quarta-feira, 16 de setembro de 2015

APENAS MAIS UMA CONVERSA NO WHATSAPP...



Grupo: Amigos e relacionamentos!
 Anna, Carlos, Flávia, Jonas


12 DE SETEMBRO DE 2015

Anna
Eu queria era que ele gostasse de mim do jeito que eu sou, porque eu gosto de mim do jeito que eu sou, porque quando tô no fundo do poço é pra mim que eu corro e é comigo que eu me consolo. Mas eu não podia querer isso dele, se nem mesmo eu gostava dele do jeito que ele é. 14H09

 Carlos
Ela pode estar nos meus braços, pode jurar que gosta de mim, pode gemer de prazer ao mínimo toque das minhas mãos ásperas, ela pode me ligar as 2 da madrugada só pra dizer o quanto tá com saudade, e ainda assim eu não vou acreditar, vou achar que ela vai dar pro primeiro que passar, não por que eu seja louco ou neurótico, mas porque me acostumei a não ser amado. 14H15

Flávia
Tudo o que eu dei a ele em amor, ele guardou pra mais tarde me devolver em descaso, eu cheguei mesmo a pensar que seríamos felizes pra sempre, acho que foi quando nos casamos e eu disse sim, como eu era tola, precisei me separar dele pra me sentir desejada, pra me sentir cortejada, pra sorrir com o vento de tão bem comida, ainda preciso. Vou dar pra meio mundo de gente até minha mágoa passar e eu perceber que sou suficiente pra mim. 14H23 


Anna
Não sei que tipo de gente a gente é, acho que somos um bando de egoístas, porque nada disso aqui é problema, problema é quando não sentimos nada, porque nada é muita coisa e nada é muita ausência de dor. Ninguém aqui perdeu um membro, um sentido, os movimentos, é muito egoísmo achar que somos mais infelizes do que quem passa fome, a minha fome dele até já passou, acho que agora eu já nem sinto nada. 14H32


Jonas
Ele tinha olhos verdes e cabelos crespos, e eu gostei dele logo que o vi, ele devia ter me dado um fora, mas não, ele tinha que me beijar e fazer amor comigo e depois virar as costas pra mim, como se eu fosse um nada. Será que eu sou um nada ou ele é que morre de medo de viver um romance? Sabe Anna, ás vezes eu sinto nada, mesmo com todos os membros e sentidos e movimentos, todo mundo ás vezes sente nada. 14H47

Carlos
Pior é sentir muita coisa, muita coisa embrulha o estômago, muita coisa fere, eu cansei de sentir muita coisa numa sociedade em que sentir muita coisa é coisa de mulher. 14H51

Jonas
Ás vezes eu sou feliz, no dia em que eu ele nos encontramos e nos amamos eu fui feliz, depois passou, o depois sempre ferra com tudo. 14H54

Carlos
Acho que ela é bonita demais pra mim, extrovertida demais pra mim, autosuficiente demais pra mim, acho que tudo se resume a isso, ao fato de eu não compreender o que ela quer comigo, eu devia perguntar a ela, mas pra que? Seria uma exposição desnecessária, porque se ela me dissesse que me quer tanto quanto eu a quero, eu sorriria por alguns minutos, seria absurdamente feliz por algumas drogas de minutos, até eu olhar em volta e me sentir como eu sempre me senti, e não acreditar em nada do que ela falou, e perder toda a minha paz. 14H58

Flávia
O problema de vocês homens é que em sua desproporcional maioria foram educados de maneira machista, e não foram preparados pra mulheres que se vestem como desejam e são auto-suficientes, com libido e voz, e que acabam se deparando com esses tipos de mulheres, porque essas são as mulheres de hoje, de mini saia e embasamento teórico, e aí perpetuam numa insegurança infinita de que irão levar um chifre na primeira oportunidade, mas não irão, terão a primeira, a segunda e a terceira oportunidade de não serem inseguros, mas se permanecerem assim, levarão sim um chifre, mas na quarta oportunidade e só porque mulheres contemporâneas não lidam bem com a insegurança masculina. 15H12

Anna
Eu tenho medo, medo de ficar sozinha, medo de não ficar sozinha, mais medo ainda de me enquadrar num ideal ridículo, superficial e machista de mulher só pra estar acompanhada, medo do modo de vida atual se resumir a isso, conversas profundas e egoístas em que não nos vemos, não nos tocamos, e só teclamos e gravamos áudios, medo de sermos egoístas o resto da vida, porque aí fora, fora dessa tela, dessa maquiagem do cotidiano que titularam redes sociais, tem gente com problemas reais, há costelas se sobressaindo a fomes, falsas democracias matando nações, dependências químicas aniquilando famílias, membros decepados pela guerra, almas mortas pelo preconceito, mulheres abortando vidas no silencio, e nós aqui, discutindo relacionamentos bobos, encharcados de sentimentalismo e dó de nós mesmos, numa falta de solidariedade absurda. Como é que poderemos então ser amados, se o principio do amor é a generosidade? Quando é que deixamos de ter conversas como essas olhando uns nos olhos dos outros?  Que porra de tecnologia é essa que nos afasta e isola ao invés de nos aproximar? Como  é que é mesmo o novo corte do cabelo de vocês, é esse das fotos de perfil ou já mudou? 15H29

Carlos
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Flávia
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Jonas
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Anna
L L L L L L L L L L L L L   off line. 15H39          Tiara Sousa








































                                                               

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ONDE MORAM OS ESTRANHOS...

Direitos da imagem: Anio Tales Carin
A última coisa que Laura precisa nesse momento é ser Laura, é ter os cabelos de Laura, e a voz de Laura, e os inesgotáveis questionamentos de Laura. A última coisa que Laura precisa é ser ela, porque há um tempo está cansada de ser ela. Então, Laura vai ao salão de beleza, e corta os cabelos, e pinta de roxo, um roxo assim meio lilás, meio marrom, meio adolescente, meio triste. Laura quer ser feliz pra sempre, mas a avó dela diz que pra sempre é muito tempo, é tanto tempo, mas tanto tempo, que o próprio tempo se encarrega de deixar isso pra lá. Laura perde quatro quilos, quatro, porque cinco é muito e três é muito pouco, e porque ela quer se parecer com aquela atriz que faz o maior sucesso na novela das onze. Laura sai do salão, mas ainda tem que fazer algumas coisas pra se convencer de vez que deixou de ser Laura, então ela vai ao shopping e compra uma dessas blusinhas de seda falsa que parecem uma peça de babydoll, mas que todo mundo anda usando ultimamente, porque no fundo ela acredita mesmo que ser todo mundo é melhor do que ser Laura.
Laura sai do shopping já vestida com a blusinha de seda falsa, a blusa é amarela e não combina com nova cor do cabelo dela, mas ela tá se lixando pra isso, ela vai até um desses barzinhos localizados na área nobre da cidade e pede uma dose de whisky, um dia antes ela jamais beberia sozinha, pintaria os cabelos de roxo, usaria uma blusa da moda, mas agora não, agora ela quer deixar de ser Laura, quer esquecer quem ela era antes.

Laura ainda não sabe, mas ali mesmo naquele barzinho ela vai conhecer um cara legal, vai se apaixonar, e vai ficar tão bem que vai deixar o cabelo crescer novamente e voltar ao seu tom natural, e voltar a usar as velhas e boas camisetas e a se preocupar com o combina e o que não combina, Laura vai voltar a ser Laura e a amar ser Laura, vai namorar uns três, quatro, cinco, seis meses com ele, juntos irão viajar até um desses paraísos naturais que tem espalhados pelo Brasil, depois eles irão voltar e tudo vai ficar meio estranho e Laura vai se sentir vazia e transar com um carinha que ela conheceu há muito tempo no curso de Artes, e que fazia anos que não via, daí ela vai contar pro namorado do deslize e ele não irá perdoar, e o namoro vai chegar ao fim. Então novamente Laura vai querer deixar de ser Laura e mudar um monte coisas, mas o vazio ainda vai estar ali, ela vai passar um tempo em São Paulo na casa da tia avó, mas o vazio ainda vai estar ali, ela vai voltar e fazer vestibular pra Arquitetura e vai passar, mas o vazio ainda vai estar ali, ela vai ler “O Príncipe”, de Maquiavel e ficar meio antipática, mas o vazio ainda vai estar ali. E quando ela finalmente deixar de fugir daquele vazio e até se habituar a ele, ele pouco a pouco irá desaparecer, até que não haja mais nenhum resquício dele pela casa, pelas ruas, por Laura. E contrariando a sua sábia, porém endurecida pelas experiências, avó, ela vai ser feliz pra sempre por alguns meses,ou ano, ou anos talvez, até o vazio voltar e ela desejar ser qualquer pessoa ou todo mundo, menos Laura, porque naquele momento ser Laura vai doer demais, e Laura não gosta da dor, ela não aceita a dor, ela não conversa com a dor, ela não quer a dor, ela não entende a dor, se ela entendesse saberia que alegrias ornamentam vidas, mas são as dores que constroem seres humanos. São as dores Laura! Seja lá quem você for, ou quantas(os) forem, ou onde moram, não se esqueça, nunca esqueçam... São as dores que constroem a humanidade. Tiara Sousa

domingo, 18 de janeiro de 2015

TORTURA

A primeira vez que morri usava uma saia longa colorida e lenço preto no cabelo, não recordo da blusa, mas devia ser branca, sempre tive muitas roupas brancas, e eu lembro que por dentro só havia uma sensação imensa de rejeição. A penúltima vez que morri tinha uns 25 anos, usava flor no cabelo e tomava vodca com limonada pra esquecer do amargo da vida, não recordo a roupa que usava, qualquer coisa além do comum, creio.
Por fim cheguei num ponto em que deixei de questionar as coisas, eu as vivia como vive todo bom sobrevivente, devagar e temerosa, tão temerosa que era quase como se não as vivesse. Então finalmente resolvi mudar as coisas de lugar, sentir-se seguro é confortável, mas é também envelhecido como aqueles móveis lindos de madeira, cheios de história, mas sem grandes perspectivas, e então foi assim, colorindo o que não tinha espaço para cores que morri pela última vez. Eu pretendia deixar de fumar, e abandonar de vez o refrigerante e diminuir as guloseimas, mas quando se morre pela última vez, nada do que fazia muito sentido tem algum sentido, levantar da cama é a parte mais difícil do dia.
Olho em volta, são todos sobreviventes, os daquela rua com o esgoto estourado e cheiro fétido e vermes intrusas e os daquela rua de outdoor americanizado, todos sobreviventes. A vida é isso, algumas pessoas te surpreendem e seguram a tua mão nos momentos mais difíceis, é tão tolo e tão triste e tão bonito quando alguém chora por você, igual a moça loira que se embalava numa cadeira e fumava um cigarro e dentre todas as suas dores chorava exatamente pela que não era sua, e isso de alguma maneira deixava o mundo mais bonito. Somos todos sobreviventes, sobrevivemos a dores, fisicas e emocionais, sobrevivemos aos dias nublados e aos ensolarados, sobrevivemos a amores eternos que passam, sobrevivemos a vida, porque não é simples, não vem com o enredo pronto e não é ornamentada por finais felizes e moral da história, a vida não é um romance mexicano e somos todos sobreviventes.
Memórias vão e vem, e eu sorrio na frente dos outros pra fazer de conta que tá tudo bem, ouço dramas alheios pra ficar alheia aos meus, conto piadas que já tiveram graça e não tem mais, porque de alguma forma nos últimos dias nada mais tem graça. Quero gritar, mas tenho medo de alguém me ouvir, cubro o rosto com uma almofada e choro até a minha cabeça doer, então tomo analgésicos até a dor passar e me distraio com o mensageiro dos sonhos a balançar na minha janela.
Acabou, flores não tem cor. Que droga de mundo é esse em que a ignorância maltrata belezas e preconceitos são maiores que virtudes, e vaidades pisoteiam sentimentos? Tá tudo tão grande aqui dentro e tudo tão pequeno lá fora. Quero me esconder, me esconder das lembranças, das paredes brancas de cal, do espelho que me conhecia tão bem e agora parece um estranho, me esconder da minha saliva amarga, da minha pele, de cada célula morta do meu corpo vivo, de atitudes que não consigo compreender.
Não sou do tipo que abraça, que discursa sentimentos, ou se impõe, não lidero motins, eu apenas sinto. E acordo e faço um esforço imenso pra levantar, e sinto uma vez mais. As vezes tudo que preciso é de quem diga... Dane-se que você seja do tipo que não abraça e me force abraços e me obrigue a dizer como eu realmente me sinto, como eu tô ferrada e triste e perdida, ao invés de me deixar fazer como eu sempre faço e dizer que tá tudo bem. Não tá droga, não tá nada bem. Enquanto eu sentir os sentimentos dos subúrbios e ouvir os ruídos dos olhares baixos e me entreter de impressões populares e sentir a dor exata das canções óbvias de tão humildes vou lembrar que um dia o que inteiro me soava belo, (embora nada ali nunca fosse tão bonito aos meus olhos, tão habituados a belezas menos comuns e óbvias do que aquela), foi o que me deixou aos pedaços, mas sempre foi assim, só o enredo da história que mudou, o fim é o mesmo, é comigo de olhos direcionados ao chão catando os meus pedaços. Achei que seria fácil viver como as 7 bilhões de pessoas que povoam o mundo, não é. O fim sempre é o mesmo, e não, não tá nada bem, mas sim, vai ficar, vai ficar tudo bem, sei disso porque não é a primeira vez que morro, e nem será a última. Tiara Sousa.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

CARTA PARA DEUS

“És um senhor tão bonito;
Quanto a cara do meu filho.
Tempo, tempo, tempo... Vou te fazer um pedido.”
Caetano Veloso

Verissa muda as flores de lugar, as flores que ela não tem. Caminha pela sala, tá pensando em não pensar em nada, ela odeia pensar demais sobre pensar demais, ela queria era que a casa engolisse ela e tenta decidir se está de mau humor ou bom humor, se usa o batom cor de rosa ou o vermelho berrante, se pinta as unhas de verde ou de lilás. Acaba percebendo que não tá nem aí pras unhas, nem pra cor do batom, nem pro tom azul acinzentado do céu. Senta á mesa e come alguma sobra de comida natureba que a irmã fez, é um daqueles dias em que ela sente culpa até de ser alguém que come carne, o celular chama, devem ser uma das amigas loucas e tristes e alegres e tolas e fortes que nem ela procurando algum motivo na rua pra conseguir dormir depois, ou então deve ser um daqueles carinhas meio bonitos, meio inteligentes, e cheio de defeitos que ela mesma faz questão de colocar em seus indevidos lugares. Ela queria era que a casa engolisse ela, e que as crianças na África sorrissem como os seus sobrinhos, ela não vai atender o celular, ela vai é cantarolar aquela música estranha de Marisa Monte enquanto chora e sorri por algum motivo óbvio que não vai querer compartilhar com ninguém.
Viviane dirigi, ela sempre dirigi pra onde tem companhias, esse negócio de silencio faz muito barulho, esse negócio de clausura é coisa de quem se ama pouco, essa história de solidão é pra quem é pouco realista. Ela quer é ficar fora de casa, porque em casa é tudo muito normal e ela não aguenta mais isso, ela já foi a menina do interior, ela já foi a esposa, ainda é comum, mas gosta mesmo é de gente incomum, ela quer é fazer amor a beira mar e amar amores impossíveis e usar saias curtas e fazer de conta que tá tudo bem do jeito que está. Aprendeu mesmo a fazer de conta, passou tanto tempo fazendo de conta que estava tudo bem que hoje até ela acredita, menos quando fica só, por isso ela não gosta de ficar só, por isso ela prefere que a casa esteja arrumada e limpa e vazia dela, porque já tem um tempo que tá tão cheia que sente o vazio de tudo. E só ela sabe que felicidade é encontrar a blusa certa pra sua altura e corpo, a música errada pro seu momento e algum texto curto que diga tudo o que ela tá sentindo e não se pareça nada com o que ela vive. Ela tem medo, medo de tudo voltar a ser como era, medo de tudo nunca voltar a ser como era, medo de ser tão ela que nunca mais seja ela, e dividida entre dois mundos publica fotos nas redes sociais onde ela tá sempre sorrindo, porque as maiores dores são impublicáveis e efêmeras e não merecem atenção.
Verissa fala do rapaz que usa palavras bonitas com ela, ele nunca tá por perto, mas ela sempre esbarra com ele, e ninguém tem que entender isso, só ela. Viviane fala do homem do presente, porque passado é coisa de quem não tem consciência que o tempo tá passando, ela nunca teve tanto apreço e nem tanto medo do tempo.
Eu viro os olhos, eu sempre viro os olhos, e finjo não perceber a dor delas, preciso transparecer uma certa frieza e uma certa distancia pra poder dormir em paz ainda que seja as 4 da manhã e com o cinzeiro cheio de pontas de cigarro.
Viviane é uma realista que sabe sonhar. Verissa queria sentir como a menina do filme. Eu queria tomar um porre, mas não posso. E só por isso acho que elas são mais livres do que eu, porque elas nem fazem isso, mas podem, elas podem sair numa sexta feira e beber todas, e essa coisa pequena é a diferença entre a prisão e a liberdade, e tem um monte de grades a minha volta, invisíveis aos olhos mais atentos, e eu tô sempre presa. Eu sou a sonhadora, assisto filmes e leio livros não apenas por passatempo ou prazer ou exercício intelectual, mas somente porque a vida me assusta e os dias mais alegres me soam entediantes.
Verissa muda as flores de lugar, as flores que ela não tem. Viviane dirigi, ela sempre dirigi pra onde tem companhias. Eu queria mesmo era encher a cara e falar besteiras e fazer amizades e sorrir e dançar e cantar e existir uma existência extrovertida e simpática até às 5 da manhã, mas eu não posso, e só por isso acho que elas são mais alegres do que eu, eu que tenho lapsos de memória, atenção altamente prejudicada, pouca agilidade em resolver coisas simples, e tenho elas, as moças que caminharam comigo o ano inteiro e que podem tomar um porre quando quiserem, mas ao invés disso, sentam comigo no chão da casa de Verissa e falam tolices e não tolices até ás 2 da madrugada, e embora eu saiba que elas se entretenham e se divirtam e se curem de dores e mazelas tanto quanto eu nesses momentos, ainda acho (mesmo quando quero tritura-las e esgana-las e discutimos) que elas são as moças mais lindas do mundo só por estarem ali, e fico bem por pensar que elas sejam mais livres e mais alegres que eu. Se eu acreditasse em Deus, enviaria uma carta a ele dizendo essas coisas e pedindo que ele guardasse um lugar bem bonito no céu pra cada uma delas, um lugar onde Verissa pudesse ter todos os tipos de flores imaginárias que quisesse e onde Viviane nunca ficasse só, nem quando estivesse só. Mas como a minha fé se resume ao tempo... “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho”, ofereço apenas um sóbrio brinde ás meninas por tantos anos de amizade, mas sobretudo pelos últimos quatro anos, e pelos últimos 365 dias, e pelas últimas horas, e pelo último segundo, em que não pude tomar um porre, mas tive companhia pra sonhar. Tiara Sousa

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

ÚLTIMOS DIAS ou CARTA DO TEU INCONSCIENTE

Parecia um dia como qualquer outro, se não fosse doer no fim. Acho que a gente nunca sabe do último dia, o último dia em que vamos caminhar por aquela rua tão familiar, o último dia em que iremos comer no restaurante de sempre, ou fazer compras naquela botique de paredes cor de rosa, que parecem acalmar a gente. O último dia em que tudo será como sempre foi, porque antes o mundo inteiro podia estar um caos, tudo em nossa volta podia estar um caos, a gente podia estar um caos, mas bastava nossas vozes se encontrarem em algum telefonema que todos os furacões e ventanias e tornados e vulcões cessavam, porque nós nos  entendíamos como ninguém, como ninguém mais no mundo se entendia, como ninguém mais no mundo pudesse entender, éramos um para o outro a fuga de toda fatigante realidade, perto de nós tudo ficava tranquilo, e ninguém tinha a chave da nossa porta.
Eu queria saber o que mudou? Quando foi que a gente começou a ter brigas bobas e a permitir que os outros entrassem pela nossa porta? Qual foi o último dia que nos entendemos como ninguém mais no mundo se entende? Qual foi o último dia que nossas vozes se encontraram e cessaram os tornados e vulcões? Qual foi o último dia? Se eu tivesse previsto que seria assim, talvez eu tivesse aproveitado melhor aquele dia, talvez recordasse o clima ou atentasse para aqueles detalhes bobos e significantes. Talvez eu soubesse se foi uma quarta ou um sábado, talvez eu o tivesse prolongado.
A vida acontece enquanto o tempo passa, e mudamos, todos mudamos. Não falo das linhas que surgem na face, nem dos quilos a mais ou a menos, nem de calvice ou flacidez, eu falo de conhecimento, de auto conhecimento, de virtudes e caminhos, de sonhos e concepções. Não éramos a dupla perfeita, nem mesmo os inseparáveis como alguns sempre gostaram de falar, éramos a dupla imperfeita e sabíamos que todo espaço que precisávamos nos dar era entre o telefonema da tarde e o da noite, e tanto fazia que pra todos esse espaço fosse pouco, pra nós era o tempo certo.
Eu falava menos, você mais, não sei se porque eu precisava menos ou aconteciam menos coisas na minha vida do que na tua, ou se éramos assim e pronto, mas do pouco que eu falava eu sabia que só você podia ouvir com os ouvidos de soneto, e isso me bastava. Você dava detalhes do seu dia, eu nem lembrava há quanto tempo eu estava a par de todos os seus conflitos, as vezes eu quase confundia a tua vida com a minha, depois passava, chegavam as minhas contas, os meus problemas, os meus sentimentos, e eu lembrava de mim.
Eu não sei dizer qual foi último dia em que eu tive certeza que sempre ia escutar a tua voz, tão familiar. Não sei qual foi o último dia em que você teve certeza que não importava o quão cruel o mundo fosse, ia ter uma “pequena” do outro lado da linha pra te ouvir e torcer por você. E não sei o que mudou além de tudo a nossa volta, mas não era pra ser assim. As experiencias foram cruéis comigo e sei, não parece, mas há tanto tempo já deixei de acreditar em principes e fadas e finais felizes e pra sempre. Mas mesmo não crendo em nada disso, eu acreditava que a gente era pra sempre, mesmo que nada mais no mundo fosse, a gente era. Acho que eu ainda acredito, acho que nisso sempre vou crer. Que droga! Qual foi o último dia em que ser nós era simples como sentar a beira-mar no dia 31 de um mês qualquer e ver o pôr do Sol? Quando é que vamos voltar a fazer isso? Da sua amiga, do seu inconsciente... Tiara Sousa