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sábado, 18 de janeiro de 2014

COMO SE EU PENSASSE ALTO ou NUM BARZINHO

Era umas 22h40, eu estava num desses barzinhos charmosos, no lado “nobre” da cidade, numa mesa com cinco pessoas, seis a contar comigo, duas eu conhecia bem, são minhas amigas, as outras três (dois homens e uma mulher), eram conhecidos de uma delas. O garçom se aproximou, o pessoal tinha pedido mais uma cerveja, eu aproveitei pra pedir um suco de laranja, eu queria uma Coca-Cola, mas fui falar e acabou saindo a palavra suco, uma das minhas amigas perguntou se tinha drink sem álcool, o garçom disse que sim e falou um nome lá, ela acabou pedindo uma coca, não sei porque isso fez eu me sentir uma idiota.
Um dos caras na mesa, uns vinte e nove anos, Marcos é o nome dele, bonito e comum como todos os caras ali, começou a falar de música, disse que gostava de MPB, mas amava rock, e não sei porque ele passou ainda uns 10 minutos falando sobre isso, e eu não ouvia mais nada. Inclinei a cabeça para a esquerda e havia um casal numa mesa, achei que deviam estar juntos há pouco tempo, deviam ter menos de vinte anos, deviam estar apaixonados, imaginei que aquele chopp naquele barzinho era pra eles um jantar a luz de velas, pois o que faz um jantar a luz de velas ser romântico não são as velas, nem a comida, nem o lugar, é o sentimento. Eu já jantei a luz de velas, sem velas, sem jantar, sem lugar...
Do pouco que ouvi da conversa que acontecia na minha mesa, percebi que a mulher ao lado do Marcos, Marina, concordava com tudo o que ele dizia, concluí que ou ela gostava de tudo o que ele gostava, ou ela gostava dele e se gostava pouco. Ele então me olhou como se não tivesse percebido que eu não ouvi a maior parte das coisas que ele falou e perguntou: - E você o que acha? A Marina então também me olhou, só que com uma cara de despeito (e não sei porque isso me divertiu, talvez por vaidade, talvez porque eu não tenha ido com a cara dela), e eu respondi, olhando bem nos olhos dele, que não sabia, porque não prestava atenção na conversa, que eu sou assim mesmo, distraída, e ele sorriu. A Marina então me explicou tudo o que ele falou, do rock, da história, da música no Brasil, do que era, e disse o que achava, eu então disse que lembrei da minha vizinha, uma mulher por volta de seus sessenta anos, que dividi a casa com gatos, móveis e flores, que não recebe visitas dias de semana, nem dias de fim de semana, que escuta música espanhola, aprecia comida italiana, tem descendência francesa, e é claro, é brasileira, que pensava não sei porque que ela fosse mais infeliz do que o resto da humanidade, mas passando pela casa dela a tarde vi as flores que tem lá e me senti mais infeliz do que o resto da humanidade por pensar assim, e que era isso o que eu achava sobre todo aquele papo. O rapaz ao lado do Marcos, esse eu não lembro o nome, mas deve ter uns 25 anos, virou para as minhas amigas e perguntou: _Ela é sempre assim? (com um ar de desaprovação), como se eu não estivesse ali ou não fosse capaz de responder. Uma delas retrucou: Assim como? E ele disse: _Assim... subjetiva? (ainda com um ar de desaprovação), no que a minha outra amiga, que não tem papas na língua, respondeu: _ Como já é de costume, meu caro, ela só foi educada, pois o que quis dizer foi que “gosto é como cu, cada um tem o seu”. Nessa hora todos sorriram e eu também, pois foi exatamente o que quis dizer, e devo acrescentar, depois dessa o tal do rapaz ficou enlouquecido pela minha amiga.
O tempo passou e o garçom trouxe mais uma, duas, três cervejas, eu finalmente pedi uma coca. Na mesa já haviam tido conversas sobre Redes Sociais, estudo, e eles começavam a falar de sonhos, eu levantei para ir ao banheiro lembrando que tive um sonho muito bom, não sei dizer ao certo com o que sonhei, mas foi apenas um sonho e eu acordei como quem foge de si mesmo, a espera de um buque de flores que nunca brotaram. Ser um sonhador é tão difícil quanto ser um realista, e às vezes eu espero o dia inteiro por uma realidade que só participa dos meus sonhos...
Quando retornei a mesa, o tal Marcos, não sei como, estava sentado na cadeira bem ao lado da minha, onde antes estava a minha amiga, eu só compreendi o porque quando a vi sentada ao lado do tal cara de 25. O Marcos se aproximou ainda mais e disse sussurrando: _Meu amigo pediu para eu trocar de lugar, parece que ele gostou da sua amiga, eu achei ótimo, porque há um tempo queria perguntar se você é aquela tal do Blog. Eu respondi que sim, e ele disse que sempre lê e que gosta muito dos meus textos, eu sorri de lado, olhei para os outros que conversam animados sobre política, olhei pra tal da Marina que fingia participar da conversa enquanto nos observava e sem nenhum sentido lembrei da pizza que comi na quinta passada e que me fez mal, mas o mal que ela me fez não chegou nem perto do prazer que senti em comê-la, então respondi: _Que bom que gosta! Obrigada. Ele então sorriu e disse que eu deveria me soltar mais, e me ofereceu uma bebida, eu falei que não bebia e lembrei de um ex namorado meu que sempre abusava da vodca, mas não sei porque eu olhava seus olhos tristes e contraditoriamente vibrantes  e achava que era a vodca que abusava dele. O Marcos então interrompeu meus pensamentos e perguntou se eu sou tudo aquilo que os meus textos dizem, eu pensei em dizer que ele nem imagina, mas que toda primavera eu espero o outono, que todo verão eu espero o outono, que todo inverno eu espero o outono, mais o que mais me dói, é que todo outono eu espero o outono ,então numa tentativa de não parecer louca ou deixa-lo confuso acabei não dizendo nada disso e respondendo que não, que ás vezes eu só queria ir pra bem longe, onde ninguém soubesse nada sobre mim, e sei lá, passar umas duas semanas fazendo de conta que era eu, e ele então disse que já fez muito isso mais jovem, hoje menos, que já deixou a mãe muito louca de preocupação e que até hoje ela ainda se preocupa como antes, e então perguntou: É assim com a sua mãe? E eu respondi (dessa vez sem me preocupar se pareceria louca e o deixaria confuso): _Minha mãe sempre diz que enlouqueceria se eu morresse, será que ela faz ideia de quantas vezes eu já morri. Depois dessa minha pérola depressiva, ele passou uns dois minutos calado, então mudou de assunto e conversamos mais uns momentos entre nós, depois voltamos a participar da conversa de todos, que elogiavam o bar, normalmente eu falaria algo engraçado nesse momento, mas não tava no clima.
Já era quase 1 hora e eu tava bem afim de ir embora, tava cansada daquela conversa toda, daquela alegria toda, daquela gente toda, de mim ali no meio. Eu e minhas amigas nos despedimos dos demais, uma delas trocou número de celular com o tal rapaz de 25 e ele deu um selinho nela, achei aquilo tão bonitinho. O Marcos, mesmo visivelmente intimidado por mim (não sei porque, sou tão comum quanto todos ali), se inspirou e se encorajou e então disse que gostaria de me ver novamente e pediu o número do meu celular, eu então disse que não uso celular e quando pretendia pedir o número dele, fui interrompida por ele dizendo que eu não precisava mentir, que bastava dizer que não queria dar meu número a ele. Eu nem estava mentindo, mas acabei por não justificar e disse thial.
Ao caminhar até a saída, lembrei da minha mãe falando que meu avô sempre dizia que a vida é boa, eu gostaria mesmo de ter conhecido o meu avô, talvez ele conseguisse me explicar porque na maioria das vezes eu me sinto tão sozinha em lugares cheios e animados. Um dia eu mando todo mundo pra longe e chego perto de mim, passo um tempo me fazendo companhia... Tiara Sousa

sábado, 2 de novembro de 2013

SOU EU QUEM SANGRA TODOS OS MESES

Há vezes, em que um canto da sala é a sala inteira, depende de como eu me sinto, e de como foi o meu dia. De repente, a mesa em que fomos tão superficialmente felizes já não significa nada, e admito, tenho um gosto incomum por coisas comuns.
Não gostava do teu sorriso, ele era encantador demais pra ser só meu, e do alto da minha insegurança isso me incomodava, mas gostava de vê-lo sorrir, e isso meu caro, soa tão falso quanto a última gota da tinta vermelha que um dia você usou pra pintar (e bordar) a minha paz.
É estranho que tenha se esforçado tanto pra continuar, a cidade inteira sabia o que eu também estava cansada de saber, e de não admitir, você não me amava, se amava demais pra amar alguém como eu, alguém que se encantava com o mar a ponto de querer levar as ondas pra casa, você não me amava nem quando tava me amando, era cínico, machista e narcisista, mesmo quando eu tava por cima, principalmente quando eu tava por cima.
Eu sei que eu também nunca fui perfeita, tenho total consciência de que não sou o paraíso, nada perto disso, nada que se meça entre o céu e o implícito pode me traduzir, mas mesmo assim, eu era bem mais do que você merecia, e te entregava bem mais do que você jamais cogitou me pedir.
Hoje, posso dizer com todas as palavras que chorei até não restar nenhum liquido no meu corpo, que deixar de querê-lo foi um processo árduo, eu passei dias e dias ressentindo pesadelos reais por horas a fio, esgotei a inesgotável cota de desilusões de uma vida, abdiquei das crenças mais confortantes, amadureci da maneira mais consciente e menos alegre, eu caminhei por um esgoto de lembranças mórbidas e flertei comigo mesma até me reconquistar.
Hoje, eu sento á mesa, a mesma mesa em que fomos tão superficialmente felizes, e só consigo pensar em como um dia tudo pôde mudar. Agora, não adianta dizer que gosta de mim do jeito que eu sou, eu não sou mais como aquela personagem sonhadora do filme, que quando escuta isso, entra num êxtase de encantamento e esperança, eu já velei minhas ilusões, me crucifiquei em lágrimas, me sepultei viva, já fui ao meu enterro a procura de um quinto de motivo pra ressuscitar, já fiquei tão triste que não consegui chorar, já li e reli livros de psicologia em busca da inexistente explicação dos sentimentos, ninguém se desconhece melhor que eu, meu caro, e por saber de tudo isso, é que agora sou eu quem gosta de mim do jeito que eu sou.
Se por algum momento me olhou nos olhos e viu o tamanho do meu encantamento por você, e supôs que eu não ia te superar, errou, posso ser frágil como uma flor, posso vislumbrar contos de fada em pleno século XXI, posso ter a sensibilidade de uma ferida aberta, posso doer como uma queimadura de terceiro grau, e pensar em casamento enquanto você libidinosamente observa as sápidas curvas do meu corpo, mas sou eu quem sangra todos os meses e permanece intacta, inteira, completa, meu caro, portanto olhe nos meus olhos novamente, e verá que superar você foi menos difícil do que escrever esse conto. Tiara Sousa