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domingo, 4 de maio de 2014

NOSSOS AMORES

É inédito , ainda que pela vigésima ou trigésima vez, amar sempre é inédito. E todos os meus amigos tem chorado enquanto a vida passa...
Já vimos muitas paisagens, nosso céu já esteve de muitas cores, e quantos dias já nasceram enquanto nós morríamos. Vivemos muito e muito pouco pra chorar por amores que na realidade nunca foram nossos; Afinal, o que é mesmo o amor?
Esperamos por bons modos que nunca vieram, parece bobo esperar por bons modos num tempo em que flores murcham em plena Primavera. Eu quis chorar, e chorei, por que eu e todos que conheço estamos murchando com as flores. Cheguei a pensar que sempre dava pra fugir da realidade, mas não dava, não dá. E ultimamente tenho tido medo de tudo...
Observo a minha volta e a alegria se esvai, quis tanto que as coisas fossem simples que nunca mais sorri por motivos nobres, e só agora percebo, a gente nunca cresce, a gente morre desde o primeiro dia de vida, a gente morre...
Quero que sejamos felizes, mas ultimamente tenho achado todo mundo triste. Será que todos já sentiram as dores que senti, ou não poder mudar o mundo é que tem nos destruído?
Porque a gente acorda na melhor parte dos sonhos? Preciso de um quarto escuro em que tudo fique mais claro, tenho mesmo sentido a minha falta, a falta de quem eu era quando esperava tudo da vida...
Um rapaz se ajoelhou pra minha amiga e a pediu em namoro, dois dias depois não era mais nada disso, daquilo, será que ninguém mais sabe o que quer, ou os sentimentos é que são de vidro e ao mínimo descuido podem se quebrar. Na semana passada eu quis o fim de uma história porque fora da minha imaginação ela não era como eu sonhava, semana que vem já não sei, mas talvez isso explique porque sonhar fica cada vez mais difícil.
Uma outra amiga ama alguém que nunca está perto e que há tempos já deixou ser íntimo dela, será que ela faz ideia de que a pessoa que ama pode nem mais existir, já que o tempo transforma tanto as pessoas, e eu nem sei mais se eu choro pela minha tristeza ou pela tristeza dos outros, uma dor inteira nunca passa, fica.
Um dia Cazuza disse que seus “heróis morreram de overdose”, eu e meus amigos estamos morrendo de amores não amáveis, não reais, nem mesmo próximos, justos, dignos e explicáveis, amores inventados, idealizados, poluídos. Tem gente por aí dizendo que devemos ficar com alguém que nos mereça, gostar de quem gosta da gente, que relacionamento é bem mais do que ótimas transas e caminhar de mãos dadas, acho tudo isso lindo, mas foda-se, na prática é tudo balela, no mundo em que sobrevivemos amar é uma consciência tola, não se descreve um amor, nem se obriga, nem se pede, nem se simula, nem se expulsa, acho que ultimamente amor tem sido tudo aquilo que sentimos falta de sentir a ponto de inventar que sentimos, e só por isso chorei...
E essa é a minha geração, casamentos acabam, garotas traem, paixões duram dias, príncipes se tornam babacas, a distancia e a falta de intimidade encantam mais que a proximidade, e a cada dia que passa temos mais medo de transformar nossa ilusão em realidade e descobrir que há séculos o amor é apenas mitológico, que sobrou apenas um monte de gente tentando amar fantasias.
Mas tudo bem, temos sobrevivido, às vezes penso em mim e em meus amigos, talvez nossos amores na realidade somos nós, que amamos somente pessoas idealizadas, por que somos muito egoístas, sonhadores e vaidosos pra amar pessoas reais, com defeitos e manias e convencimentos e calos e enganos e tédio e chatices e acnes e problemas e dores e solidão e frieira e mau humor, e ainda queremos ser amados como somos, nunca vi nada mais incoerente...
Buscamos nos outros qualidades sobre-humanas, que nem nós temos. Devíamos mesmo aceitar os desencantos como aceitamos os encantos, devíamos mesmo abdicar das nossas inalcançáveis expectativas, mas sabemos tanto, que não sabemos amar nem ser amados. O amor seja lá o que for, como for, onde for, com quem for, deve mesmo ser generoso. Ah se aceitássemos todos como aceitamos os amigos, mas acho que ainda não sabemos, que ainda não sei, e eu queria tanto saber...
E só por isso é inédito amar, ainda que pela vigésima ou trigésima vez, amar sempre é inédito, e por tanto, por egoísmo, por incapacidade, por medo, por vaidade, nossos amores somos nós... Somente nós. Tiara Sousa

sábado, 12 de abril de 2014

CRUA

Eu me perguntei o que iria fazer quando eu acordasse e não fosse mais nada disso, disso de louco, disso de vício, disso que vai enquanto fica e fica muito, o que iria fazer quando eu virasse do lado da cama em que você deveria estar e que não estava. Eu perguntei pra mim, em pensamento, mas o seu velho e incomodo talento de decifrar cada olhar e gesto e meias palavras ainda estava lá, então você respondeu: _Você vai chorar talvez, lembrar, se martirizar pensando no que deveria e poderia ter feito de diferente e não fez, talvez queira ser outra pessoa, talvez vá atrás de mim, ou então seja só previsível e faça tudo isso e depois dê pro primeiro idiota que aparecer.
Então um dia aconteceu, eu acordei e não era mais nada daquilo e você não estava mais lá e eu fui só previsível, droga, mais uma vez você tinha razão. Porque você sempre tinha razão, se quando eu te olhava eu perdia toda a minha? Isso era muito injusto.
Você sumiu umas duas semanas e então voltou, me agarrou e me beijou com a propriedade de sempre, daí falou: _ Eu não gosto do seu beijo, eu gosto é da sua culpa, é da sua crueldade de me querer só pra você, do seu beijo não, eu quero é o teu sofrimento, quero que a tua menstruação dure trinta dias e que todos eles sejam de muita cólica. Você sabia que eu tinha ficado com outros caras, não por ter visto, ou por terem te falado, mas somente porque sabia de tudo sempre, e porque até a minha saliva me denunciava, é claro que eu não iria saber lhe dar com a tua ausência sozinha.
Talvez você troque as minhas lâmpadas e recolha o meu lixo, tanto faz, talvez você se mande outra vez, talvez. Tudo o que eu tenho de moderna é démodé pra você e eu espero que você se foda por isso. Um dia eu me canso disso tudo, vendo o guarda roupas, a TV de plasma, teus livros de sociólogos famosos, toda a tua coleção de filmes de arte e o teu Gol velho na minha garagem, fico só com aquela camisa do Fluminense que você usou naquele jogo que ganharam de 3 X 1 e que você ficou tão feliz que disse que eu te trazia sorte.
Ás vezes me aproveito do fato de você ser competitivo e te desafio dizendo: _Vem, chega mais perto, duvido você me amar como ama aquele tênis velho com molas na sola, duvido você duvidar do que eu sinto estando dentro de mim, duvido você ser fiel enquanto eu te traio com a minha solidão. E ás vezes você cai nos meus desafios, mas nunca dura pra sempre, nunca.
Não, eu não gosto de você porque você é bonito, porque tem olhos verdes e cabelos crespos, eu gosto de você porque eu sou fútil demais pra gostar de alguém que me merece. Hoje eu só quero um vinho caro, uma casa grande, uma conta cheia, calmantes e você por perto, só pra não deixar tudo isso pra trás e ir atrás de você, com a certeza de que já vai estar ciente da minha chegada, porque você sabe de tudo sempre, e isso é injusto.
Quando eu te conheci naquela festa boba de gente tola, em que juro, não esperava encontrar ninguém que me encantasse, mas eu te encontrei, então, lembra, logo depois do nosso primeiro beijo, falei: _ Já entreguei tudo pra antigos amores, minha doçura, minha inconstância, minha poesia, meus pensamentos, meus sonhos, meu hímen, agora pode vir, seremos somente eu e você. Mas não foi nada disso, eu te entreguei tudo de novo, mesmo o que eu já não tinha.
Ás vezes tudo o que eu preciso é não precisar de você, então eu ensaio te dizer certas verdades, dizer que você se acha muito, que enquanto tudo for mentira, você nunca será digno do amor de ninguém, mas nunca digo, pois amo gente que se acha, porque gente que se acha tá se lixando pro resto do mundo e porque eu tenho mais medo de te perder do que de ser infeliz. Tanta propaganda no mundo e você só diz que me ama pra se sentir melhor, isso é cruel comigo, mas admito, é inteligente da sua parte, mas se quer saber, vá a merda você e seu intelecto, eu quero querer é emoção, e que vá a merda eu e o meu intelecto também, porque quando a minha nudez não te inspirar mais, o meu cérebro é que não vai te seduzir.
Mas acredite, eu já vi coisas demais pra crer que vai ser sempre assim, quando passar eu vou transar com você só pra sentir nada, ninguém nem nada que venha depois vai me tirar esse prazer. Mas enquanto não passa quero que saiba que se você morresse amanhã eu morreria depois de amanhã, mas acho que você já sabe, você sabe de tudo sempre, e isso é injusto, isso é muito injusto, isso me mata. Tiara Sousa

domingo, 23 de março de 2014

ASSUNTOS RELEVANTES ou SALVE O EGOÍSMO NOSSO DE CADA DIA!

Um rapaz que conheço superficialmente disse na minha cara que escrevo bem, mas que deveria aproveitar meu talento para escrever mais sobre coisas relevantes, eu o indaguei sobre o que para ele é relevante, ele citou politica, problemas sociais, pré-conceitos, cultura de massa, mídia, e disse mais uma vez na minha cara que eu gasto muita palavra bonita pra falar sobre coisas irrelevantes e consequentemente desimportantes.
O ocorrido me fez lembrar que outro dia alguém que conheço bem mais que superficialmente me disse que se contentaria com um resto de amor, achei aquilo tão triste e tão bonito, em parte porque sempre considerei as maiores belezas, tristes, em outra porque um resto de amor é tudo que posso oferecer a mim nas noites em que mesmo ciente da previsão do tempo que diz que não vai chover, debruço na janela e espero pela chuva, como quem perdeu um membro e aguarda a sua volta mesmo sabendo que ele não voltará. Acendo um cigarro, cada vez que ponho as cinzas no meu cinzeiro de concha, penso que quando eu parar de fumar vou poder sentir o gosto da minha boca e enfim constatar que o amargo dos beijos sem verdade nunca saíram de lá, talvez seja por isso que nunca deixei de fumar, só pra não lembrar e só pra não deixar de lembrar que um dia eu já acreditei nas coisas boas. Termino o cigarro, deixo a janela entreaberta, viro e de todos os vestidos com os quais me deparo, o que me chama atenção é exatamente aquele que não consigo doar nem jogar fora, que não consigo usar nem achar bonito como um dia já achei... Será que isso que é não superar, será que isso que é superar? Me perco até onde os meus olhos  alcançam e me odeio por isso, porque me faz sentir limitada.
Quanto ao rapaz, o olhei admirando a sua coragem (confesso), sorri de lado prevendo a minha coragem (confesso), e disse: - Não faço por mal ou por ignorância, perdoe se é o que parece, é que a maioria das vezes eu acho mesmo que o meu cinzeiro cheio de pontas de cigarro, ou a minha descrença nas coisas boas, ou a janela entreaberta no meu quarto, ou o vestido velho que não consigo doar nem jogar fora são mais relevantes do que a economia, as estatísticas e a corrupção. Ele se calou, pareceu pensar sobre o que eu disse, não sei ao certo, minutos depois retrucou com um ar vitorioso: - É. Mas isso é um tanto egoísta. Eu então disse, com um ar ainda mais vitorioso: - É, isso é um tanto egoísta, talvez por isso se identifiquem com o que escrevo, porque a tristeza, a depressão, o inconformismo, o sentimento de rejeição, a sensação de não se encaixar, os corações partidos, são egoístas, todos doem como se suas dores fossem as maiores, e se afundam como se os buracos fossem os mais sombrios, ninguém que esteja se sentindo miserável sofre mais com a miséria dos outros por ser mais significante, nem você meu caro, a diferença é que eu publico meu egoísmo todas as semanas e você não. Depois do que falei, fiquei esperando uma grande resposta daquele rapaz que não falava mentiras nem verdades absolutas e apenas manifestava a sua opinião, que cá entre nós, não era de toda a incoerência, mas ele me olhou com um ar de admiração e rejeição (sim ele conseguiu unir esses dois extremos num só olhar), e disse com firmeza: - Você é maluca! Depois de falar isso, ele esboçou uma expressão de dúvida, como se não soubesse se esperava por um tapa bem dado ou por um beijo romântico, mas eu apenas falei com um desdém de doer na alma (na dele): - Sou parte maluca, parte alguma coisa que o censo comum nunca vai aceitar e compreender, e você é parte do censo comum. Depois virei e saí, me sentindo muito mais importante do que realmente sou.
Confesso que viro de um lado para o outro na cama, que me refugio entre a dor que invento pra entreter meus dias comuns e meus sentimentos pouco confortáveis. É que do lado esquerdo da cama tudo é viral, do lado direito tudo parece errado, e há um bom tempo que eu não me completo. Às vezes ando descalça só pra sentir as sobras de outros tempos no chão gelado, as sobras de outras experiências nos pés expostos, quem sabe um pouco sobre mim, sabe demais, e a sabedoria pode ornamentar jardins e pode sepultar levezas, já sepultei todas as minhas. E não venham me dizer que isso é irrelevante, aquele rapaz pode até não admitir e me chamar de maluca, mas o fato de ter gente morrendo de fome não nos faz morrer menos de amores. Salve o egoísmo nosso de cada dia! Aquele que não prejudica ninguém além de nós mesmos, aquele que nos dá a impressão de que ficar triste só é infinito se for dentro do nosso peito, aquele que joga na latrina nossa esperança e que arde no corpo inteiro sem sequer sair da mente. Assinado egoistamente, a parte maluca, parte incompreensível ao senso comum... Tiara Sousa

domingo, 16 de março de 2014

PARA ENTENDÊ-LO...

Direitos da imagem: Gaveta Virtual
Há dias que não amanhece, que eu passeio de lingerie pelo quarto vazio de olhares sedentos, sem línguas buscando a minha alma através do meu gosto. Danço tango sob a minha tristeza, antes eu vagava por olhares que sangravam a fome do mundo e cujo sangue escorria no meu corpo, agora abdico da fome e da sede com fome e sede, e me sinto vulgar por sempre ter pensado que todos os sentimentos líricos eram marginais...
Para entendê-lo é necessário vagar pelo impreciso com precisão, e admitir ser cobiçada com alma e sem maldade, com maldade e sem alma, é necessário pluralizar os mistérios do agora com os do antes e com os do depois e com os do talvez... E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário calma e fé, verão e inverno, céu e inferno, tudo na mesma medida, é necessário cegar o mundo e exorcizar crueldades humanamente desumanas, é necessário tragar um vinho santo, borrar as últimas margens, delirar entre os versos menos completos e mais profundos... E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário chorar na solidão e pela solidão, ouvir Mozart lendo quadrinhos, é necessário uma paz distinta e uma guerra velada, e acender velas para que os santos em que não creio, creiam em mim, em você, em nós...  E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário trechos de canções, leitura facial, leitura corporal, é necessário que todo abraço acolha como o primeiro e despedace como o último, é necessário virar de um lado para o outro na cama e nunca dormir... E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário aparecer na multidão sem nunca ser ou fazer parte dela, é necessário não se encaixar nos hábitos comuns e ser realista de olhos fechados, e ser sonhadora de olhos abertos... E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário arder com doçura, caminhar sobre as águas, suspirar entre o fogo e gemer no marasmo, é necessário ser companhia sem ser objeto, ser dama sem ser passiva... E eu não sei não entender.
Para entendê-lo é necessário doer com boas maneiras, e eu não sei doer assim, é necessário cortejar o fundo poço, e eu sempre o temi...  E eu preciso entender ainda que doa e torture, ainda que afague e acalme, ainda que massacre, ainda que termine... Porque eu não sei não entender... E agora... também não sei mais o que fazer com o que não entendo...
Te idealizei, não imaginei o adverso, nunca me dei a esse luxo... e só por isso há dias que não amanhece, que eu passeio de lingerie pelo quarto vazio de olhares sedentos, sem línguas buscando a minha alma através do meu gosto... Tiara Sousa

domingo, 2 de março de 2014

“QUEIXO-ME AS ROSAS”... É CARNAVAL!

“Queixo-me as rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti”
(As rosas não falam – Cartola)
Penso que as alegrias são de vidro, que ao mínimo descuido podem se quebrar.  Acho bonita a alegria das pessoas, acho bonita a alegria e acho bonitas as pessoas... Pelos caminhos serpentinas e pecados anunciam o período em que o povo se permite anestesiar das dores e dos conceitos, da moral e dos bons costumes, da obrigação e da sanidade... É carnaval!
Mas enquanto isso, eu... “queixo-me as rosas”...
Lá fora tudo acontece, as boas moças deixam a castidade em casa, os paraísos são reinventados, e isso é tão livre! O Brasil parou, está tudo colorido à espera da próxima música, do próximo bloco, da próxima escola de samba, do próximo samba, dos tantos quase e efêmeros amores... É carnaval!
Mas enquanto isso, eu... “Queixo-me as rosas”...
Lá fora tudo acontece, foliões trajam suas fantasias e as máscaras escondem todas as tristezas, e isso é tão bonito! As paixões mais avassaladoras duram minutos, é menos que uma cena de filme, menos que um capítulo de novela, é tão ilusório que chega a arder como a realidade, é tão real que chega entorpecer como a ilusão... É carnaval!
Mas enquanto isso, eu... “Queixo-me as rosas”...
Eis o maior protesto do mundo, em que todos saem de casa só e simplesmente para sorrir sem culpa, sem pudor, sem medo; um país protestando contra a tristeza dos fatos, contra os fatos, contra a tantas vezes massacrante realidade, contra a realidade, é uma alegria sem pressa, sem sentido, uma alegria crua, despida de qualquer consciência... É carnaval!
Mas enquanto isso, eu... “Queixo-me as rosas”...
Eis o mais completo espetáculo teatral da história, a deixar os rituais dionisíacos no chinelo. Ontem já esqueceram, amanhã ainda não sabem, mas hoje, hoje os corações são prostíbulos, sem casa, sem aliança, sem tempo, sem contratempo, hoje ama-se o agora e não lamenta-se o fim dos sambas. Toda gente e ruas e blocos e músicas, não há julgamento, não há intenção... É carnaval!
Mas enquanto isso, eu... “Queixo-me as rosas”...
Não, não por meu coração ter estado meio verde, meio rosa como sempre esteve o de Cartola;
Não por ter tanta gente, tantas ruas, tantos blocos, tantas músicas;
Nem mesmo por nos caminhos haver tantas serpentinas e pecados;
Mas apenas por pensar que as alegrias são de vidro e que ao mínimo descuido podem se quebrar, mas apenas por achar bonita a alegria das pessoas, e por achar bonita a alegria e por achar bonitas as pessoas...  Só por isso eu... “Queixo-me as rosas” enquanto é carnaval! Tiara Sousa

sábado, 22 de fevereiro de 2014

DIVÃ

São 7:00 da manhã, a entrevista pra vaga de colunista é ás 8:30, ainda não tomei banho, ainda não me vesti, droga, ainda nem escovei os dentes. São 8:30 em ponto, ainda bem que não me atrasei (eu sempre me atraso), deve ser um bom sinal. Uma secretária impecavelmente vestida me recebe e me direciona até uma sala onde há um homem de uns 40 anos, ele está sentado, tem um sorriso simpático, está bem vestido com uma calça jeans e uma camisa de manga comprida rosa clara(tem coisa mais máscula que homem de cor-de-rosa!), meu futuro chefe, creio, costumo ser otimista. Ele está com um papel nas mãos (suponho ser o meu currículo) e me olha da cabeça aos pés com um ar de julgamento, droga, deveria ter me vestido mais adequadamente, mas na pressa acabei optando por jeans e camiseta, o meu cabelo tá uma farofa e nem o coque improvisado disfarçou isso, ah mas dane-se, agora é tarde. Eu lhe desejo Bom dia, ele educadamente deseja de volta, diz que se chama Eduardo e que tudo de prático que deveria saber sobre mim está no meu currículo, mas que o mais importante nesse emprego é saber cativar as pessoas, então me pergunta se sabendo disso eu ainda acho que estou apta a ocupar a vaga. Por essa eu não esperava, achava que ele iria pedir para eu escrever alguma coisa, discordo de tudo o que ele diz, afinal a coluna tem que ser cativante, eu não, mas acabo não dizendo nada disso e afirmando que sim, que estou apta. Ele então pergunta porque eu sou uma pessoa cativante, e eu fico muda, droga, não sou cativante, nada perto disso, na realidade eu sou um saco, sei que preciso de uma resposta rápida, mas emudeço. Cinco minutos depois, ele pede que eu me acalme e seja absolutamente sincera (putz, ninguém deveria pedir isso a uma mulher com TPM), diz também que não tenho muito a perder já que ele está quase decidido a dar a vaga pra uma moça que entrevistou antes, e que dificilmente mudará de ideia. Então pede que eu faça de conta que estou num divã e responda afinal, o que faz de mim alguém cativante. Eu com a esperança perdida e o otimismo enfiado na minha unha encravada do dedão do pé esquerdo, o obedeço e confesso como num divã:
_ Sou uma sonhadora, meus desejos mais carnais são sentimentais, eu nunca me encaixo, sou a “pedra no meio do caminho” de Drummond, eu sempre aconteço. Tenho insônia, penso melhor de madrugada, então enquanto todos dormem, ou transam, ou bebem por aí, eu escrevo. Assisto filmes porque a vida me assusta, tenho fome de coisas que nunca serão noticia, de meios que nunca comunicam, de passos que eu nunca irei dar. Nem sei mais de onde vem os sorrisos, o gosto do mundo ainda está na minha boca. Para as pessoas comuns eu sou excêntrica, é que às vezes chove e eu corro pra chuva enquanto o resto do mundo corre da chuva, e ninguém sabe ler que ali eu me liberto, que aquela sou eu. Para as pessoas incomuns eu sou solitária, é que eu chego em casa e acendo um incenso, e acendo um cigarro e acendo a luz, mas enquanto houver dores no mundo, no fundo tudo ainda estará apagado. Sei que é arrogante e prepotente dizer isso, mas não me conformo com a minha condição de ser humano, pois sou uma das melhores pessoas que conheço e ainda assim eu sou péssima. Lugares cômodos sempre me incomodam, é desconfortante admitir isso, é desconfortante não admitir. Eu tento meditar, mas meditação requer concentração e eu crio muito expectativa quanto a tudo, a sala, a cozinha, os quartos, os banheiros, os móveis, os amores, os amigos, os estranhos, eu. Mas tudo bem, enquanto meninos e meninas ainda correrem por aí eu sobrevivo. Meu coração hoje é um poste aceso, o mesmo asfalto, casas com luzes de Natal e um morador solitário, amanhã já não sei...
Veja através do vidro da sua janela, aquela folha a balançar no alto daquela árvore naquela praça com o nome de algum reacionário cujo nome não recordo, aquela folha sou eu, verde, porém em luto.
Ele sorri e não sei exatamente porque aquele sorriso me soa uma afronta (talvez seja a TPM), então continuo:
_ Não, não divirta-se com isso, ou apesar disso. Eu nunca serei cativante, sempre acho que o sol é contra o sol, que ninguém mais tem nada a dizer, e só nos resta assistir aos noticiários e deixar de ter a esperança que nunca tivemos tendo.
Depois de ouvir toda a minha confissão, ele diz: _ Parabéns! Você está contratada.
E eu, ao invés de comemorar e sair dando pulos de alegria, pergunto por que, e ele confessa: _ Porque você me cativou!
Então sorrio timidamente e pergunto quando posso começar e ele responde: _ Você pode vir na segunda-feira Marina.
Merdaaaaaaaaaaaaaa, mas eu não sou Marina! Então acabo por descobrir que aquela entrevista é para uma vaga de Relações Públicas (finalmente compreendendo a importância em ser cativante), e que eu confundi o andar do prédio. Nós sorrimos, conversamos um pouco, eu agradeço, saio, vou para o andar certo, mas a vaga foi preenchida há 20 minutos.
Eu poderia lamentar, sair de lá puta da vida, mas nem me importo. Eu cativei um homem maduro, inteligente, educado e bem sucedido sendo absolutamente sincera, perdi a vaga, mas ganhei o dia. Foda-se essa coluninha démodé, eu sou cativante, posso conseguir coisa muito melhor. Tiara Sousa

sábado, 15 de fevereiro de 2014

EU NUNCA DISSE...

Texto dedicado a Isabelly e a todas as meninas e mulheres reais...

A primeira vez que Isabelly disse eu te amo, tinha 16 anos e estava na porta de casa com o namorado. Ela quis pedir socorro mas a voz não saía, quis fugir mas  as pernas não se moviam, quis gritar mas não tinha forças, ela o via e via todas as histórias românticas que leu desde menina, podia ouvir o próprio coração batendo descompassado. Por algum motivo se ela tentasse explicar tudo o que sentia ali seria mais abstrato do que somente dizer. Então ela disse enquanto ele a beijava abaixo da orelha e segurava a sua mão... Eu te amo. Para ela aquilo foi mais do que se expressar, foi a realização de uma fantasia, foi a autoria de um soneto.
Eu não. Eu nunca disse...
E eu amei, amei cada carta que você idealizou mas não me escreveu, cada canção que te fez pensar em mim mas não me dedicou, cada parte da tua consciência que eu elevei a nós, mas nunca passou de somente tua. Amei a tua cor favorita, a tua bermuda de sempre, o teu lábio superior e o teu lábio inferior e cada beijo verdadeiro que você me tomou e nunca devolveu. Tudo em você era lírico, um dia você sentou comigo num banco de praça e contou uma história que alguém te contou, e só pelo fato de tê-la dividido comigo, aquela história triste foi a mais alegre de todas as histórias que eu já ouvi.
A primeira vez que Laura disse eu te amo, tinha 23 anos, estava abraçada com o namorado na cama, estavam nus e exaustos, então ela pensou que naquele momento não havia nenhum outro lugar no mundo em que gostaria de estar, sentiu um aperto no peito e as lágrimas escorrerem do seu rosto como se ela guardasse um segredo e fosse insuportável não poder dividi-lo, o apertou ainda mais contra seu corpo e disse... Eu te amo. Para ela aquilo foi muito mais do que se abrir, foi um grito de liberdade, um ato de rebeldia.
Eu não. Eu nunca disse...
E eu amei, amei os teus sapatos, a tua língua, o teu gosto, o teu corpo, a tua ereção, os teus péssimos modos, amei a tua mania de estalar os dedos e os teus dedos, todos eles. Tudo em você era libidinoso, um dia você me olhou da cabeça aos pés com minúcia, desejo, calma e desconforto, e eu olhei para os seus olhos que pegavam fogo, depois virou-se e saiu sem dizer uma palavra, sem me dar um beijo sequer, nem mesmo um casto, eu nunca contei a ninguém mas aquele olhar foi o melhor sexo da minha vida e nem precisou passar de apenas um olhar.
A primeira vez que Carolina disse eu te amo, tinha 27 anos, estava na sala folheando uma revista de moda enquanto o namorado assistia futebol com os amigos, e então o time deles fez um gol e ele comemorou com tanta avidez, que a notar a alegria que ele sentia ela se alegrou mais do que ele, pois se alegrou por ele. Ela então sentiu a necessidade de dizer, foi até onde ele estava e sussurrou em seu ouvido... Eu te amo. Para ela aquilo foi mais que uma constatação, foi uma verdade bonita, como poucas verdades do seu tempo.
Eu não. Eu nunca disse...
E eu amei, amei a cor do teu cabelo, o teu sorriso, a tua barba bem feita, a tua barba mal feita, amei cada uma das tuas conquistas, a tua voz, o teu silencio. Eu nunca fui um pouco tua, fui um pouco dele, um pouco daquele, tua não, tua eu fui inteira, completa. Tudo em você era realeza, você vestia branco e parecia um príncipe, vestia preto e parecia um príncipe, vestia nada e ainda parecia um príncipe.
Outro dia alguém me perguntou se eu já disse eu te amo... Eu falei que sabia o que não era amor e que isso me bastava para imaginar o que era. E imaginei... Mas a verdade é que nunca... Nunca fui Isabelly, nem Laura, nem Carolina. Fazia tempo que eu não lembrava... Eu nunca disse eu te amo. Eu nunca disse. Tiara Sousa

sábado, 8 de fevereiro de 2014

NO SHOW DO RAPPA ou QUASE FIM DO MITO DO AMOR NÃO CORRESPONDIDO

Dia 25 de Janeiro teve show do Rappa aqui em São Luís, mas como não é exatamente sobre o show que quero falar, não vou dizer que atrasou mais de duas horas, que eu não conhecia nenhuma das músicas novas da banda, que houve uma queda de energia ou sei lá o quê que interrompeu a apresentação, que Falcão (o vocalista) tirou uma mulher da plateia pra dançar e deixou não sei quantas mil se mordendo de ódio (incluindo eu), que mais uma vez conheci um carinha que achou que eu estava dando o fora nele quando ao pedir meu número eu disse que não usava celular, não que eu não estivesse dando o fora, mas porra, quando é que os homens vão aceitar que no século XXI, ano de 2014, há alguém com menos de trinta anos que resolveu passar um tempo sem essa grande invenção tecnológica, que o show lotou e eu tenho medo de multidões e que as pessoas pulavam e se empurravam e eu (constatando que estou ficando velha) desejei estar ouvindo as músicas na segurança da minha casa. Não, eu definitivamente não irei falar sobre nada disso.
Bem, mas pra começar a falar sobre o que quero, terei que introduzi-los a essa noite. Saímos todos num só carro, eu, duas amigas, um primo carioca de uma delas, e Mirelle, uma amiga de uma delas. Pois é, Mirelle nem gosta do Rappa, mas o carinha que ela gosta, gosta, então ela já tinha motivos suficiente para desembolsar 60 reais, e ir até lá. Com 24 anos, mas com um coração de 16, Mirelle se arrumou toda e chegando até lá fez cara de surpresa ao encontra-lo (e do topo da sua inocência ela jura que colou), foram logo se beijando e ela passou o show inteiro com ele. Eu e os outros ficamos mais próximos do palco e só voltamos a encontrar com Mirelle no fim do show, ela estava chorando, pois o cara a tinha deixado sozinha (devido ao seu choro público, confesso que inicialmente a julguei mal).
Já era mais de quatro da manhã quando na volta do show, o pessoal decidiu parar pra lanchar, encontramos um trailer e eu ainda atordoada com a multidão que tinha no show, decidi ficar esperando no carro, Mirelle muito triste também decidiu não descer, e foi então que ela me contou sobre o como estava apaixonada e como não era correspondida. Falou que sai com esse rapaz há mais de dois anos, que ele tem um filho que ela trata com muito carinho, que sempre que viaja traz presentes para os dois, que as poucas vezes em que ele foi a casa dela, seus pais o receberam muito bem, que ela faz de tudo por ele, mas que ele nunca a assumiu de fato, que fica com outras, não a trata com carinho, não demonstra consideração ou paixão, que ele faz ela se sentir um nada, e que isso a deixa muito triste, mas que é mais forte do que ela, e que por isso sempre acaba indo atrás dele, ou aceitando seus convites rapidamente, por que o ama. A medida em que ela falava se debulhando em lágrimas o meu pré-julgamento sobre ela ia se transformando em simpatia, e eu me revoltava contra ele, quando ela disse então que ele tem 35 anos eu juro que o xinguei mentalmente de termos impublicáveis, afinal, alguém com essa idade já tem o discernimento de saber o mal que causa.
Mirelle falava com todo aquele romantismo e esperança e tristeza e ingenuidade, e eu, numa altura dessas percebendo a menina por trás daquelas palavras, a inocência por trás de suas atitudes e a certeza mórbida que ela tinha de que aquela obsessão era amor, quis alertar Mirelle, dizer que todos (homens e mulheres) vivem essa fase juvenil e dolorosa de gostar de quem não gosta, de quanto mais maltratados, rejeitados, traídos, mais gostam, ou melhor, mais acham que gostam. Quis dizer que um dia não muito distante ela vai dar as costas a ele, que gostar de verdade é gostar que faz bem, e gostar que faz bem é o que tem feedback, que a maioria das vezes essa história de amor não correspondido é uma tardia ilusão adolescente que deixa jovens adultos com baixa auto estima e falta de vergonha na cara. Mas diante de tudo o que Mirelle imaginava que sentia, e que não doía menos por ser imaginação, seriam palavras jogadas ao vento (e eu prezo muito as palavras para desperdiça-las assim), ela precisaria viver e sofrer tudo isso completamente. Eu entendi dessa maneira, pois vendo aquela menina sofrendo dores das quais os conceitos ela ignora e para a qual não esta preparada, lembrei de uma outra menina, ingênua e destemida, aquela  que eu fui um dia, e então disse apenas que ela vai sair dessa e que melhor, vai aprender com essa. Ao ouvir minhas palavras Mirelle esboçou um sorriso de esperança, finalmente o pessoal terminou o lanche e seguimos para as nossas casas.
Quando cheguei em casa lembrei das lágrimas que caiam pelo rosto daquela quase desconhecida enquanto ela me contava a sua história, me perguntei se assim como aconteceu comigo, depois disso ela vai ter medo de se entregar, vai duvidar do amor e fugir muitas vezes do que sente. Temi que ela se transforme numa falsa fria como eu, que guarda o romantismo num baú e finge que sabe de tudo quando na realidade é só mais uma mocinha tola com medo de gostar de alguém pra valer e sofrer suportando o sublime do insuportável.
Pela primeira vez em muito tempo me desfiz da máscara de mulher forte que vinha usando até pra eu mesma, e chorei... Chorei por Mirelle e pela menina que eu nunca mais vou ser, que pior, tenho muito medo de voltar a ser... Chorei por cada traição, por cada desilusão, por cada perda, por cada sacana ordinário que foi me furtando pedaço em pedaço até me transformar nesse poço de medo e blindagem que atualmente as pessoas equivocadamente nomearam de mulher segura, madura, independente e altruísta.  Chorei pelos últimos tempos em que nem conseguia mais chorar...
Depois deitei invadida por um alívio súbito de quem lava a roupa suja de todos os corações partidos da humanidade sozinha, e pensei no lado positivo da minha história, do que um dia vai ser a história da Mirelle, de todas as histórias (amo lados positivos!). Me dei conta que as mesmas desilusões e decepções que nos fazem mais comedidos em relação aos romances também nos tornam pessoas que gostam de ser correspondidas e que naturalmente perdem o interesse por quem não demonstra interesse, claro que a primeira coisa que nos interessa em alguém continua sendo que tipo de alguém é, mas a segunda certamente é a reciprocidade. E pensando assim, me entreguei ao sono com a mesma singeleza e liberdade com que mais jovem me entregava a vida e aos sentimentos, e sonhei com o dia em que eu vou de fato superar isso tudo e deixar de ter medo. Sonhei pelos últimos tempos em que nem conseguia mais sonhar...
Ouvir a Mirelle me ensinou muito mais do que eu jamais poderia prever, pois não importa por quantas coisas já passamos, ou o quanto já sentimos, sempre temos algo a aprender, e naquela noite, daquele show, ela me ensinou que de vez em quando é muito bom olhar para trás e então por fim, ou melhor, por futuros começos se permitir seguir. Horas depois acordei, leve como a brisa da tarde que entrava pela janela do quarto, celebrando o dia, o tempo, a vida, cada experiência (mesmo as abomináveis), e sabendo que por trás de tudo aquilo o que fazia era comemorar o fato de agora eu ser o tipo de mulher que manda caras como esse (que a Mirelle jura que ama) á merda e ainda sai cantarolando... “Aiôa êê, aiôua, é!”. Tiara Sousa

domingo, 2 de fevereiro de 2014

BARULHOS DA CIDADE

Caminho pelas ruas... Caminhar nunca é reconhecido como uma experiência, a maior parte do tempo as pessoas caminham em busca de tudo, e tudo é quase sempre quase nada. Todos tem pressa, pressa de chegar ao trabalho, ao curso, a Universidade, ao encontro, ao lugar. A rua é sempre vista como uma passagem, um caminho, um meio. Mas a rua nem sempre é passageira. Por vezes eu não somente passo pelas ruas, deixo as ruas passarem... E enquanto elas passam o tempo é sempre o dobro do que é, e eu não espero que todos entendam isso, só alguns...
Às vezes o centro de uma cidade é toda a cidade, gente de todos os tipos, roupas de todos os modelos, sonhos de todos os tamanhos, às vezes não... Eu já conheci uma cidade inteira só de olhar o olhar de uma mulher sentada na calçada da sua casa simples num bairro do subúrbio, ou a maneira como as crianças correm atrás de uma bola num campinho qualquer, ou os sons dos vendedores ambulantes anunciando seus produtos nos centros comerciais, ou pelo modo que o rapaz de coração partido olhava pela janela do ônibus, ou pelo beijo apaixonado do casal adolescente na praça, que de tão atrevido e público e exibido, soava de uma inocência maior que a praça, maior que todas as praças.
Há uns meses atrás eu e uma amiga entramos num restaurante em Santiago no Chile e descobrimos que o garçom que nos atendeu, além de brasileiro, era maranhense, que assim como nós era de São Luís, ele conhecia os bairros em que morávamos e até tínhamos conhecidos em comum. A medida em que falávamos, ele, que creio já estava há um bom tempo vivendo por lá, acabou por não se conter de tanta emoção, e repetia freneticamente: “Que mundo pequeno! Que mundo pequeno!”, com as mãos para cima e nos olhando como se fossemos muito mais que duas estranhas, ali eu entendi que naquele momento éramos para ele nossa cidade inteira, e quem vai dizer que do topo da saudade que sentia do seu lugar de origem (tão diferente daquele em que estávamos), que aquele rapaz estava errado.
Caminho pelas ruas... A individualidade por muitas vezes é vista como algo ruim, eu gosto de individualidades, por momentos enxergá-las é poder levar nações pra casa, afinal, quem disse que toda filantropia é voluntária nunca flagrou as paisagens passando, os movimentos passando, as histórias passando, nunca transformou a rotina dos outros na sua eventualidade. O sol começa a se pôr, e a mulher trajando roupas finas, salto alto e bolsa de grife atravessa a Avenida em direção a garagem e nem percebe o espetáculo natural que a rodeia, a sua esquerda o sapateiro interrompe o trabalho para olhar para o céu, e eu deixo de olhar para o céu para olhar os olhos do sapateiro, porque eu poderei ver o sol se pôr muitas outras vezes, mas nunca mais numa quinta feira, num Janeiro, através dos olhos daquele sapateiro. Minutos depois a mulher vai embora no seu carro de luxo, lançamento da concessionária, recém comprado, o sapateiro volta ao seu trabalho, e eu sigo meu caminho, encharcada de comiseração, não pelo sapateiro, mas pela mulher, é dela que sinto dó.
E é sempre assim, todas essas ruas e avenidas e becos e gentes invadindo a minha imaginação, a minha consciência, os meus sentimentos, eu nunca as ignoro... Sempre me pergunto pelas pessoas que moram nesses lugares, pelos pés que ali pisaram, por quem construiu as casas, e por quem nunca encontra tempo de olhar em volta e para cima.
Há dias em que tudo me inspira, que todas as dores alheias tornam-se intimas, e eu sei que pareço lenta e distraída perto de toda pressa a ocupar os caminhos, e eu sei, muitos não compreendem. Não desejo a ninguém que como eu, possa conhecer cidades inteiras dentro de um olhar, pois imaginar assim é quase suportável, é quase descritível...
Não. Eu não espero que todos entendam isso, só alguns, alguns dos quais eu faço parte... Aqueles sempre mesmos alguns que enxergam o poema do asfalto, das tinturas gastas, dos telhados velhos, dos portões automáticos, das pessoas conversando, da natureza se exibindo, dos barulhos da cidade...
Caminho pelas ruas... E enquanto caminho, elas caminham por mim... Tiara Sousa

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Amizades


Amigos são pedaços de nós que encontramos pela vida, ora fácil, ora ferida, horas e dias, dias e meses, meses e anos.
Dos amigos que tenho, guardo comigo todas as faces, pessoas tem defeitos, amigos tem verdades.
Os amantes se despem pra se descobrir, os amigos se despem pra se ajudar e o diferente mora exatamente no sentido de amar.
Quanta nobreza amar alguém que não se é amante, que não se é família, que apenas é, porque sem nenhum interesse banal, incontrolável, o amor é reconhecido pela cumplicidade, mais do que pela entrega, pelo diálogo, mais do que pelo momento, pelo real, mais do que pela fantasia, pelo até logo mais do que pelo adeus.
Toda verdadeira amizade é pura e dura tempo suficiente pra se eternizar dentro de nós.
Ajudar alguém, ser ajudado por alguém, ouvir alguém, ser ouvido por alguém, é mais do que podemos ter, é aquilo que podemos ser.
Amizades são como canções belas, são letras simples, com melodias raras que nos marcam e nos exaltam.
Tiara Sousa