão ilusório que chega a arder como a realidade, é tão real que chega entorpecer como a ilusão... É carnaval!
Mas enquanto isso, eu... “Queixo-me as rosas”...
Eis o maior protesto do mundo, em que todos saem de casa só e simplesmente para sorrir sem culpa, sem pudor, sem medo; um país protestando contra a tristeza dos fatos, contra os fatos, contra a tantas vezes massacrante realidade, contra a realidade, é uma alegria sem pressa, sem sentido, uma alegria crua, despida de qualquer consciência... É carnaval!
Mas enquanto isso, eu... “Queixo-me as rosas”...
Eis o mais completo espetáculo teatral da história, a deixar os rituais dionisíacos no chinelo. Ontem já esqueceram, amanhã ainda não sabem, mas hoje, hoje os corações são prostíbulos, sem casa, sem aliança, sem tempo, sem contratempo, hoje ama-se o agora e não lamenta-se o fim dos sambas. Toda gente e ruas e blocos e músicas, não há julgamento, não há intenção... É carnaval!
Mas enquanto isso, eu... “Queixo-me as rosas”...
Não, não por meu coração ter estado meio verde, meio rosa como sempre esteve o de Cartola;
Não por ter tanta gente, tantas ruas, tantos blocos, tantas músicas;
Nem mesmo por nos caminhos haver tantas serpentinas e pecados;
Mas apenas por pensar que as alegrias são de vidro e que ao mínimo descuido podem se quebrar, mas apenas por achar bonita a alegria das pessoas, e por achar bonita a alegria e por achar bonitas as pessoas...  Só por isso eu... “Queixo-me as rosas” enquanto é carnaval! Tiara Sousa

sábado, 22 de fevereiro de 2014

DIVÃ

São 7:00 da manhã, a entrevista pra vaga de colunista é ás 8:30, ainda não tomei banho, ainda não me vesti, droga, ainda nem escovei os dentes. São 8:30 em ponto, ainda bem que não me atrasei (eu sempre me atraso), deve ser um bom sinal. Uma secretária impecavelmente vestida me recebe e me direciona até uma sala onde há um homem de uns 40 anos, ele está sentado, tem um sorriso simpático, está bem vestido com uma calça jeans e uma camisa de manga comprida rosa clara(tem coisa mais máscula que homem de cor-de-rosa!), meu futuro chefe, creio, costumo ser otimista. Ele está com um papel nas mãos (suponho ser o meu currículo) e me olha da cabeça aos pés com um ar de julgamento, droga, deveria ter me vestido mais adequadamente, mas na pressa acabei optando por jeans e camiseta, o meu cabelo tá uma farofa e nem o coque improvisado disfarçou isso, ah mas dane-se, agora é tarde. Eu lhe desejo Bom dia, ele educadamente deseja de volta, diz que se chama Eduardo e que tudo de prático que deveria saber sobre mim está no meu currículo, mas que o mais importante nesse emprego é saber cativar as pessoas, então me pergunta se sabendo disso eu ainda acho que estou apta a ocupar a vaga. Por essa eu não esperava, achava que ele iria pedir para eu escrever alguma coisa, discordo de tudo o que ele diz, afinal a coluna tem que ser cativante, eu não, mas acabo não dizendo nada disso e afirmando que sim, que estou apta. Ele então pergunta porque eu sou uma pessoa cativante, e eu fico muda, droga, não sou cativante, nada perto disso, na realidade eu sou um saco, sei que preciso de uma resposta rápida, mas emudeço. Cinco minutos depois, ele pede que eu me acalme e seja absolutamente sincera (putz, ninguém deveria pedir isso a uma mulher com TPM), diz também que não tenho muito a perder já que ele está quase decidido a dar a vaga pra uma moça que entrevistou antes, e que dificilmente mudará de ideia. Então pede que eu faça de conta que estou num divã e responda afinal, o que faz de mim alguém cativante. Eu com a esperança perdida e o otimismo enfiado na minha unha encravada do dedão do pé esquerdo, o obedeço e confesso como num divã:
_ Sou uma sonhadora, meus desejos mais carnais são sentimentais, eu nunca me encaixo, sou a “pedra no meio do caminho” de Drummond, eu sempre aconteço. Tenho insônia, penso melhor de madrugada, então enquanto todos dormem, ou transam, ou bebem por aí, eu escrevo. Assisto filmes porque a vida me assusta, tenho fome de coisas que nunca serão noticia, de meios que nunca comunicam, de passos que eu nunca irei dar. Nem sei mais de onde vem os sorrisos, o gosto do mundo ainda está na minha boca. Para as pessoas comuns eu sou excêntrica, é que às vezes chove e eu corro pra chuva enquanto o resto do mundo corre da chuva, e ninguém sabe ler que ali eu me liberto, que aquela sou eu. Para as pessoas incomuns eu sou solitária, é que eu chego em casa e acendo um incenso, e acendo um cigarro e acendo a luz, mas enquanto houver dores no mundo, no fundo tudo ainda estará apagado. Sei que é arrogante e prepotente dizer isso, mas não me conformo com a minha condição de ser humano, pois sou uma das melhores pessoas que conheço e ainda assim eu sou péssima. Lugares cômodos sempre me incomodam, é desconfortante admitir isso, é desconfortante não admitir. Eu tento meditar, mas meditação requer concentração e eu crio muito expectativa quanto a tudo, a sala, a cozinha, os quartos, os banheiros, os móveis, os amores, os amigos, os estranhos, eu. Mas tudo bem, enquanto meninos e meninas ainda correrem por aí eu sobrevivo. Meu coração hoje é um poste aceso, o mesmo asfalto, casas com luzes de Natal e um morador solitário, amanhã já não sei...
Veja através do vidro da sua janela, aquela folha a balançar no alto daquela árvore naquela praça com o nome de algum reacionário cujo nome não recordo, aquela folha sou eu, verde, porém em luto.
Ele sorri e não sei exatamente porque aquele sorriso me soa uma afronta (talvez seja a TPM), então continuo:
_ Não, não divirta-se com isso, ou apesar disso. Eu nunca serei cativante, sempre acho que o sol é contra o sol, que ninguém mais tem nada a dizer, e só nos resta assistir aos noticiários e deixar de ter a esperança que nunca tivemos tendo.
Depois de ouvir toda a minha confissão, ele diz: _ Parabéns! Você está contratada.
E eu, ao invés de comemorar e sair dando pulos de alegria, pergunto por que, e ele confessa: _ Porque você me cativou!
Então sorrio timidamente e pergunto quando posso começar e ele responde: _ Você pode vir na segunda-feira Marina.
Merdaaaaaaaaaaaaaa, mas eu não sou Marina! Então acabo por descobrir que aquela entrevista é para uma vaga de Relações Públicas (finalmente compreendendo a importância em ser cativante), e que eu confundi o andar do prédio. Nós sorrimos, conversamos um pouco, eu agradeço, saio, vou para o andar certo, mas a vaga foi preenchida há 20 minutos.
Eu poderia lamentar, sair de lá puta da vida, mas nem me importo. Eu cativei um homem maduro, inteligente, educado e bem sucedido sendo absolutamente sincera, perdi a vaga, mas ganhei o dia. Foda-se essa coluninha démodé, eu sou cativante, posso conseguir coisa muito melhor. Tiara Sousa

domingo, 2 de fevereiro de 2014

BARULHOS DA CIDADE

Caminho pelas ruas... Caminhar nunca é reconhecido como uma experiência, a maior parte do tempo as pessoas caminham em busca de tudo, e tudo é quase sempre quase nada. Todos tem pressa, pressa de chegar ao trabalho, ao curso, a Universidade, ao encontro, ao lugar. A rua é sempre vista como uma passagem, um caminho, um meio. Mas a rua nem sempre é passageira. Por vezes eu não somente passo pelas ruas, deixo as ruas passarem... E enquanto elas passam o tempo é sempre o dobro do que é, e eu não espero que todos entendam isso, só alguns...
Às vezes o centro de uma cidade é toda a cidade, gente de todos os tipos, roupas de todos os modelos, sonhos de todos os tamanhos, às vezes não... Eu já conheci uma cidade inteira só de olhar o olhar de uma mulher sentada na calçada da sua casa simples num bairro do subúrbio, ou a maneira como as crianças correm atrás de uma bola num campinho qualquer, ou os sons dos vendedores ambulantes anunciando seus produtos nos centros comerciais, ou pelo modo que o rapaz de coração partido olhava pela janela do ônibus, ou pelo beijo apaixonado do casal adolescente na praça, que de tão atrevido e público e exibido, soava de uma inocência maior que a praça, maior que todas as praças.
Há uns meses atrás eu e uma amiga entramos num restaurante em Santiago no Chile e descobrimos que o garçom que nos atendeu, além de brasileiro, era maranhense, que assim como nós era de São Luís, ele conhecia os bairros em que morávamos e até tínhamos conhecidos em comum. A medida em que falávamos, ele, que creio já estava há um bom tempo vivendo por lá, acabou por não se conter de tanta emoção, e repetia freneticamente: “Que mundo pequeno! Que mundo pequeno!”, com as mãos para cima e nos olhando como se fossemos muito mais que duas estranhas, ali eu entendi que naquele momento éramos para ele nossa cidade inteira, e quem vai dizer que do topo da saudade que sentia do seu lugar de origem (tão diferente daquele em que estávamos), que aquele rapaz estava errado.
Caminho pelas ruas... A individualidade por muitas vezes é vista como algo ruim, eu gosto de individualidades, por momentos enxergá-las é poder levar nações pra casa, afinal, quem disse que toda filantropia é voluntária nunca flagrou as paisagens passando, os movimentos passando, as histórias passando, nunca transformou a rotina dos outros na sua eventualidade. O sol começa a se pôr, e a mulher trajando roupas finas, salto alto e bolsa de grife atravessa a Avenida em direção a garagem e nem percebe o espetáculo natural que a rodeia, a sua esquerda o sapateiro interrompe o trabalho para olhar para o céu, e eu deixo de olhar para o céu para olhar os olhos do sapateiro, porque eu poderei ver o sol se pôr muitas outras vezes, mas nunca mais numa quinta feira, num Janeiro, através dos olhos daquele sapateiro. Minutos depois a mulher vai embora no seu carro de luxo, lançamento da concessionária, recém comprado, o sapateiro volta ao seu trabalho, e eu sigo meu caminho, encharcada de comiseração, não pelo sapateiro, mas pela mulher, é dela que sinto dó.
E é sempre assim, todas essas ruas e avenidas e becos e gentes invadindo a minha imaginação, a minha consciência, os meus sentimentos, eu nunca as ignoro... Sempre me pergunto pelas pessoas que moram nesses lugares, pelos pés que ali pisaram, por quem construiu as casas, e por quem nunca encontra tempo de olhar em volta e para cima.
Há dias em que tudo me inspira, que todas as dores alheias tornam-se intimas, e eu sei que pareço lenta e distraída perto de toda pressa a ocupar os caminhos, e eu sei, muitos não compreendem. Não desejo a ninguém que como eu, possa conhecer cidades inteiras dentro de um olhar, pois imaginar assim é quase suportável, é quase descritível...
Não. Eu não espero que todos entendam isso, só alguns, alguns dos quais eu faço parte... Aqueles sempre mesmos alguns que enxergam o poema do asfalto, das tinturas gastas, dos telhados velhos, dos portões automáticos, das pessoas conversando, da natureza se exibindo, dos barulhos da cidade...
Caminho pelas ruas... E enquanto caminho, elas caminham por mim... Tiara Sousa

sábado, 18 de janeiro de 2014

COMO SE EU PENSASSE ALTO ou NUM BARZINHO

Era umas 22h40, eu estava num desses barzinhos charmosos, no lado “nobre” da cidade, numa mesa com cinco pessoas, seis a contar comigo, duas eu conhecia bem, são minhas amigas, as outras três (dois homens e uma mulher), eram conhecidos de uma delas. O garçom se aproximou, o pessoal tinha pedido mais uma cerveja, eu aproveitei pra pedir um suco de laranja, eu queria uma Coca-Cola, mas fui falar e acabou saindo a palavra suco, uma das minhas amigas perguntou se tinha drink sem álcool, o garçom disse que sim e falou um nome lá, ela acabou pedindo uma coca, não sei porque isso fez eu me sentir uma idiota.
Um dos caras na mesa, uns vinte e nove anos, Marcos é o nome dele, bonito e comum como todos os caras ali, começou a falar de música, disse que gostava de MPB, mas amava rock, e não sei porque ele passou ainda uns 10 minutos falando sobre isso, e eu não ouvia mais nada. Inclinei a cabeça para a esquerda e havia um casal numa mesa, achei que deviam estar juntos há pouco tempo, deviam ter menos de vinte anos, deviam estar apaixonados, imaginei que aquele chopp naquele barzinho era pra eles um jantar a luz de velas, pois o que faz um jantar a luz de velas ser romântico não são as velas, nem a comida, nem o lugar, é o sentimento. Eu já jantei a luz de velas, sem velas, sem jantar, sem lugar...
Do pouco que ouvi da conversa que acontecia na minha mesa, percebi que a mulher ao lado do Marcos, Marina, concordava com tudo o que ele dizia, concluí que ou ela gostava de tudo o que ele gostava, ou ela gostava dele e se gostava pouco. Ele então me olhou como se não tivesse percebido que eu não ouvi a maior parte das coisas que ele falou e perguntou: - E você o que acha? A Marina então também me olhou, só que com uma cara de despeito (e não sei porque isso me divertiu, talvez por vaidade, talvez porque eu não tenha ido com a cara dela), e eu respondi, olhando bem nos olhos dele, que não sabia, porque não prestava atenção na conversa, que eu sou assim mesmo, distraída, e ele sorriu. A Marina então me explicou tudo o que ele falou, do rock, da história, da música no Brasil, do que era, e disse o que achava, eu então disse que lembrei da minha vizinha, uma mulher por volta de seus sessenta anos, que dividi a casa com gatos, móveis e flores, que não recebe visitas dias de semana, nem dias de fim de semana, que escuta música espanhola, aprecia comida italiana, tem descendência francesa, e é claro, é brasileira, que pensava não sei porque que ela fosse mais infeliz do que o resto da humanidade, mas passando pela casa dela a tarde vi as flores que tem lá e me senti mais infeliz do que o resto da humanidade por pensar assim, e que era isso o que eu achava sobre todo aquele papo. O rapaz ao lado do Marcos, esse eu não lembro o nome, mas deve ter uns 25 anos, virou para as minhas amigas e perguntou: _Ela é sempre assim? (com um ar de desaprovação), como se eu não estivesse ali ou não fosse capaz de responder. Uma delas retrucou: Assim como? E ele disse: _Assim... subjetiva? (ainda com um ar de desaprovação), no que a minha outra amiga, que não tem papas na língua, respondeu: _ Como já é de costume, meu caro, ela só foi educada, pois o que quis dizer foi que “gosto é como cu, cada um tem o seu”. Nessa hora todos sorriram e eu também, pois foi exatamente o que quis dizer, e devo acrescentar, depois dessa o tal do rapaz ficou enlouquecido pela minha amiga.
O tempo passou e o garçom trouxe mais uma, duas, três cervejas, eu finalmente pedi uma coca. Na mesa já haviam tido conversas sobre Redes Sociais, estudo, e eles começavam a falar de sonhos, eu levantei para ir ao banheiro lembrando que tive um sonho muito bom, não sei dizer ao certo com o que sonhei, mas foi apenas um sonho e eu acordei como quem foge de si mesmo, a espera de um buque de flores que nunca brotaram. Ser um sonhador é tão difícil quanto ser um realista, e às vezes eu espero o dia inteiro por uma realidade que só participa dos meus sonhos...
Quando retornei a mesa, o tal Marcos, não sei como, estava sentado na cadeira bem ao lado da minha, onde antes estava a minha amiga, eu só compreendi o porque quando a vi sentada ao lado do tal cara de 25. O Marcos se aproximou ainda mais e disse sussurrando: _Meu amigo pediu para eu trocar de lugar, parece que ele gostou da sua amiga, eu achei ótimo, porque há um tempo queria perguntar se você é aquela tal do Blog. Eu respondi que sim, e ele disse que sempre lê e que gosta muito dos meus textos, eu sorri de lado, olhei para os outros que conversam animados sobre política, olhei pra tal da Marina que fingia participar da conversa enquanto nos observava e sem nenhum sentido lembrei da pizza que comi na quinta passada e que me fez mal, mas o mal que ela me fez não chegou nem perto do prazer que senti em comê-la, então respondi: _Que bom que gosta! Obrigada. Ele então sorriu e disse que eu deveria me soltar mais, e me ofereceu uma bebida, eu falei que não bebia e lembrei de um ex namorado meu que sempre abusava da vodca, mas não sei porque eu olhava seus olhos tristes e contraditoriamente vibrantes  e achava que era a vodca que abusava dele. O Marcos então interrompeu meus pensamentos e perguntou se eu sou tudo aquilo que os meus textos dizem, eu pensei em dizer que ele nem imagina, mas que toda primavera eu espero o outono, que todo verão eu espero o outono, que todo inverno eu espero o outono, mais o que mais me dói, é que todo outono eu espero o outono ,então numa tentativa de não parecer louca ou deixa-lo confuso acabei não dizendo nada disso e respondendo que não, que ás vezes eu só queria ir pra bem longe, onde ninguém soubesse nada sobre mim, e sei lá, passar umas duas semanas fazendo de conta que era eu, e ele então disse que já fez muito isso mais jovem, hoje menos, que já deixou a mãe muito louca de preocupação e que até hoje ela ainda se preocupa como antes, e então perguntou: É assim com a sua mãe? E eu respondi (dessa vez sem me preocupar se pareceria louca e o deixaria confuso): _Minha mãe sempre diz que enlouqueceria se eu morresse, será que ela faz ideia de quantas vezes eu já morri. Depois dessa minha pérola depressiva, ele passou uns dois minutos calado, então mudou de assunto e conversamos mais uns momentos entre nós, depois voltamos a participar da conversa de todos, que elogiavam o bar, normalmente eu falaria algo engraçado nesse momento, mas não tava no clima.
Já era quase 1 hora e eu tava bem afim de ir embora, tava cansada daquela conversa toda, daquela alegria toda, daquela gente toda, de mim ali no meio. Eu e minhas amigas nos despedimos dos demais, uma delas trocou número de celular com o tal rapaz de 25 e ele deu um selinho nela, achei aquilo tão bonitinho. O Marcos, mesmo visivelmente intimidado por mim (não sei porque, sou tão comum quanto todos ali), se inspirou e se encorajou e então disse que gostaria de me ver novamente e pediu o número do meu celular, eu então disse que não uso celular e quando pretendia pedir o número dele, fui interrompida por ele dizendo que eu não precisava mentir, que bastava dizer que não queria dar meu número a ele. Eu nem estava mentindo, mas acabei por não justificar e disse thial.
Ao caminhar até a saída, lembrei da minha mãe falando que meu avô sempre dizia que a vida é boa, eu gostaria mesmo de ter conhecido o meu avô, talvez ele conseguisse me explicar porque na maioria das vezes eu me sinto tão sozinha em lugares cheios e animados. Um dia eu mando todo mundo pra longe e chego perto de mim, passo um tempo me fazendo companhia... Tiara Sousa

sábado, 11 de janeiro de 2014

LONELY GUY

Direitos da imagem: postsabeiramar.blogspot.com
Eu sou um cara solitário baby, meus risos são fingidos, meus olhares são todos iguais. Eu sou um cara solitário, trepando ou fazendo amor, eu sou só um cara solitário.
Eu penso demais, muitas vezes cuspo no prato que como, sou solicito e educado, mas não se engane, eu sou só isso e nada disso e tudo isso. Eu sou apenas um cara solitário, em meio a quatro paredes e o topo do mundo que me dizem tudo, mas não significa porra nenhuma.
Eu não posso te oferecer o paraíso, nunca cheguei nem perto dele, e eu me cubro de falsas regalias pra fingir que estou bem, eu quase demonstro carinho, mas aí eu me olho no espelho e ele me lembra que eu sou um cara solitário, de imaginação extensa e desejos vorazes ou oprimidos, chame como quiser baby.
Você pensa que pode me mudar e eu quase acredito, eu diminuo na sua presença e eu quase a amo por isso, você chama atenção e eu quase a odeio por isso, mas eu sou só isso e nada disso e tudo isso, e a solidão se acostumou comigo e eu meio que quero fugir de você, sem nunca sair de você, e a consciência de que isso não é possível me atormenta.
Você sobe em mim e pensa que é minha, mas eu não acredito, a merda da minha cabeça é criativa demais pra acreditar em qualquer coisa, mesmo na verdade. Eu gozo em você e você pensa que sou seu baby, e eu quase acredito, mas então eu a beijo e tão logo nossos lábios separam me sinto sozinho, e nem todo o amor do mundo me convence do contrário.
Eu quero mesmo você, acredite, eu quero ser o que espera que eu seja, seja lá o que você espera que eu seja, mas não posso, já tentei outras vezes e nunca consegui. Eu sou um cara solitário baby, tenho gostos refinados mas vivo no fundo do poço de mim, e não acredito na sorte desde a primeira vez que cai do que achava que era o céu.
Então me abandone, faça como as mulheres do passado e caia fora da droga da minha tristeza. Não tente me entender, eu já tentei e falhei. Mas se resolver ficar, fique pra sempre, que o seu sorriso é a minha página preferida do meu livro preferido, que o seu corpo é a minha cena favorita do meu filme favorito, que tê-la conhecido baby, é o mais perto que cheguei de me sentir acompanhado.
E lembre-se, eu avisei, meus risos são fingidos, meus olhares são todos iguais, eu sou um cara solitário baby, trepando ou fazendo amor, eu sou só um cara solitário.

Ela (baby) escuta a tudo o que ele diz atentamente e responde: - É Lonely Guy, então parece que vamos ser solitários juntos. E então como de costume, sobe nele pensando que é dele. Tiara Sousa

sábado, 4 de janeiro de 2014

FELIZ ANO NOVO! Eu lhes desejo... Alegria! Alegria!

Quando a cidade termina há algumas casas numa estrada de terra. Por algum motivo que finjo desconhecer, tudo muda, da minha capacidade de sentir até as tecnologias dos aparelhos eletrônicos, mudam as estações, o ano, o mês, o dia, mudam as redes sociais da moda, a capacidade dos celulares, surgem novos conceitos, reescrevem velhos romances, mas aquelas casinhas, naquela estrada de terra continuam feitas de barro e areia e taipa, com alguns metros quadrados de largura e comprimento, e eu nunca soube quem mora ali.
Tem alguma coisa diferente, desde que o ópio deixou de ser um hábito social as pessoas passaram a busca-lo nos espaços vazios dos seus corações, e o mais triste, o mais triste de tudo o que é triste é que encontraram.
Vou até a pia do banheiro, ligo a torneira, molho as mãos, mas é o rosto que lavo, miro o espelho, lavo o rosto novamente, miro o espelho uma vez mais, e outra, e outra, e outra... Mas nada mudou, os meus olhos ainda são os mais tristes que vi nas últimas horas.
A tristeza é uma filha da puta, não é a puta, a puta não é mais nada desde que se deitou pela primeira vez com alguém por dinheiro. A filha da puta é que é julgada e condenada antes mesmo de sair do útero, e se a tristeza tivesse uma forma humana, certamente seria a dela.
Caminho pela rua, gostaria de saber para onde estou indo, mas já não sou a mesma de ontem e sou aquela do ano passado, que foi ontem. E ser aquela é sempre mais doloroso do que ser essa, porque aquela é o que fui pela primeira vez e que não serei pela última.
A tristeza é uma ordinária, que intimida qualquer esperança e cria qualquer fé, que simula crenças até que elas pareçam reais em cada aspecto da sua irrealidade, não quer companhia, quer súditos, é rainha em sua crueldade e diverte-se com a desgraça alheia, não tem moral nem bons costumes, furta sorrisos e assombra sonhos.
O tempo é como um ressaca de whisky baleado, sei disso, porque há tempos que não espero sentir dores, aprendi a tomar analgésicos e a fugir antes mesmo de senti-las, e tantas vezes não é suficiente. Os anos nos ensinam a temer desde gentilezas até a maneira familiar com que os móveis estão dispostos em casa, eu sempre acabo mudando todos de lugar, só os meus sapatos velhos é que permanecem embaixo da minha cama, a espera dos meus pés, e de mais caminhos.
A tristeza é o fim da música, é o fim da rua, é fim da fase, é fim da frase, é o falso começo. É a conspiração, é a vaidade, é a impressão de que se é superior, é a dobradiça da porta que dá para o quintal mas não para a rua, é o soluço guardado, é o fardo, é um fardo, é a constatação, a fuga do crime nunca cometido, mas temido, é nunca caber-se em si de tanta dor.
Feliz Ano Novo! Que os seus sonhos se realizem, que as suas paixões sejam correspondidas, que as suas contas estejam cheias, suas mesas fartas e suas saúdes ótimas. E que vocês possam ir aos domingos na igreja para agradecer por suas felicidades e pedirem por si e pelos seus, e que cada vez que chegarem em casa continuem erroneamente sentindo-se superiores aos homens boêmios nos botequins.
Feliz Ano Novo! Que o Brasil ganhe a Copa e ganhe as guerras, é tudo por isso mesmo não é? Uma questão de território. Que vocês tenham sempre tempo de se acharem muito cultos e inteligentes e conhecedores, enquanto são ignorantes o suficiente para supor que os textos políticos, filosóficos e sociais que leem os tornam mais sábios que a lavadora num povoado do Piauí.
Feliz Ano Novo! Que vocês continuem a comer bem e a votar em interesse próprio, que continuem a se importar demais consigo mesmos e a nunca admitirem um erro ou um equivoco, que não ouçam, e façam tipo pra parecerem melhores do que são, sem nunca dar-se conta que fazer tipo é coisa pra quem se gosta pouco. Que mintam e traiam e iludam e comovam com a mesma singeleza com que beijam a testa de alguém. Que se cubram de joias, e roupas caras, e regalias pra esconderem a humanidade que supõem os fazerem fraquejar, que permaneçam submetendo as pessoas as suas crueldades travestidas de sinceridades.
Feliz Ano Novo! Que as suas capacidades de fazerem sexo sem nenhuma estima permaneçam intactas, e que vocês nunca percebam que essa falta de estima os atingem também. Que seus olhos continuem a contemplar as mais belas paisagens e as suas cegueiras continuem imperceptíveis para os que lhe rodeiam como é para os que passam por vocês.
A tristeza é pior do que estar a sete palmos da terra, é nunca estar onde se está, e não somente, mas também por isso, diferente dos meus olhos, eu nem estou triste hoje, que hoje é o dia 1º de Janeiro, e a minha obrigação é achar tudo lindo, enquanto na rua atrás da minha um garoto é torturado pelo pai, e a mãe é tão mais filha da puta do que própria tristeza que sente, que deita-se todas as noites ao lado desse homem, o chama “bem”, e abre as pernas para ele sempre que ele quer.

Portanto... Feliz Ano Novo! Peço perdão pela lucidez melancólica de considerar cada diversão dessas datas festivas de fim de ano, solitárias como a esperança que carregam. Espero que vocês nunca se deem conta que quando a cidade termina há algumas casas numa estrada de terra, e que enquanto tudo muda elas continuam feitas de barro e areia e taipa, e que mesmo que vocês as percebam um dia, continuem sem saber quem mora ali. É essa a minha maneira de dizer que lhes desejo Alegria! Alegria! Tiara Sousa

sábado, 7 de dezembro de 2013

QUERIDO NOEL

Texto dedicado a todas as criOnças do mundo!
Obrigada leitores!!! Até 2014 com mais textos!!!

- 28 de novembro de 2013 – 1ª Carta ao Papai Noel

Querido Noel, peço desculpas, pois embora visivelmente adulta, não fui uma boa menina esse ano, na realidade eu não fui uma boa menina nenhum ano, contei mais estrelas do que devia, sorri com a lua como se ela me correspondesse, comemorei tão exageradamente os raios de sol ou com igual exagero me revoltei contra eles, corri para a chuva enquanto todos corriam dela, e chorei as dores do mundo com uma propriedade que não cabia a mim. Mas apesar disso e por conhecer a sua grandiosa generosidade, afinal, um velhinho que poderia estar aproveitando a aposentadoria, sentado no sofá da sala, assistindo ao futebol enquanto come a comida requentada de anteontem, mas aproveita seu tempo para sair por aí distribuindo presentes para as crianças, deve mesmo ser muito generoso, então peço que atenda o meu pedido, o que eu quero de presente de Natal é só e simplesmente deixar de ser criança.
Sei que ama crianças e deve mesmo achar isso tudo da infância muito bonito, eu também acho, mas é que os anos se passaram e o mundo tem exigido de mim mais do que eu posso dar, logo eu que fui magoada tantas vezes e de meio milhões de modos diferentes e todos doeram com similar voracidade, que já magoei também e as vezes pessoas que amo, que já comi o pão que o diabo nem se deu ao trabalho de amassar, e que já fui tão triste e de vez em quando ainda sou, logo eu conheço a dor e sei o que é a realidade, que sou intima de medos horrendos, enfim... que já sei tanto sobre tanto, mas que ainda assim, não, nunca consegui deixar de ser criança, e isso era pra ser sempre alegre e divertido, mas não é.
Sabe Noel, sou uma observadora do ser humano, dos comportamentos, dos olhares, das reações, dos hábitos e costumes, sempre fui, não com um olhar de julgamento e desaprovação, mas de encanto e curiosidade, e de tanto observá-los, a todos, eu passei a desejar ser como eles, e a achar injusto nunca de fato ter conseguido. Quero ser organizada, responsável e atenta, saber onde estão minhas chaves, meus documentos, meus cartões, minha cabeça, quero ser pontual de um jeito natural, e deixar de trocar belas refeições por guloseimas, mas sempre acabo sem conseguir ser nada disso, e expondo aos meus amigos e a todos os que me cercam a um monitoramento eterno de mim. Sei que muitos acham que eu sou uma das pessoas mais felizes do mundo, porque o mundo pode estar caindo sobre a minha cabeça e não consigo ficar muito preocupada, na realidade, eu ainda não entendo como as pessoas conseguem se preocupar tanto com tudo, mas enfim, eu não sou, não sou assim tão feliz.
Observo as mulheres da minha idade, elas são vaidosas e autossuficientes, com as suas maquiagens e unhas bem feitas, com aqueles jeitos de quem sempre tem mil coisas adultas pra fazer e resolver, e muitas acham que querem ser como eu, que pra mim tudo é simples, que eu sou livre de um jeito inocente, dizem até que acham o máximo o fato de eu me achar o máximo a ponto de não agir como elas, mas a verdade Noel, é que as vejo e as procuro em mim, naqueles seus ares experientes, eu as procuro, mas nunca encontro, droga, será que elas não percebem, que eu me acho mesmo é um peixe fora d’agua, que eu não vejo a hora de crescer.
Eu sei que conversar comigo pode ser muito divertido, afinal não consigo falar sério por cinco minutos, e olha que eu tento, eu nem sei se acho tudo tão triste que necessite de humor, ou se a minha personalidade é essa e pronto. E até confesso, nem tudo são flores murchas, há um lado bom em ser como sou, dizem que uma criança é a alegria da casa, o tempo passa e passa e todas as vezes que entro na casa da minha avó, é isso que eu sou, a criança que alegra a casa, comigo chega a bagunça, o barulho, a baderna, coisas que as pessoas perdem no caminho e que eu nunca consegui deixar pra trás, e as vezes isso me consola, porém, a maior parte do tempo, eu só queria ser um adulto normal.
É por essas e outras bom velhinho, que espero que atenda o meu pedido e por favor, me deixe crescer, acompanhando o tempo que a cada dia passa mais rápido. Beijos! Até!!!

- 29 de novembro de 2013 – 2ª Carta ao Papai Noel

Querido Noel, estive pensando no meu nada convencional pedido, e constatei que o senhor não deve atendê-lo, que nem poderia, é que mais cedo assisti ao filme “Meu passado me condena”, na companhia de um belo menino de nove anos, por quem tenho um amor incondicional, nesse filme tinha o personagem Fabio, de 29 anos, e que assim como eu é uma criança grande, e em grandes proporções, e que assim como eu parece muito perdido em seu corpo adulto e num mundo que exige dele comportamentos sérios e comedidos, responsáveis e comprometidos. Enquanto assistíamos, houve um determinado momento em que esse menino, sorrindo com as graças do personagem Fábio, me olhou e disse: “Ele é igual a você.” E ele parecia tão feliz e orgulhoso enquanto dizia isso, foi então que finalmente percebi que eu nunca irei mudar, que sempre vou ser a criança da casa, da rua, do emprego, do relacionamento, de qualquer lugar e situação, e que não tenho que sentir vergonha disso, porque é assim que eu sou e esse deve ser um dos meus encantos, que deve ter mais gente como eu por aí, se sentindo um peixe fora d’água e se martirizando com medo da infância nunca passar.
O filme é uma comédia, mas eu que já choro ao assistir qualquer filme, confesso que nunca chorei tanto como enquanto assistia a esse, creio que naquele momento, me enxerguei de um outro modo, percebendo algo óbvio que só eu não via, eu dou um trabalho danado pra todo mundo, mas eles gostam de mim assim mesmo, e também por isso, e isso Noel, é das coisas mais lindas do mundo. Finalmente aceitei que sou uma criança agora, e chegarei aos 30 anos sendo uma criança, serei uma criança aos 40, aos 50, aos 60, aos 70, ah Noel, eu serei uma eterna criança. Só que pela primeira vez em anos me sinto muito bem com isso, sei que por muitas vezes ainda me sentirei deslocada, mas parece um preço pequeno a se pagar por se ter os bônus que vem com a fase adulta em uma eterna infância.
Portanto, mudo o meu pedido, esperando que considere o fato de que no meu coração ainda sou uma criança, e portanto tenho direito ao meu presente, dessa vez, o que quero é ganhar na loteria, hahaha por essa o senhor não esperava né? Então se puder, e eu desconfio que pode, envie os números da Mega Sena para o meu email: tiarasousa@ig.com.br, e prometo tentar não gastar tudo com bobagens. Ah e antes que esqueça, devo salientar querido Noel, que o senhor é um velhinho muito safado, hoje enquanto aguardava o inicio da sessão do filme, passei por você no shopping, o senhor estava fofo com sua roupa vermelha e sua longa barba branca, sentado na sua cadeira tirando foto com as crianças, mas ao me ver passar disse nada discretamente, “morena gostosa”, ah por favor né bom velhinho, comporte-se como alguém da sua idade, ou melhor... não comporte-se não, afinal, corações não envelhecem, eu sou a prova viva disso. Ah e não se esqueça, diga a todas as criOnças como eu e você, que aceitem-se, afinal, como já dizia Caetano: “Cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é.” Beijos! Até 2014!!! Tiara Sousa

sábado, 30 de novembro de 2013

MEU FEMININO DISCURSO FEMINISTA

__ E é por crer que nos desvirginar de influencias machistas, não nos torna menos femininas e sentimentais, não nos furta a essência e não nos descaracteriza, é que reprovo tanto a ideia de superioridade masculina (machismo), quanto a ideia de superioridade feminina (femismo). E é por sonhar com uma sociedade que aceite libido e intelecto nas mulheres, e sentimento e emoção nos homens, e com um mundo que enxergue as diferenças entre os gêneros sem deixar de trata-los como iguais, que assumo de salto alto, batom vermelho, cabelos soltos e vestido cor de rosa que aprovo a luta por igualdade de gênero (feminismo).
Todas nós, mulheres, já ouvimos frases do tipo: _ Comporte-se como uma moça! _Sente-se direito! _ Vista-se adequadamente! _ Não fale palavrões! _ Guarde-se para o homem da sua vida! _ Aja descentemente! Ainda que em orações separadas, já ouvimos isso, e isso é só isso, é pequeno, superficial, inatingível e extremamente machista, embora dito e redito pelas próprias mulheres.
Crescemos brincando com bonecas, de casinha, de cozinheira, e que natural, não é? Afinal, muitas vezes é da essência feminina a evidencia de certas disposições, eu nem seria tola a ponto de dizer que não há nada de voluntário nessas brincadeiras, que nelas não estão envolvidas o instinto materno e os alcances líricos, emocionais e instáveis próprios do gênero feminino. Porém, crescemos assim, não apenas realizando a nossa essência, mas principalmente obedecendo às ideias machistas da sociedade, que desde sempre nos treina para embalar crianças e cuidar dos afazeres domésticos, para calar e consentir, para não ousar, ou ousar apenas para satisfazer as fantasias do marido.
Alguns discursos são uma junção dos contos de fadas, em que as princesas são inocentes e intocáveis até encontrarem seus príncipes (o idealizado grande amor), com as interpretações bíblicas e a imagem cristã da bondosa mulher Maria, que com todo o respeito, devo acrescentar, não bastasse ser bondosa, tinha que ser eternamente virgem, e que nem grandes figuras históricas femininas foram capazes de sucumbir a tal adoração e efeito psicológico. Tais discursos são inseridos em nossas mentes desde cedo, partem de uma sociedade despreparada para uma igualdade de gênero, e são reproduzidos nas crianças, pelas próprias famílias, incluindo as mães. Sim, mães! Pois uma parcela considerável das mulheres é machista e nem percebe que é. Somos deseducadas para os relacionamentos de natureza romântica, pois de tanto ouvir sobre príncipes e princesas, buscamos uma história de enredo perfeito (que não existe), e nos perdemos de nós mesmas na tentativa de firmar nosso papel na sociedade, nós nos idealizamos de tal maneira que o sexo, algo tão natural, passa a ser motivo de intermináveis questionamentos e visto como um problema moral e ético.
A questão, é que o tempo passou, e uniram-se aos velhos discursos puritanos, os discursos da liberdade sexual feminina, instaurando nas mulheres contemporâneas a ideia de “posso tudo o que o homem pode” (o que não deixa de ser verdade). O problema é que quando se parte de ideias tão puritanas para ideias tão inovadoras, há um conflito interpretativo, levando as mulheres a desconsiderar o fato de que assim como nós os homens também são deseducados desde meninos, que crescem sob os mesmos velhos conceitos machistas, que os fazem assimilar suas libidos a algo quase animal, numa busca infundada e errônea de auto afirmação heterossexual, que lhes habituam a fazer sexo considerando o prazer antes de reais encantamentos, desejos e expectativas, muitas vezes tratando e reduzindo as mulheres a um corpo, sem cérebro, sentimentos e intelecto ou a um ser submisso. E é na tentativa frustrada de alcançar a igualdade, que muitas mulheres passam a fazer o que muitos homens fazem desmedidamente, friamente e com quase ou nenhum apego, e com isso, a maior forma de comunicação do mundo (o sexo), comunica errado, tornando habitual desconsiderar que nossos impulsos não nos torna irracionais, e sim ainda mais humanos.
Além de todos os percalços que já enfrentamos diariamente e cotidianamente nos relacionamentos, na vida social, no mercado de trabalho e até mesmo intimamente, a mídia apelativa e oportunista ainda aproveita-se da ideia (mais machista do que real) do desejo voraz, ilimitado e até poligâmico de homens desde cedo deseducados para serem “muito homens”, e passa a transmitir imagens de bundas e seios, erotizando seminudez e nudez supostamente femininas, de celebridades instantâneas que denegrem cada vez mais a real imagem das mulheres e nos vitimiza a um padrão de beleza escandaloso e apelativo, nos tornando reféns do reflexo de um intelecto reduzido, aparentando da mais degradante e superficial forma possível, a ideia de liberdade feminina e dificultando a nossa conquista de sermos enfim verdadeiramente valorizadas.
E entre um discurso e outro, entre os resquícios de um passado de prisão, de um presente de liberdade fantasiosa e desmedida, e da esperança de um futuro de igualdade, ficamos nós, mulheres, perdidas entre o que dizem nossos pais e entre o que vemos na TV, entre as nossas sensações físicas e emocionais e o que nos dizem que é imoral e impróprio, entre a nossa condição humana e as nossas referencias extremas e depreciativas. A questão torna-se ainda mais degradante, quando os dois ideais expressivos de mulher querida e desejada pelos homens são o da submissa, caricata e machista Amélia (aquela que dizem, era mulher de verdade) ou da também (não enganem-se com as aparências), submissa, caricata e machista Sex symbol (aquela que dizem, é a mulher de verdade).
Com isso, ainda que desejosas de que sermos nós e inteiramente, seja o melhor que podemos fazer por nós mesmas, somos afetadas e influenciadas pela sociedade, pela mídia e pelas ideias cristãs, o que torna mais difícil exercermos o papel de seres sociais participativos, conscientes dos nossos alcances emocionais e livres de qualquer expectativa de uma virgem Maria, a nos simular assexuadas e a nos indispor a uma santidade que não nos cabe enquanto humanas.
E mesclando as minhas palavras com as da cantora e compositora Rita Lee, na música Pagu, que revelo que sou feminista sim, por tudo o que já foi conquistado, por tudo o que é considerado equivocadamente conquista, por tudo o que ainda necessitamos conquistar, e principalmente “porque nem toda feiticeira é corcunda”, porque “nem toda brasileira é bunda”, porque “o meu peito não é de silicone”, e porque embora heterossexual, feminina, frágil e sensível, ainda consigo ser “mais macho que muito homem”. Tiara Sousa

sábado, 16 de novembro de 2013

NEGRA – O Conto de fadas que ninguém contou

- Eu nunca fui a princesa. - Nunca trajei os vestidos glamorosos e cheios de brilho. - Meu príncipe nunca chegou. - O final feliz nunca foi pra mim. - Nenhuma fada visitou o meu conto, porque ninguém o contou.
Entre tantos entretantos, cresci, sem participar dos contos de fadas da minha infância, sem me enxergar nas mocinhas das novelas, sem arrasar os corações nos bailes dos filmes que me faziam delirar. Cresci, no equivoco de não povoar a imaginação de ninguém, nem a minha. Eu só me enxergava nas mulheres seminuas nos desfiles das escolas de samba, nas jogadoras de futebol e de basquete e em manifestações artísticas, populares e culturais, que mesmo com extrema importância e beleza, não deveriam ser as minhas únicas melhores opções, mas o mundo afirmava que eram, porque o mundo também cresceu e crescia sem me ver nas histórias das suas infâncias, e nem da minha.
Entre tantos entretantos, cresci, sem nunca protagonizar as histórias dos autores renomados, ou sendo no mínimo a que enxugava o chão da sala e esquentava a barriga no fogão e no máximo tratada como categoria alegórica e superficial, ou na melhor das hipóteses sendo um artigo de resgate cultural ou um signo de esclarecimento histórico-social. Eu estava por todos os lados, nas ruas, nas praças, nas praias, nas escolas, nos lazeres, nos empregos, portanto não haviam possibilidades reais de eu não povoar todos os lados da imaginação dos autores, eu apenas permanecia arraigada a um universo subterrâneo  de exclusão, e nunca coloria as ilustrações e as imagens, e nunca preenchia as linhas e as falas, mas existia, inspirava, acomodava e incomodava tanto quanto as outras, as que se tornavam publicações e exibições e que invadiam as fantasias do mundo.
Embasada pelo que li, vi e vivi, mas sobretudo pelo que não pude ler, nem ver, nem viver, desmascarei os interesses e a estupidez de manter as sociedades na ignorância, e compreendi que as histórias que tanto contavam, e que não me incluíam, alienavam mais do que instruíam, furtavam mais do que entrertiam, figuravam mais do que protagonizavam, eram ilusões comedidas e medidas, e que no fundo, eu, que tanto as quis, nunca as realmente precisei.
Nos contos que não pude ler, nas coisas que não pude assistir, aqueles em que todos, de todos os modos, e preferências, e gêneros, e condições, e classes, e cores, e faces, e corpos, e lugares, e alma, e sedes, e fomes, e etnias povoam, percebi que era meu direito ser tudo o que desejasse, fazer parte de todas as histórias, então, não desfilei seminua em escolas de samba, nem joguei futebol ou basquete, nada escrachadamente contra, apenas nunca foi o que eu queria, e eu não o faria apenas pra ser maquiagem pra estatística sugestiva que impulsiona um povo aos pedaços pra uma ignorância inteira, elevada a desumanidades, intolerâncias, preconceitos e interesses, e que afirmavam que essas eram as minhas únicas melhores opções.
E evidenciando todo o meu respeito e apreço a todas as etnias, pois embora orgulhosamente e predominantemente Negra, sou antes de tudo, miscigenada, parte de um povo, de uma cultura e de uma família miscigenados, é que hoje mando, por tudo que me foi aos tantos furtado e aos poucos revelado, a Cinderela para o Espaço, a Rapunzel á merda, a Bela Adormecida pra puta que pariu, a Pequena Sereia ir tomar naquele lugar e a Branca de Neve ir se foder, porque entre inúmeros, difíceis, pesados, dolorosos, injustos, tantos entretantos, eu sempre fui a princesa, o final feliz sempre foi pra mim, eu sempre trajei os vestidos glamorosos e cheios de brilho, o meu príncipe chega, e todas as fadas me visitam, e eu só levei um tempo pra descobrir isso, porque ninguém, absolutamente ninguém contou. Tiara Sousa


sábado, 26 de outubro de 2013

PAIXÃO - Algo impublicável, para tornar público

Paixão não é um mito, é o desejo ébrio dos sóbrios, é o desejo sóbrio dos ébrios, a paixão é desmedida mesmo quando é minuciosamente medida, mesmo quando envolta de cafés da manhã e passeios na praça, é o parentesco da química, é o desatino do cotidiano, é fazer planos porque é natural e desconstruí-los por ser inevitável, ainda que evitável.
Paixão é fechar os olhos pra fugir do que sente e enxergar um rosto, é reconhecer esse rosto na multidão, mesmo que ele nunca tenha estado lá; Paixão é uma prostituta com amor próprio, não compreende-se nem quando se desmaterializa, nem quando grita, nem quando cala, nem mesmo quando faz de conta.
Paixão é a explicação para “Cinquenta tons de cinza" ser um Best Seller, é insanidade e sanidade, é suor e nudez, é nudez e suor, é delírio e busca, é fuga e fantasia, é lembrar 24 horas de um beijo de dois minutos que pode nem ser real, é a ansiedade pelos minutos que virão, ainda que eles nunca venham, ainda que eles não existam.
Paixão é o orgasmo escapando dos órgãos e dos sentidos e lubricando-se do emocional, não tem sentido, só é sentida as pressas e devagar, devagar e as pressas; Paixão é o “berço esplendido” do Hino Nacional Brasileiro, é tão trágica que chega a ser cômica, é a abominação pelas duras verdades de Maquiavel em encontro a adoração pelas singelas mentiras de Karl Marx, ou vice-versa. É uma cama, um lençol, um vazio, um corpo inteiro doente de desejo.
Paixão é a cruz de Cristo, é a cruz sem Cristo, é Cristo sem a cruz, é suportar uma tristeza profana sem as palavras sagradas, é agnóstica mesmo quando tem fé, mesmo quando se alimenta de crenças, mesmo quando cumpre promessas e adora, mesmo assim, é agnóstica.
A paixão começa pelo fim, caminha pela libido, dança na mente, destrói o ego com duas doses do próprio veneno, o egocentrismo, movimenta descuidadamente a vaidade e termina no começo, comigo mais uma vez sentada na cama, com o computador no colo, escrevendo algo impublicável, para tornar público. Tiara Sousa