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sábado, 15 de fevereiro de 2014

EU NUNCA DISSE...

Texto dedicado a Isabelly e a todas as meninas e mulheres reais...

A primeira vez que Isabelly disse eu te amo, tinha 16 anos e estava na porta de casa com o namorado. Ela quis pedir socorro mas a voz não saía, quis fugir mas  as pernas não se moviam, quis gritar mas não tinha forças, ela o via e via todas as histórias românticas que leu desde menina, podia ouvir o próprio coração batendo descompassado. Por algum motivo se ela tentasse explicar tudo o que sentia ali seria mais abstrato do que somente dizer. Então ela disse enquanto ele a beijava abaixo da orelha e segurava a sua mão... Eu te amo. Para ela aquilo foi mais do que se expressar, foi a realização de uma fantasia, foi a autoria de um soneto.
Eu não. Eu nunca disse...
E eu amei, amei cada carta que você idealizou mas não me escreveu, cada canção que te fez pensar em mim mas não me dedicou, cada parte da tua consciência que eu elevei a nós, mas nunca passou de somente tua. Amei a tua cor favorita, a tua bermuda de sempre, o teu lábio superior e o teu lábio inferior e cada beijo verdadeiro que você me tomou e nunca devolveu. Tudo em você era lírico, um dia você sentou comigo num banco de praça e contou uma história que alguém te contou, e só pelo fato de tê-la dividido comigo, aquela história triste foi a mais alegre de todas as histórias que eu já ouvi.
A primeira vez que Laura disse eu te amo, tinha 23 anos, estava abraçada com o namorado na cama, estavam nus e exaustos, então ela pensou que naquele momento não havia nenhum outro lugar no mundo em que gostaria de estar, sentiu um aperto no peito e as lágrimas escorrerem do seu rosto como se ela guardasse um segredo e fosse insuportável não poder dividi-lo, o apertou ainda mais contra seu corpo e disse... Eu te amo. Para ela aquilo foi muito mais do que se abrir, foi um grito de liberdade, um ato de rebeldia.
Eu não. Eu nunca disse...
E eu amei, amei os teus sapatos, a tua língua, o teu gosto, o teu corpo, a tua ereção, os teus péssimos modos, amei a tua mania de estalar os dedos e os teus dedos, todos eles. Tudo em você era libidinoso, um dia você me olhou da cabeça aos pés com minúcia, desejo, calma e desconforto, e eu olhei para os seus olhos que pegavam fogo, depois virou-se e saiu sem dizer uma palavra, sem me dar um beijo sequer, nem mesmo um casto, eu nunca contei a ninguém mas aquele olhar foi o melhor sexo da minha vida e nem precisou passar de apenas um olhar.
A primeira vez que Carolina disse eu te amo, tinha 27 anos, estava na sala folheando uma revista de moda enquanto o namorado assistia futebol com os amigos, e então o time deles fez um gol e ele comemorou com tanta avidez, que a notar a alegria que ele sentia ela se alegrou mais do que ele, pois se alegrou por ele. Ela então sentiu a necessidade de dizer, foi até onde ele estava e sussurrou em seu ouvido... Eu te amo. Para ela aquilo foi mais que uma constatação, foi uma verdade bonita, como poucas verdades do seu tempo.
Eu não. Eu nunca disse...
E eu amei, amei a cor do teu cabelo, o teu sorriso, a tua barba bem feita, a tua barba mal feita, amei cada uma das tuas conquistas, a tua voz, o teu silencio. Eu nunca fui um pouco tua, fui um pouco dele, um pouco daquele, tua não, tua eu fui inteira, completa. Tudo em você era realeza, você vestia branco e parecia um príncipe, vestia preto e parecia um príncipe, vestia nada e ainda parecia um príncipe.
Outro dia alguém me perguntou se eu já disse eu te amo... Eu falei que sabia o que não era amor e que isso me bastava para imaginar o que era. E imaginei... Mas a verdade é que nunca... Nunca fui Isabelly, nem Laura, nem Carolina. Fazia tempo que eu não lembrava... Eu nunca disse eu te amo. Eu nunca disse. Tiara Sousa