(Aranha,
goleiro do Santos, deixou o gramado indignado com parte dos torcedores do
Grêmio que o chamaram de macaco. Durante o jogo, o goleiro chegou a parar a
partida e avisar o árbitro. Mas não deu em nada. “Estava no gol e começaram com
palavras racistas. Me chamaram de preto fedido, seu preto. Depois fizeram coro
de macaco. Pedi para o câmera filmar os torcedores, mas não filmaram. Fico puto
de acontecer essas coisas aqui. Dói, dói muito”, lamentou o goleiro.) Notícia
do Correio do Estado
Tinha outro texto pra postar aqui nessa semana, mas mudei de ideia,
porque quando chamam um preto de macaco, “dói, dói muito”. Me utilizo das
palavras do goleiro Aranha, do Santos, que no jogo da quinta-feira foi xingado
por alguns gremistas de macaco, me utilizo delas porque são breves e
simplificam tudo, e porque quando dói, dói nele e dói em mim, e dói no negro
bonito que eu vi no reggae anteontem, e no advogado negro que estava namorando
a minha amiga, e no menino negro que vende bombom no sinal, e no meu filho de
dez anos que entende e sabe tão pouco da vida, mas agora já sabe que dói, e ele
nem precisava saber tão cedo, e dói na minha mãe e na minha avó, que mesmo de
peles tão claras carregam a minha pele escura no peito. Tinha outro texto pra
essa semana, mas quando gritam que um preto é macaco, não há um preto que não
se doa, ainda que esse preto esteja do lado e no coro ignorante de quem tá
gritando. E “dói, dói muito”.
Ah mas é futebol, e podem dizer que qualquer xingamento é válido, e que
o macaco, aquele animal fofo que todos conhecem e gostam é só mais um, que se
ofender ou fazer um escarcéu é coisa demais pra uma palavrinha dita e redita no
calor de uma partida. Mas é que, na boa sabe, desculpa a todos que acham isso
coisa pouca pra tanto bafafá, mas é que esse povo preto, esse povo escuro, esse
povo já sofreu demais, esse povo já lutou demais, esse povo já rezou demais
diante da imagem do loiro de olhos azuis que chamam de Jesus, pra regredir logo
agora, pra serem obrigados a verem esses mesmos xingamentos que doeram neles a
vida inteira doerem também nas suas crianças. E quanto a esse animal, o macaco,
convenhamos, representa bem mais que apenas um animal. Ele é em muitas teorias
o principio do homem, o homem ainda não evoluído e intelectualizado, que ri e
come banana e pula de galho em galho, ah e é preto, em sua maioria de espécie,
disso eu até tinha esquecido, porque se fosse só a cor pra relacionar, talvez
eu tivesse postado o outro texto, e talvez nem doesse, mas dói, dói muito.
O que desejo a alguns dos torcedores gremistas que orquestraram essas
ofensas racistas ao goleiro é muito menos do que o meu povo negro sofreu, não
lhes desejo a dor das chicotadas,
nem que sejam presos a correntes de ferro, nem amarrados a troncos de árvores, nem
obrigados a trabalhar muito e em péssimas condições sem receber por isso, nem
que sejam reduzidos a escória social, nem mesmo que sejam tratados como animais
e vendidos como produtos, ou que durmam no chão duro e comam lavagens, não de
maneira alguma, isso eu não desejo a ninguém. O que desejo é apenas justiça,
que sirvam de exemplo pra esse futebol ainda tão racista e essa sociedade ainda
tão hipócrita, e compreendam que a dor do goleiro Aranha, nunca será somente
dele, que ele tem um povo, independente de time, de cidade, de país, de tipo
físico, de classe, de atributos, e pasmem só, da cor da pele, porque nem é
preciso ser preto pra saber que dói, dói muito.
Admito, eu já chamei juiz de futebol de “filho da puta”, desculpem por
isso, mas é que no calor do jogo ás vezes me escapa um xingamento ou outro, não
que isso justifique o meu ato impróprio, mas a diferença é que milhões de
“filhos da puta” não foram escravizados por mais de 400 anos, nem obrigados a
trabalhar quatorze a dezesseis horas por
dia, nem castigados das mais cruéis maneiras, nem receberam trapos de roupa e
uma alimentação de péssima qualidade, nem passaram as noites nas senzalas acorrentados
como animais selvagens, senão doeria, doeria muito, e eu, nem no calor da
emoção, falaria dessa maneira.
Peço que perdoem se extrapolo nos discursos e manifestos contra o
racismo nesse texto, mas é meus caros leitores, que quando chamam um preto de
macaco, “dói, dói muito” e dói em todos os pretos..., e brancos, e índios, e
miscigenados com intelecto, ética, sonho, luta, suor, sentimentos, dignidade,
necessidade e humanidade. E vai doer até o dia em que eu não precisar mais
substituir o texto já programado pra ser publicado na semana porque chamaram
mais um preto de macaco, e doeu. Tiara Sousa
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